1.3 Meniscus dynamics
1.3.4 Slip gas flow
No presente estudo concretizou-se o mapeamento dos principais SE providenciados pelos ecossistemas marinhos presentes no Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina. Devido à escassez de informação georreferenciada para a área em estudo foram aplicadas duas metodologias participativas, nomeadamente o mapeamento matricial baseado na opinião de especialistas e colaborativo com agentes locais.
A aplicação prática de metodologias de mapeamento participativo permitiu demonstrar a sua utilidade para uma primeira avaliação do potencial dos SE em áreas caraterizadas pela escassez de informação. Verifica-se que o Recreio apresenta o maior potencial médio, enquanto o serviço de Apanha de Algas e Outros Organismos está associado ao menor. Além disto, os habitats bentónicos rochosos são os que apresentam um maior potencial de provisão para a maioria dos serviços considerados, enquanto os habitats bentónicos arenosos estão associados aos valores mais baixos.
Evidencia-se que as metodologias participativas não são as mais adequadas para o mapeamento de serviços de Regulação & Manutenção que estejam dependentes de processos ecológicos complexos (e.g. Assimilação e degradação de contaminantes). Além disso, também se constata a influência do background académico nos resultados obtidos, particularmente nos SE excluídos do presente estudo.
Vários autores realçam como um dos aspetos positivos do mapeamento matricial, a sua fácil e rápida aplicabilidade para o mapeamento do território (Jacobs et al., 2015; Martínez-Harms & Balvanera, 2012). No entanto, não é evidente para a sua aplicação em áreas marinhas, onde o processo de elaboração e validação da matriz, bem como da identificação de especialistas é bastante moroso e complexo.
As avaliações baseadas em especialistas são subjetivas, sendo influenciadas pelos perfis pessoais dos entrevistados (Burkhard et al., 2009; Martínez-Harms & Balvanera, 2012). De forma, a diminuir a variabilidade entre as opiniões dos especialistas são aplicadas metodologias de consenso, como o método Delphi. No presente estudo, este método foi aplicado a um número selecionado de serviços e habitats bentónicos, para os quais existiam mais dúvidas. Esta abordagem permitiu aumentar a concordância global dos julgamentos, especialmente para SE onde o conhecimento geral era baixo (e.g. Regulação do Ciclo de Nutrientes).
No entanto, este aumento de concordância deve ser analisado com cuidado, dado que a apresentação do valor médio pode ter influenciado os especialistas que não pontuaram na primeira ronda por falta de conhecimento, a que pontuassem na segunda ronda com base nesse valor. Assim, a atribuição desta pontuação poderá ter um nível de confiança inferior (i.e. uma maior incerteza). Este aspeto pode constituir numa limitação do método Delphi, sendo assim necessário compreender a relação entre a aplicação de métodos de consenso e a confiança que os especialistas atribuem às suas estimativas. A análise da incerteza associada às pontuações atribuídas pelos especialistas permitiu identificar os habitats, bem como os serviços onde os especialistas se encontram mais ou menos confiantes na sua avaliação. Verifica-se que os especialistas associam valores de incerteza mais elevados aos habitats
arenosos, enquanto os habitats rochosos estão associados aos valores mais baixos. Relativamente aos SE, o Recreio apresenta os valores de incerteza mais baixos, enquanto a Regulação do Ciclo de Nutrientes está associada aos valores mais elevados. Contudo, para a análise completa da incerteza é necessário considerar outras fontes, como a cartografia base utilizada. Assim sendo, o futuro passa pela quantificação e inclusão da incerteza nos resultados alcançados, de forma a melhorar a fiabilidade dos mapas e melhorar a sua aplicação em contextos práticos.
O mapeamento colaborativo para a Costa Vicentina permitiu complementar os resultados obtidos pelo mapeamento matricial, em particular para as áreas perto da linha costa, bem como identificar semelhanças e diferenças entre a perceção técnica dos especialistas e o conhecimento dos atores locais. Além disto, também foi possível identificar possíveis conflitos entre a realização de determinadas atividades em áreas com regimes de proteção especial, nomeadamente: a apanha de marisco profissional ao largo da Arrifana (Pedra da Agulha e da Carraça); a extração de pepino do mar na área de proteção parcial dos Ilhotes do Martinhal; e a ocorrência de pesca comercial ao largo de Odeceixe e Arrifana. Assim sendo, recomenda-se a realização de um estudo no PNSACV com o intuito de identificar conflitos e avaliar o cumprimento da regulamentação do Parque.
Os resultados obtidos demonstram a discrepância entre as áreas com potenciais de provisão mais elevados e os regimes de proteção, destacando-se assim o potencial contributo da operacionalização do conceito de SE para a melhoria e o melhor ajustamento das zonas com regimes de proteção para o parque marinho do PNSACV. Contudo, devem ter-se sempre em consideração as limitações das metodologias aplicadas e a incerteza associada aos resultados obtidos.
Por fim, ainda importa mencionar a principal limitação do estudo que assenta na falta de informação georreferenciada para a zona intertidal e subtidal, sendo bastante importante na área em estudo para o desenvolvimento de atividades económicas, como a apanha de marisco profissional. Torna-se assim imperativo o aumento do conhecimento e mapeamento destes habitats, melhorando a qualidade e fiabilidade da informação disponível para aplicações futuras.
Apesar das várias limitações do estudo e das metodologias aplicadas, foi possível evidenciar o papel relevante que as abordagens de mapeamento participativas poderão desempenhar para a avaliação dos SE em áreas marinhas. Os resultados obtidos podem ser utilizados para a sensibilização da população sobre a importância do conceito SE na área marinha do PNSACV, servindo assim de base para futuras avaliações de SE na área em estudo, bem como em outras áreas marinhas e costeiras com caraterísticas semelhantes. O futuro passa pela validação dos resultados obtidos através da recolha de dados de campo ou da aplicação de metodologias de mapeamento mais complexas, sendo importante a análise paralela da incerteza associada aos resultados obtidos. Desta forma, o conceito de SE poderá ser aplicado no desenvolvimento de instrumentos de planeamento e gestão territorial ou de planos de conservação.