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Merknader til konsesjonsvilkårene etter vannressursloven

O conceito de religião sofre modificações variadas em sua estrutura conforme as Ciências da Religião vão expandindo ou diversificando seu horizonte de pesquisa ao longo dos tempos, conforme já se tratou no início desta tese. Dentro da extensa lista de conceitos trazidos por Crawford (2005, p. 13) religião teria relação com o cosmos e a concepção desse pelo ser humano que busca entender o ser, que em tese o criou. Religião teria ainda relação com a ideia de Deus, sua revelação, o sistema de crenças que se desenvolve dentro dos múltiplos conceitos de Deus.

Se no capítulo posterior, trataremos de religião para evidenciar sua força em relação à medicina popular, aqui se recobra e aprofunda tal conceito, pela via da sustentação da base antropossocial que fomenta e mantém a prática da benzeção.

A ideia de uma religião pode ainda estar centrada em símbolos, ritos, livros sagrados, conduta moral, igrejas, denominações tradições, o que é definido por

Crawford (2005, p. 13) como estruturas passageiras ou faces do conceito de religião. Nesse contexto, a religião tem a ver diretamente com a vida humana, com suas tragédias, ilusões, sistemas, crenças, práticas, chegando até mesmo, ao âmbito jurídico.

Autores já mencionados como Rudolf Otto (2004, p. 115), fazem relação entre religião e sagrado, definindo-os como elementos numinosos, não racionais, esquematizados e repletos de significados. Para Otto (2004, p. 115), são predicados sintéticos e essenciais a priore. "A religião não está sob a dependência do %telos& (finalidade), nem do %ethos& (moral) e não vive de postulados#.

De acordo com outro autor:

Religião é uma coisa para o antropólogo, outra para o sociólogo, outra para o psicólogo (e outra ainda para outro psicólogo*), outra para o marxista, outra para o místico, outra para o zen-budista e outra ainda para o judeu ou o cristão. Existe, por conseguinte, uma grande variedade de teorias religiosas sobre a natureza da religião. Não há, portanto, nenhuma definição universalmente aceita de religião, e possivelmente nunca haverá (CRAWFORD, 2005, p. 14, os grifos são meus).

Dentro dessa multiplicidade de compreensões, pode-se afirmar que a religião situa-se em um conjunto de interpretações que só tende a aumentar e se diversificar, à medida que é permeado pelas estruturas que, diariamente, são construídas no âmbito das múltiplas relações econômicas e do mundo globalizado.

Assim, ao repensar uma definição de religião neste terceiro capítulo, quarto tópico, não se pode paradoxalmente pensá-la como única, dogmática e definitiva, pois assim como outros conceitos dentro do campo fenomenológico, a religião para Crawford (2005) é sim um todo múltiplo e complexo do qual se extrai diversos significantes e significados.

Segundo o que se pretende aqui, no sentido de situar o conceito de catolicismo popular como uma extensão do conceito e das práxis da religião, há que se pensar, então, como se articulam tais vertentes, e depois buscar responder como essa forma religiosa popular pode ser analisada e pensada na atualidade.

Por isso, faz-se necessário retomar e diferenciar os conceitos de religião, religiosidade, sistema religioso, manifestações religiosas populares para, então, se buscar entender o locus das benzedeiras, e o como essa tradição se inseriu em nosso contexto cultural, antropológico, religioso e social. Sendo religião, conforme já referi,

um conceito macro, cada indivíduo a vive de forma particular e dentro de uma confissão ou igreja, ou pode possuir um sistema religioso particular ou adotar uma forma religiosa de se relacionar com o que julga ser deus e o que julga ser sagrado.

Para Rudolf Otto (2004) o sagrado seria de antemão a insistência humana de desnaturalizar o mundo, dando-lhe o assombro como perspectiva. A primeira visão de deus seria o assombroso mundo natural, o raio, o trovão. Depois tem-se a ideia de Deus como um ser cósmico, o sol, a lua, as constelações. Por último, deus como homem, um ser à nossa imagem e semelhança. Nesse contexto, três nomes surgem de imediato na interpretação que o autor propõe: sagrado, numinoso e místico.

Para entender melhor esse conceito, há de sinalizar que, enquanto produto racional, Deus é um objeto que pode ser captado pelo pensamento conceitual - e logo uma religião que nos aceita, também é uma religião racional (OTTO, 2004, p. 27).

Para Otto, Deus está mentalmente entendido como o fomentador da religião no homem, dada a necessidade humana de se religar ao criador, ao sanctus, assim, "o elemento racional sobrepuja o elemento não racional, se o excluí completamente ou se é o inverso do que se produz$ (OTTO, 2004, p. 38). Deus seria "um sentimento que a criatura tem de seu próprio nada e que desaparece na presença daquele que está além de, acima de toda criatura# ou antes "uma sombra de um outro sentimento, o sentimento do medo que sem nenhuma dúvida, relaciona-se diretamente a um objeto existente fora de mim$ (OTTO, 2004, p. 40).

Ainda para o Otto: "O sentimento do objeto numinoso [...] o sentimento de ser criatura, é uma consequência que implica, de alguma maneira, uma depreciação$ (OTTO, 2004, p. 41). Assim, sendo um produto ou não de nós próprios, o fato é que a figura das benzedeiras e tantas outras acessam ou transcendem tal força por meio de seu inconsciente, de sua intuição e do sistema de crenças que retroalimentam. Para Otto, o sentimento de dependência é um elemento subjetivo que sobrepuja a experiência do sagrado.

Dentre os dois sentimentos acessados pela mente estão o mystérium e o tremendum que pode ser dito como mirabile ou um espanto genuíno, ficar pasmo ou estarrecido. O mirum ou mirabile é representado pelo incompreensível e inconcebível. Nesse caso, o mistério é o totalmente outro, o totalmente transcendente, o paradoxo ou a antinomia, conforme é acessado. No escopo desta tese, as benzedeiras não são o sagrado, nem o detém, tal qual as religiões, que em cada sociedade ou cultura, embora possam dar a entender, não conseguem reter o

sagrado, o numinoso. No máximo, tais segmentos contêm o sagrado, pois são apenas irradiadores, mediadores, pontífices, de modo que o sagrado parece ser aqui algo que se encontra entre o homem e sua compreensão, sua situação cósmica, um mito, ou seja, uma explicação para algo em determinado momento e circunstância, e que em si contém certa plausibilidade, conforme se vai tratar a seguir.