O escritor defende que D. Sebastião não morreu na Batalha de Alcácer Quibir e que vagueou por Veneza em Itália e depois foi enclausurado em Castela sem que se soubesse mais dele. O texto do historiador francês Nicolas de La Cléde é transcrito por “Lusitanus” e nele se descrevem os anos de sobrevivência de D. Sebastião pós-Quibir, aparecendo depois da batalha em outras diferentes batalhas, sofrendo severos tratos, por ordem do tio D. Filipe I de Portugal, que lhe herdou o trono e que receoso de que ele viesse a reassumi-lo desterrou-o para Castela, onde se perde o seu rasto.
Nestas passagens do texto de La Cléde, Lusitanus corrobora o destino que o francês traça ao rei desaparecido. Os vários trajetos pós-Quibir mencionados, explicam a “nova vida” paradoxal do Rei que passa a ser considerado um impostor, é vitima de vexames por parte dos Espanhóis em Itália. De facto, apesar das várias provas que os italianos admitiam de que fosse o rei desaparecido, os espanhóis insistiam em negar o seu passado.
Entre estes vários trajetos destaque para o facto de D. Sebastião, segundo La Cléde, permanecer até ao anoitecer após a batalha, “no meio dos mortos e feridos” e depois durante a noite se ter deslocado para o litoral “onde achou uma embarcação portuguesa e nela o Duque de Aveiro, Cristovão de Távora, seu confidente e valido, com o Conde de Redondo”228 partindo nesta embarcação para o Algarve.
As reflexões do rei pós-Quibir sobre “as horrorosas desgraças que ocasionara ao reino com a sua obstinação” fizeram-no definir um novo destino guiado pelo seu sentido muito religioso, “resolvera fazer penitências, e dar a volta ao mundo para expiar os seus pecados” percorrendo os vários continentes como África, Ásia e Europa, deparando-se com cenários críticos “com muitas batalhas contra infiéis”,
227 Lusitanus (1924), Sinais dos... pp. 196-222 228 Lusitanus (1924), Sinais dos... pp. 223-224
sofrendo muitas feridas, que levaram a mudar este tipo de vida: “cansado de andar vagabundo, retirou-se a uma ermida para acabar a penitência”.229
O ermita revelou coisas que o fizeram deslocar para Itália, chegando a Veneza, “onde foi reconhecido pelos portugueses” acabou por ser encaminhado para Pádua pelos conterrâneos receosos de que o prendessem. No entanto, de Pádua foi expulso e enviado para Veneza, “onde foi acusado pelos espanhóis de crimes atrozes, sendo preso e lançado num calabouço do Jardim” acabando por sobreviver com a caridade de algumas pessoas “afirmando sempre que era D. Sebastião, rei de Portugal.” Os espanhóis, irritados, levam as suas queixas perante o governo italiano que, ouvindo D. Sebastião, reconheceram provas evidentes, “revelando negócios de estado, havidos, durante o seu governo, com a chancelaria italiano”, todavia, os italianos não querendo indispor-se com o governo espanhol encarregaram um médico de fazer um inquérito sobre o ocorrido, e as provas não deixavam dúvidas novamente.230
Os italianos retiraram-no do calabouço e o médico foi de parecer que ele saísse de Veneza, “a fim de arredá-lo da vigilância dos espanhóis”. O rei espanhol D. Filipe ordenou então que capturassem o impostor, “os espanhóis o levaram para Nápoles e aí o encerraram no castelo d´Ovo”. Lançaram-no novamente num calabouço e no dia seguinte trouxeram lhe uma corda e uma faca e disseram; “Estes são viveres, que se vos destinam; escolhei dos dois o que melhor vos convém”. 231
Segundo as passagens do texto de La Cléde, D. Sebastião mostrou-se insensível às palavras dos espanhóis e revelou toda a sua crença messiânica em Deus, “diante de um crucifixo, que tinha, e com os olhos nadando em lágrimas” dizia: “Debalde me tentais, cruéis; Deus que me conhece qual a minha inocência, ajudará minha fraqueza, que eu todo me entrego à sua providência”. Nos dias seguintes várias vezes instigaram D. Sebastião a mentir sobre a sua origem como rei de Portugal, contudo o rei firme dizia “Podeis fazer o que quiserdes..., mas eu sou D. Sebastião, rei de Portugal, que depois de ter declarado guerra aos mouros, perdeu uma bem ferida batalha contra eles”.232
Outro episódio deste trajeto de D. Sebastião pós-Quibir descrito nos Sinais dos Tempos, ocorreu com a visita do Conde de Lemos, antigo embaixador de D. Sebastião na sua regência, que resolveu falar-lhe e ouvi-lo. Ao encontrar D. Sebastião, o rei que agora era considerado um impostor diz ao Conde: “Cobri-vos, conde de Lemos. Com que autoridade me mandais vós? tornou o conde. Como rei, replicou D. Sebastião. Não façais que me desconheceis, lembrai-vos que tive bastante motivos para me conhecerdes e eu a vós. Duas embaixadas vos deu a cargo de mim el-rei Filipe, meu tio. Depois disto, entrou com ele em longa pratica sobre os negócios mais secretos, concernentes a estas duas embaixadas o que pôs o Conde em tamanha perturbação”233, após estas palavras o conde intitulou D. Sebastião de
229 Lusitanus (1924), Sinais dos... p. 224 230 Lusitanus (1924), Sinais dos... p. 224 231 Lusitanus (1924), Sinais dos... p. 225 232 Lusitanus (1924), Sinais dos... pp. 225-226 233 Lusitanus (1924), Sinais dos... p. 227
“embusteiro”, todavia, para o historiador francês, isso deveu-se a todas as comodidades e cargos que tinha no serviço à corte de Castela.
Segundo, Là Cléde, o povo tanto em Portugal como Itália, informado do mau tratamento a D. Sebastião, não o podendo consolar da miséria fazia publicamente preces ao céu pela sua consolação e liberdade. D. Sebastião, segundo o autor, quando via um português dizia “Meus filhos pedi a Deus que sustenha com o seu poderoso braço a minha fraqueza. Que eu sou um grande pecador, e o tenho gravemente ofendido...Porém, não me desampareis e fazei que nunca cessem de orar a Deus por mim, nas Igrejas de Lisboa”234
Saído de Itália e transportado para Espanha o vexame do rei D. Sebastião foi ainda maior, percorrendo as ruas e exposto ao riso público. D. Filipe de Espanha temendo que D. Sebastião partisse mandou-o transportar para Castela onde o encerraram num castelo “e nunca mais se ouviu falar nele” segundo o historiador.
Em suma este trajeto das várias vivências de D. Sebastião pós-Quibir, segundo a descrição de La Cléde, vem reforçar a tese do Padre António Vieira, e reforçar o pensamento de “Lusitanus” já que, segundo o documento do juramento de D. Afonso Henriques, descoberto em 1597, coincide com o aparecimento de D. Sebastião em Veneza e as promessas feitas por D. Afonso Henriques «de pôr os olhos da sua misericórdia, na décima sexta geração, quando a prole dos reis estivesse atenuada».235Para Lusitanus este juramento do “Conquistador” refere-se a D. Sebastião que coincide também com o 16º Rei de Portugal e que Deus irá pôr os olhos na sua misericórdia fazendo-o reaparecer, para ser o desejado “Imperador Universal”.