4.2 Relevante funn relatert til hovedfunnene
4.2.9 Organisasjonskultur
Coordenador Técnica da Escola de Futebol Dragon Force Vitalis Park
Entrevista Realizada por Rita Santoalha, 12 de Novembro de 2008
Rita Santoalha (RS) - Vários autores consideram que só é possível concretizar a renovação da realidade desportiva se atentarmos aos problemas emergentes da evolução social. Face ao contacto que o Miguel tem com os pais dos alunos da escola Dragon Force quais os problemas sociais que considera importante balizar para desenvolver o conhecimento da formação em futebol?
Miguel Lopes (M. Lopes) - Daquilo que é a realidade das escolas de futebol e
daquilo que é o contexto específico desses pais, aquilo que nós verificamos é que há um problema emergente que é da falta de tempo, portanto, a maior parte das pessoas têm enormes constrangimentos para conseguir que o filho pratique futebol. E portanto, esse é logo o constrangimento maior e por isso é que normalmente as pessoas procuram um contexto como este, que é um contexto que oferece algumas facilidades pela forma como está localizado em termos da cidade. Para além disso, outros problemas: o problema da segurança, portanto as pessoas não se sentem à vontade para permitir que os seus filhos joguem ou pratiquem futebol num qualquer contexto. Este contexto da escola de futebol é um contexto que também facilita essa questão porque as pessoas sentem-se seguras por deixarem os filhos praticar aqui. Portanto, todo contexto da envolvência e todo o acompanhamento que os filhos têm, permite que os pais possam deixar aqui os filhos e fiquem tranquilos. No essencial é isso.
(R.S.) - E, se calhar, são precisamente esses problemas que quase determinaram directamente o desaparecimento do futebol de rua, não é? A falta de tempo, a falta de segurança lá fora e até a falta de espaços verdes, que não tem tanto a ver…
XVIII
(M. Lopes) - Não vai assim há tantos anos atrás, as escolas de futebol não
existiam. E não existiam por uma razão muito simples: porque qualquer espaço perto de casa, perto da escola era propício a que se jogasse futebol, aquilo a que agora chamámos o futebol de rua. Portanto não havia essa necessidade face ao contexto social que se vivia então, que era um contexto social com muita mais segurança, muito maior tempo livre disponível por parte das crianças e isso permitia que não houvesse necessidade de recorrer a um contexto diferente.
(R.S.) - Se hoje se tem falado tanto do futebol de rua é porque, de facto, a maior parte dos jogadores de top passaram por lá, e se todos passaram por lá é porque o futebol de rua contribuiu de algum modo, o que nós agora chamámos de futebol de rua, para a exponenciação do talento. A minha pergunta é se a escola de futebol Dragon Force importa, por assim dizer, algumas características do futebol de rua?
(M. Lopes) - Repare: o futebol de rua tinha… e esse é um tema sob o qual nós
quando concebemos este projecto nos debruçamos imenso porque o futebol de rua tinha de facto um conjunto de características que permitiam que aparecessem os tais talentos e de facto não há duvida nenhuma relativamente a isso. Todos os jogadores de topo passaram por aí. E o que é que o futebol de rua tinha que enriquecia de facto aquilo que era o processo de desenvolvimento desde criança até chegar a jogador adulto? Olhe, começa pelas condições em que era praticado em termos de espaço, que era praticado em espaços muito diversificados. Para além… portanto, jogavam no pelado, jogavam na relva, jogavam no alcatrão… jogavam onde houvesse espaço. E portanto, isso facilitava que em termos de estimulação houvesse uma estimulação muito mais diversificada. Jogar no pelado com buracos ou com pedras é diferente de jogar no cimento, é diferente de jogar no alcatrão, é diferente de jogar na relva. Para além disso jogava-se com bolas grandes, pequenas, jogava-se com bolas vazias, cheias. Portanto, tudo isso facilitava uma diversidade de estímulos muito diferentes e que actualmente se não
XIX
tivermos algumas das preocupações que nós aqui temos acabam por se perder. Para além disso tinha outras condições, por exemplo, havia um nível de autonomia que nós ganhávamos quando jogávamos futebol na rua, que se o futebol for demasiado institucionalizado e se não houver também algumas preocupações acaba por se perder. Às vezes dizia-se que o futebol de rua não… e há pessoas mais críticas em relação ao futebol de rua: “Ai, o futebol de rua não tinha regras!” e isso é mentira. O futebol de rua tinha regras, agora, eram as crianças que as criavam. Portanto, se uma criança ia jogar para um campo onde normalmente jogavam outras crianças a primeira coisa que eles faziam era definir essas mesmas regras. O espaço muitas vezes não estava delimitado, mas eles sabiam que só se jogava até aquele determinado espaço; as balizas, que muitas vezes eram feitas com as mochilas da escola, não tinham um limite vertical, por assim dizer, mas toda a gente sabia quando é que era golo e quando não era golo. Portanto, isso facilitava uma autonomia muito própria. Eu vou-lhe contar um caso interessante que me aconteceu aqui há uns anos quando eu estava com um grupo de crianças. Na tentativa mesmo de que eles tivessem uma brincadeira mais autónoma disse-lhes para fazerem as equipas e para jogarem livremente. Passei lá ao fim de dez minutos e eles ainda nem se tinham organizado, nem tinham conseguido fazer as equipas porque… Nós temos esse défice muito grande: é que as crianças perderam o tempo para brincarem sozinhas e esse é um problema sobre o qual temos que nos debruçar com alguma seriedade e que o futebol de rua e outras brincadeiras permitiam. É que houvesse essa autonomia. Para além disso o futebol de rua ainda tinha, até por essas próprias regras, tinha outra vantagem que era, normalmente, o jogo processava-se por níveis de desempenho. Isto é… Isto por vezes era feito um pouco à lei do mais forte, mas a verdade é que num grupo de crianças que jogavam bem e que ocupavam um determinado espaço, essas crianças não deixavam que as crianças que tinham mais dificuldades jogassem. Isto reflecte um bocadinho aquilo que é a “crueldade” normal nas crianças, mas repare: este contexto era um contexto de separação de níveis. Portanto, as crianças que jogavam bem tinham um contexto que era desafiante porque jogavam com… inseridas num grupo de crianças que tinham
XX
um nível alto. Por seu lado, normalmente havia também um espaço onde as crianças que tinham menos apetências também jogavam. E portanto, havia essa diferenciação. Era uma diferenciação que era espontânea, mas havia essa diferenciação. E portanto, nós quando pensamos a escola Dragon Force tivemos muita preocupação em retirar do futebol de rua aquilo que de facto tinha de muito rico. Agora, não conseguimos recuperar todas essas características. Algumas são extremamente difíceis de conseguir, nomeadamente a falta de tempo. Nós na rua jogávamos horas, e horas, e horas, e horas, e horas… Actualmente no contexto da escola de futebol é muito difícil ter as crianças a praticar vinte horas por semana, trinta horas por semana. E nós na rua, quando jogávamos futebol na rua, se estivéssemos em tempo de férias jogávamos até muito mais do que vinte ou trinta horas. Portanto, isso tudo somado ao longo de muitos anos dá… dá muitas horas de prática. E portanto, nós também não conseguimos recuperar tudo, mas há coisas que nós conseguimos recuperar se formos cuidadosos e se tivermos essa preocupação, por exemplo, nós aqui jogamos com bolas número 1, número 3, número 4 e número 5 e não há uma separação em absoluto, por exemplo, dessas bolas. O treinador leva um conjunto de bolas e tem bolas número 3, número 4, número 5 e faz com que no meio do jogo está-se a jogar com uma bola 5, de repente a bola 5 sai e entra uma bola número 1. Portanto, essa diferença de estímulo nós temos a preocupação ela exista aqui. Em relação, por exemplo, aos níveis de desempenho, nós aqui promovemos a que se uma criança tem, mesmo que seja mais jovem, um desempenho que nós achamos que é muito superior àquilo que é o normal das crianças da sua faixa etária, ela possa transitar para uma turma de um nível superior ainda que seja com crianças de idade superior. Portanto, já há alguma preocupação em recuperar aquilo que de facto o futebol de rua tinha. Para além disso, a própria intervenção dos treinadores, e esse tem sido também um dos grandes… obstáculos à… ao recuperar aquilo que o futebol de rua tinha de excepcional. A própria intervenção do treinador, ela é assim importante e ela permite… ganhar tempo em muitos processos, mas é se ela for de qualidade. Porque repare: se o treinador promove a que haja uma… quase robotização do jogo, isto é,