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As mudanças de paradigmas em relação à arte produzida em meados do século XX fez com que a produção estética ganhasse um campo expandido de possibilidades, fazendo com que a categorização da arte entre escultura e pintura fosse superada. O teórico Hans Belting95, em sua obra “O fim da

História da Arte” (2006), destaca que não se pode mais falar de uma História da Arte de narrativa linear, com movimentos e estilos instituídos, mas sim de uma História da Arte construída sob uma mudança de discurso forjado dentro de um contexto histórico-social, marcado por um grande desenvolvimento tecnológico e por uma cultura de massa ávida por bens materiais e culturais. O artista, a partir desse momento, teria a liberdade para caminhar entre todos esses períodos sem se prender a um só estilo ou movimento artístico.

Regina Vater faz parte da geração de artistas que não se prenderam às categorizações de arte. A experimentação é o grande objetivo de sua obra, assim como foi a de Hélio Oiticica e Lygia Clark, grandes amigos e influenciadores de seu trabalho. Tanto na entrevista feita para o vídeo quanto em conversas informais sempre cita o teórico Guy Brett, que comentou pessoalmente com a artista sobre a dificuldade de apontar seu trabalho como integrante de um movimento específico. Como vemos na fala abaixo, Vater não é o tipo de artista que concorda plenamente com as classificações acadêmicas: Eu acho essas classificações acadêmicas um porre... sinceramente...acho que tão/ a maior... a grande parte delas são todas inventadas pelas pessoas...porque as pessoas têm que...essa mania de dar nome...tem que botar numa gaveta...tá entendendo...(...) sabe o que acontece...em vez de dá...deixar a obra respirar...fica uma coisa claustrofóbica...a obra não

135 respira... 96

Da mesma forma, não concorda que ela mesma seja enquadrada em uma linguagem artística, ou seja, como escultora, pintora, etc. Para Vater, criatividade artística surge como uma necessidade de transmitir sua mensagem ao público, não importando o suporte que utilizará para tanto97.

Não, eu fiz uma entrevista a...a Vera Casanova pediu pra fazerem uma entrevista comigo lá em Diamantina...Tem uma hora e tanto de tape...uma menina...uma aluna dela fez...e eu falei pra garota...eu disse...Olha eu não gosto que me chamem de escultora...de vídeo artista...de fotógrafa...de nada...eu sou artista ponto parágrafo...Aí a garota botou o título da...da entrevista assim...Artista, ponto, parágrafo.98

Diante disso, o primeiro bloco do vídeo mostra quatro obras que ilustram o trânsito de Regina Vater por diferentes linguagens artísticas. São estas: Comigo Ninguém Pode, instalação montada em 1993 no teatro Oficina em São Paulo; Para melhora da memória, performance apresentada em 2006, no 38º Festival de Inverno da UFMG (Fig. 30), em Diamantina-MG; The Golden Bough, 1990, instalação, Sophia, 1999, instalação com projeção em vídeo, Tropicália 2, 1968, pintura em guache.

Figura 63: Regina Vater: Tropicália 2, 1968. Guache

Fonte: acervo da artista.

96 Comigo ninguém pode: a voz de Regina Vater, 2014. (00:00:21) 97

Na transcrição da fala da artista, quando ela e as pesquisadoras conversam, usaremos as letras RV para Regina Vater; AP para Arethusa de Paula; e YA para Yacy-Ara Froner.

136 Para Vater o artista precisa estar atento às suas experiências para criar o seu trabalho. Tudo pode ser arte e tudo pode vir a ser arte. O valor (estético, comercial, histórico) dado ao trabalho deve ser a última preocupação do artista quando produz, pois será o tempo que irá estabelecer a importância da obra criada.

Porque a obra no fundo o artista não cria... o artista recebe isso...ele recebe de acordo com a vivência dele... com a maneira com que ele viveu... a... a experiência dele de vida ele é é capaz de virar uma boa antena ou uma/... então ele recebe... é uma coisa que a pessoa recebe...e aí você materializa aquilo na forma de uma canção... de um poema...de uma obra física...mas é uma coisa que tá no mundo....como Paulinho da Viola diz... as coisas estão no mundo e a gente precisa aprender...então eu digo APREENDER né... eu diria... Então eu acho que é tudo uma coisa assim...todo um corolário de coisas que...pode fazer uma obra ser... ser... ter... uma...um... um certo valor ou não...não...Valor comercial é o último...porque esse é um valor às vezes...é...ditado por moda...ditado por... é... por clu... clube... um conjunto de interesses ...de amizades...disso...daquilo...tá entendendo...esse valor...é...eu acho que é o último que existe...quero dizer...ele pode até ser um valor pertinente ou não....Mas é um valor questionável... Eu acho que...eu acho que o tempo é o grande é...digamos assim... eu acho que é o tempo é...eu sempre achei que o tempo é o grande depurador das coisas...o tempo é que vai realmente peneirar.99

Diante desses depoimentos, fica patente a importância da liberdade criativa e experimental na obra de Regina Vater. Além do aspecto técnico, as temáticas que a artista aborda são várias. Observadora voraz do seu tempo, a obra da artista traz discussões políticas, ecológicas, de gênero, sobre a própria arte e o papel social do artista. O que se pode dizer é que Regina Vater faz parte de uma geração que trabalhou com os conceitualismos surgidos em meados do século passado e que continuam a ser propagados ainda hoje.