Segundo Bodgan e Biklen (1994, p. 205) a análise de dados “é o processo de busca e de organização sistemático de transcrições de entrevista, de notas de campo e de outros materiais que foram sendo acumulados, com o objetivo de aumentar a sua própria compreensão desses mesmos materiais e de permitir apresentar aos outros aquilo que encontrou”.
Tendo em conta a natureza da investigação e as técnicas de recolha de dados, a análise de conteúdo e a análise documental são a técnica de análise de dados que utilizámos na investigação.
Bardin (2014, p. 48) refere as diferenças essenciais de procedimento entre a análise documental e a análise de conteúdo:
• a primeira trabalha com documentos; a análise de conteúdo com mensagens (comunicação).
• a análise documental faz-se, principalmente, por classificação-indexação; a análise categorial temática é, entre outras, uma das técnicas da análise de conteúdo.
• o objetivo de análise documental é a representação condensada da informação, para consulta e armazenamento; o da análise de conteúdo é a manipulação de mensagens (conteúdo e expressão desse conteúdo) para evidenciar os indicadores que permitam inferir sobre uma outra realidade que não a da mensagem.
Para esta investigação utilizámos a análise conteúdo para analisar os dados procedentes das entrevistas e a análise documental para analisar os documentos do Ministério da Educação, normativos, relatórios e outros documentos das escolas.
4.5.1. Análise de Conteúdo
A análise de conteúdo segundo Bardin (2014, p. 33) “é um conjunto de técnicas de análise das comunicações”. “Toda a comunicação que implica a transferência de significados de um emissor a um recetor pode ser objeto de análise conteúdo” (Richardson, 1985, p. 178). Para análise dos dados deste estudo recolhidos por entrevista semiestruturada, a análise de conteúdo é o procedimento mais
adequado visto que, “o método das entrevistas está sempre associado de análise conteúdo” (Quivy & Campenhoudt, 2003, p.195). Percebemos que a técnica de análise conteúdo nos permite aperfeiçoar e análise os dados obtidos através de “procedimento sistemático e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens” (Richardson, 1985, p. 176).
A análise de conteúdo “consiste genericamente numa técnica de investigação através da qual se viabiliza, de modo sistemático e quantitativo, a descrição do conteúdo da comunicação” (Pardal & Correia, 1995, p. 72). Segundo Lee (2003, p. 157) esta técnica de análise de dados “é feita sistematicamente e de modo transparente através do uso de regras e de procedimentos explicitamente formulados, sendo desejável que a sua aplicação seja levada a cabo de uma forma coerente e reprodutível”. Ela oferece-nos “a possibilidade de tratar, de forma metódica, informações e testemunhos que apresentam um certo grau de profundidade e de complexidade, como, por exemplo, os relatórios de entrevistas pouco diretivas” (Quivy & Campenhoudt, 2003, 227). Para Bardin (2014, p. 40) a intenção da análise de conteúdo é a inferência de conhecimentos relativos às condições de produção (ou, eventualmente, de receção), inferência esta que recorre a indicadores (quantitativos ou não)”. A autora (ibidem, p. 121) organizou- três fases cronologicamente para a análise de conteúdo: “1) a pré análise; 2) a exploração do material e 3) o tratamento dos resultados, a inferência e a interpretação”.
A pré-análise21 tem por objetivo tornar operacionais e sistematizar as ideias iniciais, de modo
a conduzir a um esquema preciso do desenvolvimento das operações sucessivas, num plano de análise. Enquanto isso, esta fase possui três missões, designadamente: 1) a escolha dos documentos a serem submetidos à análise, 2) a formulação das hipóteses e dos objetivos do estudo e 3) a elaboração de indicadores que fundamentem a interpretação final.
Na constituição do conjunto de documentos é necessário ter em conta as regras:
- da exaustividade (todos os levantamentos dos elementos dos corpus22 devem ser analisados
sem deixar de fora um desses elementos);
- da representatividade (é fundamental selecionar os documentos, devendo ser uma representação autêntica de um universo heterogéneo);
- da homogeneidade (os documentos incluídos no estudo devem apresentar os critérios precisos nas mesmas exigências e devem evitar as particularidades, ou seja, é preciso escolher os documentos homogéneos);
21 Bardin (2014, pp. 121-124). Análise conteúdo.
- pertinência (os documentos escolhidos devem fornecer a informação apropriada para os objetivos do estudo).
A fase da exploração do material “é a fase longa e fastidiosa, consiste essencialmente em operações de codificação, de composição ou enumeração, em função de regras previamente formuladas, o tratamento e interpretação dos resultados obtidos em bruto deve ser feito de modo significativo e válido” (Bardin, 2014, p. 127).
A análise de conteúdo facilita reduzir a complexidade de uma mensagem “visa simplificar para potenciar a compreensão e se possível a explicação” (Vala, 1986, p. 110). Neste sentido, (Bardin, 2014, Esteves, 2006, Vala, 1986) sustentam que o método das categorias permite ao investigador estabilizar, simplificar, classificar e identificar os dados (invocados ou suscitados), de forma a reconfigurar o material ao serviço de determinados objetivos do estudo. Para Lee (2003, p. 159) “os sistemas de categorias têm de ser construídos de acordo com um certo número de princípios básicos; as categorias devem ser exaustivas, mutuamente exclusivas e independentes”. Uma boa categorização obedece aos seguintes procedimentos (Esteves, 2006, citada por Cardoso, 2012, p. 70):
a. a exclusão mútua significa que a grade de categorias está concebida de tal forma que o conteúdo definido para cada uma delas não se sobrepõe.
b. a homogeneidade significa que o único princípio de classificação deve governar a organização das categorias. Trata-se, pois, de uma coerência de critérios que torne a categorização legível como um todo.
c. a exaustividade significa qua a categorização permite acolher todas as unidades de registo pertinentes para o objeto de pesquisa, sem exceção, e que todas essas unidades foram efetivamente codificadas.
d. a pertinência significa que o sistema de categorias criado é defensável à luz das questões de investigação e que cada categoria tem sentido face ao material empírico e/ou ao quadro teórico de partida, se este existir.
e. a produtividade significa que um conjunto de categorias é produtivo se fornecer resultados férteis: férteis em índices de inferências, em hipóteses novas e em dados exatos.
f. a objetividade e a fidelidade são muito importantes no início da análise de conteúdo e continuam a ser válidas. As diferentes partes de um mesmo material, ao qual se aplica a mesma grelha categorial, devem ser codificadas da mesma maneira, mesmo quando submetidas a várias análises.
As categorias e subcategorias, que emergiram da análise de conteúdo às entrevistas realizadas aos educadores de infância e aos professores do EB são apresentadas no quadro 14:
Categorias Subcategorias A. As mudanças curriculares na gestão no currículo e na
avaliação das aprendizagens A2. Alterações nas práticas de avaliação das A1. Diferenças entre o currículo atual e anterior aprendizagens
A3. Influências dos normativos na avaliação das aprendizagens
B. Perspetivas sobre a avaliação das aprendizagens B1. A pertinência da avaliação
B2. Formação dos educadores/professores B3. Conhecimento da legislação sobre avaliação. B4. Intervenientes no processo de avaliação
B5. As funções e modalidades da avaliação C. As práticas de avaliação das aprendizagens desde o pré-
escolar ao 3.º ciclo do EB
C1. Como avalia: Os instrumentos utilizados no processo de avaliação das aprendizagens C2. Quando avalia.
C3. Espaço e materiais para a implementação das atividades
Quadro 14 As categorias e subcategorias do guião de entrevistas
4.5.2. Análise Documental
A análise documental é a “técnica de recolha de informação necessária em qualquer investigação, o recurso a documentos é uma tarefa difícil e complexa que exige do investigador paciência e disciplina” (Pardal & Correia, 1995, p. 74). A maioria dos projetos em Ciências da Educação exigem a análise documental, pois “nalguns casos servirá para complementar a informação obtida por outros métodos; noutros constituirá o método de pesquisa central ou mesmo exclusivo” (Duffy, 1997, p. 90). Bardin (2014, p. 47) define a análise documental “como uma operação ou um conjunto de operações visando representar o conteúdo de um documento sob uma forma diferente da original, a fim de facilitar, num estado ulterior, a sua consulta e referenciação”. Quivy e Campenhoudt (2003, p. 204) sustentam que “os métodos de entrevista e de observação são frequentemente acompanhados pela análise de documentos relativos aos grupos ou aos fenómenos estudados”. Quanto à análise documental, fizemos a análise da estrutura e do conteúdo dos documentos relativos ao currículo e à avaliação das aprendizagens tanto das crianças da EPE, quanto dos alunos do EB, nomeadamente:
- DL n.º 3/2015 (que aprova o currículo nacional de base da educação pré-escolar);
- Currículo nacional de base do 1.º e 2.º ciclo do EB; - Currículo Nacional de base da educação pré-escolar,
- Lei nº 14/2008, de 29 de outubro de 2008 (Lei de bases da educação)
- Plano Curricular do 3.º ciclo do EB e estratégia de implementação (Pacheco, Morgado, Flores & Castro, 2009);
- Reforma curricular do EB: Princípios orientadores e plano de desenvolvimento (Ministério da educação, 2010).