A última das ações aqui apontadas como as mais comuns entre as contribuições de tutoras do Curso de Especialização Ensino-Aprendizagem da Língua Portuguesa é frequentemente percebida em exemplos como os já utilizados nesta seção. Pode-se dizer que uma das principais tarefas de um professor (na modalidade de ensino presencial) ou de um tutor (na modalidade
de ensino a distância), socialmente considerados mediadores por excelência, é incentivar os alunos a refletir, a também buscar as respostas aos seus questionamentos na própria compreensão daquilo que estão estudando.
Mais uma vez, utilizarei a mensagem dos exemplos 7, 8 e 11 para apontar uma passagem em que é clara a intenção da tutora de provocar a reflexão dos alunos nesse sentido:
EXEMPLO 14: M, sua contribuição para nossa discussão no fórum exige bastante fôlego, pois a relação entre pensamento e linguagem é tema que tem despertado inúmeras posições na história dos estudos sobre o próprio homem. Seria impossível aqui encontrar uma resposta definitiva para esse questionamento, e acredito mesmo que nem seja essa sua intenção, mas podemos esboçar preliminarmente algumas posições que são defendidas no âmbito dos estudos sobre a linguagem. Primeiramente, você tem razão em apontar o diálogo também fértil que se estabelece entre Análise do Discurso e filosofia. Dentre todas as correntes que se ocupam da organização e do funcionamento dos discursos, podemos afirmar que todas elas se opõem à concepção de linguagem como expressão do pensamento, como se o pensamento preexistisse à linguagem e o papel da linguagem fosse apenas representar o pensamento de forma material. Se a linguagem não é, então, representação do pensamento, qual a relação que se estabelece entre os dois fenômenos? Uma das posições a respeito dessa relação é a defendida por Jean-Paul Bronckart, no quadro do "interacionismo sócio-discursivo", apoiado nos trabalhos desenvolvidos por Vygotsky. Em linhas bem gerais, é na interação que o sujeito estabelece desde cedo com outros sujeitos que emerge a capacidade do pensamento consciente no homem. Agindo coletivamente, o homem se apropria progressivamente das regras de ação e de comunicação em uso em seu ambiente social e é a partir dessa história social que o homem desenvolve um funcionamento psíquico sistemático acessível à consciência. Portanto, retomando as palavras no texto de Bronckart, afirmamos: "... para compreendermos aquilo que é específico no funcionamento humano, é necessário analisar, primeiramente, as características do agir coletivo porque é nesse âmbito que se
constroem tanto o conjunto dos fatos sociais quanto as estruturas e os conteúdos do pensamento consciente das pessoas. Acerca desse segundo ponto, e para não precisarmos retomá-lo, isso significa dizer, de modo geral, que os conhecimentos são o produto da vida, e não o contrário". (BRONCKART, Jean-Paul. Atividade de linguagem, discurso e desenvolvimento humano. Campinas, SP: Mercado de Letras, 2006)
O questionamento em negrito, que antecede a citação, é um bom exemplo de como a tutora pode estimular seus alunos a refletir sobre a relação entre pensamento e linguagem apesar de tal relação não se basear em pressupostos já superados pela ciência. A utilização de perguntas desse tipo costuma ser encarada como um convite à busca da resposta mais aceitável com base nas ideias de autores da área em discussão.
Uma outra passagem interessante no que diz respeito ao incentivo à reflexão é aquela em que foi postada a mensagem aqui utilizada no exemplo 6. Quando o grupo discutia a teoria das faces, uma das alunas lembrou-se do que lhe disse uma amiga num momento em que procurava emprego e temia uma entrevista a ser feita no dia seguinte. A amiga teria tentado encorajá-la dizendo que outra pessoa, mais limitada do que ela, teria conseguido o emprego. A partir desse depoimento, a tutora postou a seguinte mensagem:
EXEMPLO 15: Você tem razão, G. A sua amiga não lhe poupou várias faces nesse caso, não é? Imagine se ela não fosse sua amiga, hein? Conheci uma pessoa que dizia: "as pessoas com as quais temos intimidade pensam que podem nos dizer o que bem entenderem, o que quiserem". Vale a pena pensar: será que a intimidade e o cuidado com as faces do interlocutor são inversamente proporcionais? O que vocês acham?
A mensagem acima é também um bom exemplo de ocorrência da ação que estou chamando aqui de incentivo à reflexão, e, o mais interessante: a reflexão que a tutora convida os alunos a fazer foi ocasionada pela própria interação e pela contribuição de uma aluna. Iniciativas desse tipo costumam legitimar a troca de ideias e estimular a participação da turma, na medida em que podem tornar tal troca menos tensa.
Antes de passar às impressões que tive ao proceder à observação que me propus fazer nas demais etapas da interpretação das mensagens, considero pertinente destacar que é comum encontrar, em uma mesma mensagem, traços que revelam a intenção de desempenhar mais de uma ação mediadora. Essa tendência se revela não só entre as mensagens postadas pelas tutoras, mas também pelas postadas por alunos. Muitas vezes isso poderá ser observado em exemplos que selecionei.
As cinco ações acima listadas e exemplificadas – incentivo à participação na discussão, avaliação de contribuição de outro participante, explicação de conceito(s)/princípio(s) em pauta e explicação de conceito(s)/princípio(s) em pauta – são, sem dúvida, as mais frequentes entre as mensagens postadas pelas tutoras do Curso de Especialização Ensino- Aprendizagem da Língua Portuguesa. Não só por isso, mas também por expressarem a intenção de mediar no contexto do fórum de discussão deste curso, serão consideradas, aqui, como ações mediadoras, características da mediação feita neste contexto.
Depois da fase preliminar que acabo de descrever, assim considerada pela interpretação de mensagens postadas por tutoras, e não por alunos, passei às etapas que resumo a seguir e que serão objeto de atenção no próximo capítulo deste trabalho.
2.4.2 ETAPA 1: Interpretação das mensagens postadas pelos alunos nas