Através da experiência do sítio ideal de referente arcadiano constata-se que podemos pensar a nossa morte, mesmo temendo-a e, ao pensá-la, dominamo-la; sentimo-nos superiores. Esta singularização tempo-espacial do ser, para Rosário Assunto, “é mais do que a morte, porque é mais do que a própria vida”92.
Em suma, prevaleceu a paisagem ideal, habitada por uma população de pastores que vive em comunhão com a natureza, não se permitindo ser corrompida pela civilização, mas que não se encontra completamente livre do destino que a espera no mundo material. Neste sentido possui quase as mesmas conotações do conceito de utopia, inevitavelmente ligado à Idade de Ouro, entendida, não apenas como o mais antigo do espectro grego, mas como o início da Humanidade; Estado ideal, quando o género humano seria puro e bom.
A inquietante ideia de que esta condição idílica se encontra ameaçada por um acontecimento devastador, confronta o sujeito com a sua mortalidade e estabelece uma ponte para a narrativa judaico-cristã do Éden na expectativa da expulsão.
1.3.2. O Sítio
As classificações de Património Arquitetónico, hoje aceite, incluem – para além dos “Monumentos” e dos “Conjuntos Históricos” - uma unidade bastante importante: o “Sítio”93.O valor patrimonial de um Sítio é, não só dependente da qualidade do edificado por si próprio, mas também do relacionamento entre a paisagem não construída e a paisagem construída; os dois elementos convergem para um todo estruturado, interdependente e uno.
92
ASSUNTO, Rosario – A paisagem e a estética. In: SERRÃO, Adriana (Coord.), Filosofia da Paisagem. Uma antologia. Lisboa: Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, 2011, p. 364. (Publicado originalmente: Il paesaggio
e l’estética.Napoles: Giannini, 2005).
93
Apenas em 1985, quando da Convenção para a Salvaguarda do Património Arquitetónico da Europa, se chegou a uma definição precisa deste conceito, tendo sido estendido (o reconhecimento de património cultural.) a três grupos distintos: “Monumentos” delimitação artificial de criação arquitetónica/artística notável isolada juntamente com a moldura em que está inserida; “Conjuntos” grupos de construções isolados ou agrupados que pela integração na paisagem apresentam um valor especial histórico, artístico ou científico; “Sítios” obras conjugadas do Homem e da Natureza apresentando um valor do ponto de vista arqueológico, histórico, etnográfico ou antropológico. A “Convenção para a Salvaguarda do Património Arquitectónico da Europa”, aprovada em Granada no ano de 1985, foi ratificada em Portugal em 1999. Diário da República, 19 Novembro 1999, Série I, nº 270, p. 8220.
40
O termo “Sítio” é, neste estudo, reduzido no seu campo de abrangência, à sua componente de “Sítio Natural” Esta restrição na aplicação da correspondência do termo destina-se a permitir um percurso pelos fenómenos dos espaços naturais, partindo do princípio que a primeira obra humana não foi o espaço construído mas a paisagem.
O significado apropriador da palavra Sítio resulta da sua eleição e consequente colocação à parte de um conjunto mais global que é a paisagem. Não se trata, contudo, de uma subdivisão assente em premissas dimensionais, uma vez que um Sítio pode corresponder a uma série de escalas e níveis de ambientes, partindo desde os continentes até ao espaço circunscrito (pelo homem) de uma simples árvore.
Apresentando óbvias preocupações na especificidade do Sítio onde se intervém, o crítico de arte Thierry de Duve (1944), na sua abordagem à história da escultura moderna, partilha algumas das ideias de Rosalind Krauss, apelidando-as de “história de insucesso”. Partindo da afirmação do artista Robert Smithson (1938-73) “todo o lugar é um não lugar”, Thierry de Duve expõe a sua leitura da atual tentativa de reconstituição da noção de sítio, constatando, simultaneamente, o seu desaparecimento.94
“A harmonia do Sítio (a ancoragem cultural ao solo, ao território e à sua identidade), do Espaço (o consenso cultural com base na grelha percetiva de referência) e de Escala (o corpo humano como medida de todas as coisas) está destinada ao insucesso”95. Para preservar esta ideia tripartida de harmonia, as intervenções estabeleceram “estratégias” de solidariedade entre dois destes parâmetros, sacrificando, porém, o terceiro.96
94
DUVE, Thierry de - Ex Situ. In: CHARBONNEAUX, Anne-Marie; HILLAIRE ; Norbert (Dir.), Œuvre et Lieu – Essais et Documents. Paris: Flammarion, 2002, pp. 80-89.
95
Ibid., p. 80.
96 Thierry de Duve identifica três estratégias na história da arte pública do séc. XX: - O sacrifício do Sítio, mantendo o Espaço e a Escala (fiel ao princípio sagrado da arquitetura pós-Vitrúvio, a Carta de Atenas reafirma que todas as dimensões e medidas no urbanismo deverão ser baseadas na escala humana – centrada no Modulor imaginado por Le Corbusier – dando coerência ideológica ao Estilo Internacional que tenta ligar fortemente o Espaço e a Escala em detrimento ao Sítio);
- O sacrifício do Espaço, mantendo o Sítio e a Escala. Nem a escultura Balzac (1893/97) nem Les Bourgeois de Calais (1889) de Rodin foram instalados no local previsto, existem contudo várias coleções escultóricas da sua autoria expostas nos vários museus Rodin. Através desta relação de deslocação subsiste uma certa unidade do Sítio e da Escala, assumindo não se tratar do local específico, mas uma dialética entre os dois sítios ambos culturalmente legitimizados); - O sacrifício da Escala, mantendo o Espaço e o Sítio (Constantin Brancusi é bem conhecido pelos seus temas recorrentes, refazendo as esculturas usando, por vezes materiais e proporções diferentes, mas recorrendo sistematicamente a diferentes escalas. Quando as obras saíam do ateliê adaptavam-se ao Sítio, sempre elásticas, referenciadas, não à escala humana, mas ao espaço local. Deste modo a Coluna sem Fim (1925/30) alcança cerca de trinta metros de altura quando instalada no Parque de Tirgu Jiu, mas existe em versões de interior, construídas à medida dos respetivos pés-direitos; A escala foi sacrificada, o local é determinante e o próprio espaço está identificado ao meio).
41