Foi salientado neste trabalho que o processo de transição política brasileira aconteceu de formas diferentes de acordo com a escala de análise: movimentações políticas de Lages e movimentações em nível nacional, grande imprensa e imprensa local; estruturas e acontecimentos. O governo municipal da cidade de Lages, em Santa Catarina, que se fez conhecer pelo lema Força do Povo, foi tomado como um dos diferentes nós de articulação das linhas que conformaram a dinâmica política de então. O alcance das novas significações atribuídas à democracia e à participação popular, bem como a construção de narrativas expressas com alguma nitidez, ganharam formas singulares quando abordadas na escala das dinâmicas e dos fenômenos sociais situados à margem do processo político mais abrangente.
A partir dos pontos de curvatura verificados nas relações entre imprensa e redemocratização, três acontecimentos-memória destacaram-se por seus resvalos em um regime que perdia legitimidade. Entendeu-se aqui que um importante ponto de curvatura da atuação da imprensa no que se refere a seu papel central na questão democrática, aconteceu em 1975, quando da morte do jornalista Vladimir Herzog. E então, sua atuação como fomentador do processo de transição ganhou relevo a partir das narrativas sobre o acontecimento-esquecimento Lei de Anistia, em 1979. Além de ser responsável por redefinições ainda mais acentuadas na curva em direção à redemocratização e da construção da memória histórica sobre o ciclo autoritário e a abertura política quando da eleição de Tancredo Neves e a sua ―Nova República‖. A Lei da Anistia permitiu o retorno do ex- deputado Márcio Moreira Alves ao país. Interessado pelos processos administrativos adotados pela prefeitura de Lages, escreveu a obra ―A Força do Povo‖, na qual relatou a experiência de democracia participativa na cidade e esta tornou-se um dos possíveis símbolos da redemocratização naquela altura.
Estes diferentes ―nós‖ (marcos do processo de transição) permitiram enlaçar as narrativas da Folha de São Paulo com as do jornal Correio Lageano, para compreender a correlação entre processos de longo alcance temporal e a produção de acontecimentos midiáticos que reorganizaram sentidos, imaginários, símbolos e linguagens sobre o ciclo ditatorial e o processo de transição para um regime democrático no Brasil. Para tanto, foi efetuada a seleção de uma rede de narrativas jornalísticas que engrenou uma determinada orquestração de memória histórica, a partir de acontecimentos específicos narrados amplamente pela imprensa. No elo com esses acontecimentos-chave, adentramos os processos eleitorais na cidade de Lages, por entendermos que as eleições têm o poder de estrear — não
isoladamente — novas configurações políticas e sociais, as quais transmutam culturas políticas na contemporaneidade.
Os desdobramentos sociais, culturais e políticos dos processos que se desenrolaram no ano de 1984 e a valorização do voto popular, simbolizado pelo movimento Diretas-Já, foram compreendidos aqui como parte da agregação de diversas e diferenciadas ações amplamente noticiadas pela imprensa, tomadas como parte da crise do regime, da abertura e da posterior redemocratização. No entanto, a redemocratização envolveu uma série de movimentos, narrativas e conjecturas que foram ordenados em torno do ano de 1974, como momento de atribuição dos sentidos de um novo patamar da tradição democrática brasileira. Naquele ano as eleições adquiriram um sentido novo, na configuração de então, o que resvalou na narrativa da imprensa e nas avaliações por ensejo da data comemorativa do decênio do golpe.
Os processos eleitorais foram dotados de amplas implicações, ao permitir que as redes políticas, as coalizões partidárias, os usos políticos do passado, as mobilizações de memórias de lideranças e o silenciamento de outras, fossem evidenciados. René Remond adverte que as eleições são ―um indicador do espírito público, um revelador da opinião pública e seus movimentos‖. Segundo o mesmo historiador, as eleições têm direito a um lugar privilegiado como elemento incomparável de informação sobre os movimentos de opinião (2003, p. 40- 42). A ressignificação das eleições, em 1974, geralmente vinculada ao crescimento parlamentar da oposição ao regime, também exprimiu-se no âmbito municipal, o qual envolvia um tipo de retórica específica e, muito significativamente, abriu espaço para ensaios de democratização em pontos diferentes do território nacional. Além do que, estratégias em torno de demandas específicas e aspectos das culturas políticas ganharam contornos mais nítidos, cujas dinâmicas podem ser acompanhadas pela a imprensa, como um veículo privilegiado na elaboração dos repertórios através dos quais eram traduzidos aqueles movimentos.
Auge do regime militar, ainda em 1972, quando o otimismo oficialista conjugou-se à mais intensa repressão aos movimentos contrários ao regime, ocorreu em Lages uma suposta ruptura de uma máquina eleitoral de base familiar que controlava o poder público há décadas e abriu caminhos para que lideranças emergentes representassem esperanças democráticas no município. Em 1976, em meio às tentativas da ditadura para conter o avanço do MDB em novas vitórias eleitorais, mesmo em circunstâncias desfavoráveis, ocorreu a eleição de Dirceu Carneiro e o início de uma trajetória que daria à cidade, por pouco tempo, a notoriedade exemplar de símbolo da redemocratização. Porém, nesse jogo de revezes que é a eleição, no processo de 1982, após a reforma partidária que havia redefinido as correlações de forças
políticas, o PMDB, que aglutinava as lideranças da gestão democrático-participativa em Lages, não conseguiu eleger um sucessor na cidade e a experiência não teve continuidade, no momento em que o país consolidava um calendário de redemocratização e os canais de participação passavam a serem reivindicados e, mesmo que lentamente, alcançados.
Nos entretempos entre as eleições municipais do período, o regime manteve em funcionamento certos mecanismos e procedimentos de uma democracia representativa. Eram os paralelos paradoxais: ao mesmo tempo em que Vladimir Herzog (e outros muitos) eram mortos e/ou torturados nas dependências do II Exército, o AI-5 era acionado pelo presidente
da distensão, os canais de propaganda política eram proibidos com a Lei Falcão e a censura à imprensa continuava operando em jornais e revistas da grande imprensa e também da imprensa alternativa; o Congresso e o Judiciário continuaram em funcionamento, manteve-se a alternância na presidência da República; permaneceram as eleições periódicas; e os partidos políticos, apesar de haver uma atividade partidária limitada principalmente no decorrer do bipartidarismo, ainda existiam (KINZO, 2001). Em síntese, a peculiaridade estava nesse arranjo que ―combinava traços característicos de um regime militar autoritário com outros típicos de um regime democrático‖ (KINZO, 2001).
Foi nessas tramas da longa transição política que a grande imprensa e, no caso aqui estudado, a Folha de São Paulo, transmutou sua atuação e com isso a construção de memórias no decorrer do período da transição. Essa mudança foi notada a partir da morte de Herzog e, sob a Presidência de Figueiredo, com o AI-5 extinto, no apoio à aprovação da Anistia que, embora limitada, permitiu a reintegração à vida pública de políticos exilados. Em sua mudança de hábitos, a Folha também aclamava pelo esquecimento. O esquecimento total. A anistia irrestrita.
A partir dali, com a lei partidária que havia posto fim ao bipartidarismo criado em 1966 — o que envolvia ainda uma estratégia do governo de fragmentar a oposição ao regime e diluir as possibilidades de ampla vitória dos dissidentes do regime —, a reivindicação pelo fim do regime autoritário desaguou na campanha pelas Diretas Já em favor da Emenda Dante de Oliveira, e após a rejeição desta pelo Congresso Nacional, na eleição via Colégio Eleitoral, de Tancredo Neves. Evidentemente foi uma transição lenta, negociada, controlada:
conciliada. Mas a própria atribuição de sentidos à memória histórica daqueles anos foi afetada pelo processo de perda de legitimidade do regime. A partir de meados da década de 1970, identificar-se com o autoritarismo passou a ser constrangedor e a grande imprensa apresenta fortes indícios históricos desse processo. O amplo apoio ao golpe civil-militar de 1964 era memória proibida. Durante a transição todos foram resistentes à ditadura, todos foram
democráticos. As interpretações de Laborie sobre o Regime de Vichy na França podem ser úteis na medida em que o autor propõe a existência de uma zona cinzenta ou ambivalência nas relações entre sociedade, incluindo a imprensa, e os regimes autoritários, o que vai além da versão simplificadora de um Estado opressor e uma sociedade vitimada. A realidade é difusa. Nem apenas resistentes, nem apenas colaboradores. O próprio processo de transição permitiu que os posicionamentos se transmutassem ao longo do período, isso fica evidente na análise que fizemos da atuação da imprensa em diferentes circunstâncias no decorrer das décadas de 1970 e 1980.
Mais uma vez, a reflexão acerca da veiculação de memórias a partir dos recursos das mídias de massa, associados à construção de acontecimentos, rende bons frutos para a História do Tempo Presente. Nessa trama que envolveu os anos-acontecimento, as eleições municipais e os acontecimentos-memória da grande imprensa, buscou-se destacar as diferentes ―redemocratizações‖ representadas em diferentes escalas: temporais, espaciais e narrativas. Manteve-se uma correlação constante entre processos de longo alcance temporal e a produção de acontecimentos que acabam por reorganizar sentidos, imaginários, símbolos e linguagens no período de transição política brasileira. Acontecimentos são narrados e ressignificados constantemente e o pesquisador depara-se, assim, com os vínculos entre passado, presente e futuro, seja na produção de memórias ou de esquecimentos, o que comporta o desafio de atentar ao presente-futuro exposto pela imprensa.