São vários os pontos críticos que neste momento se colocam a um modelo de jornalismo concebido nestes termos, tanto pelo lado dos jornalistas – que o aplicam ou não – como pelo lado dos leitores – e da sua apetência para o seu uso. Se, atrás, verificámos que os desafios e as oportunidades criadas pelo desenvolvimento de novas tecnologias de comunicação no jornalismo são evidentes, o que importa esclarecer é se se verifica alguma mudança, e em que sentido.
Um estudo realizado com jovens finlandeses revelou que, mesmo com acesso amplo às novas tecnologias de comunicação, o jornalismo continua a ser consumido preferencialmente via televisão e jornais impressos. Isto é: a tecnologia, por si, não altera as práticas relacionadas com o acesso às notícias. O mesmo estudo mostra que o uso interactivo das aplicações relacionadas com o jornalismo é descrito enquanto forma individualizada de entretenimento e lazer, para a maioria, e enquanto plata- forma de cidadania activa para uma minoria (Hujanen & Pietikaimen, 2004:383).
Mas outras críticas, de carácter mais geral, são igualmente recorrentes: desde logo, nem toda a comunicação mediada pela Internet é interactiva; ainda hoje a mai- oria dos jornais online não fornece o endereço de email dos seus jornalistas e editores (Katz, 1994) e, mesmo em casos em que os leitores são explicitamente encorajados a participar (comentar, enviar contributos) e o fazem, esta participação acaba por não ser lida. Neste caso como noutros, sabemos de antemão que a mera disponibilização
de ferramentas que permitam a interactividade diz muito pouco sobre o modo como jornalistas e cidadãos as irão utilizar.
Por seu turno, mas no mesmo sentido, já Michael Schudson, em 1999, alertava para um aspecto crucial, quando definia o jornalismo público como um movimento relativamente conservador. “O jornalismo público exorta os jornalistas a colocarem primeiro os cidadãos”, escreve, “para trazer novas vozes aos jornais, até mesmo para partilharem a definição da agenda com os indivíduos e os vários grupos nas comuni- dades. Mas a autoridade sobre o que escrever, e até o que imprimir, permanece com os jornalistas” (Schudson, 1999:123). Por outras palavras, o que Schudson afirma é que, embora o jornalismo público pregue a interactividade, ele tende a praticar o pro- fissionalismo. Com efeito, encontra-se descrito como todos os “jornalistas públicos” aprenderam, por experiência própria, que as instituições estabelecidas, media incluí- dos, não mudam facilmente. Pedir aos jornalistas para partilharem o poder de decisão ou, simplesmente, ouvirem as pessoas comuns, nunca foi fácil: “às vezes parece uma batalha perdida” (Witt, 2004:51).
Se os problemas enunciados acima são identificáveis na generalidade dos casos, será igualmente verdade que, independentemente das suas limitações práticas, a in- teractividade foi sempre central na autodefinição normativa do jornalismo em geral, e de forma mais enfática, do jornalismo público. Contudo, neste processo, como em muitos outros da vida cívica, são os cidadãos que desempenham o papel crucial – neste caso, na determinação da medida em que as novas tecnologias da comunicação
onlinemodificam o jornalismo. Consideramos, assim, que os usos que o jornalismo
vier a fazer das novas tecnologias de interactividade reflectirão não tanto os desen- volvimentos tecnológicos, como sobretudo os desenvolvimentos sócio-culturais e as práticas de cidadania que os podem incorporar.
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