• No results found

4 Sammenfatning av empiri

4.6 Meldekultur og pasientbehandling

As discussões trazidas nas primeiras subseções deste capítulo abordaram como, em Foucault, dá-se o processo de individualização do sujeito a partir das “técnicas de si” (autogovernamentalidade) como meio de subjetivação e de governo. Com isso, abordamos também a relação que se estabelece entre a referida teoria e as considerações de Orlandi (2001) acerca dessa concepção de sujeito visando, também, aos pressupostos teóricos da Análise de Discurso.

Tendo em vista o fato de que, como afirmado por Sousa (2006), frente ao suposto fracasso do ensino de inglês na escola pública, atribui-se ao professor (individualmente) a responsabilidade e, consequentemente, a “culpa” por esse fato. Assim, nesta subseção, temos por objetivo refletir sobre o

processo de individualização, agora voltado para a relação com a questão da culpa e do fracasso atribuídos aos sujeitos pós-modernos.

A fim de abordarmos tais questões, torna-se necessário retomarmos a concepção de sujeito para a presente pesquisa, explicitando a argumentação de Coracini (2007, p. 151) quando afirma que, na atualidade, é possível “rastrear três tipos de sujeito que se relacionam sem se confundirem e se distinguem sem se oporem”. Um deles seria o sujeito consciente, ou seja, aquele que pode controlar os dizeres e seus efeitos de sentido10. Porém, além desse, há ainda o sujeito do inconsciente, definido por Lacan como barrado pelo simbólico e constituído pela falta, ou seja, aquele que está sempre em busca de seu desejo que jamais se realizará, dada a impossibilidade da completude. Por fim, Coracini (2007) nos aponta para um terceiro tipo de sujeito, sendo ele o sujeito da pulsão ou, para alguns psicanalistas, também denominado sujeito do gozo.

Lembramos que, para a autora, esses três tipos de sujeito, no momento histórico-social atual, nos constituem em uma relação em que “se imbricam, coexistem num mesmo indivíduo e em nós mesmos (sem que nos apercebamos), transformando as relações sociais, as relações humanas, complexificando a subjetividade e tornando casa vez mais difícil compreende-la e apreendê-la”. (CORACINI, 2007, p. 151)

Assim, como será possível observarmos nas análises do corpus, cada um desses tipos de sujeito será importante para a discussão acerca da responsabilidade do professor de inglês da escola pública. Em alguns momentos, despontará nos dizeres dos entrevistados o imaginário de que, como sujeito consciente, centrado e uno, o professor pode (e deve) se responsabilizar por determinados elementos envolvidos no processo de ensino e aprendizagem da língua. Em outros momentos, despontará uma noção de responsabilidade permeada pelo sujeito do desejo que, motivado pela falta constitutiva de sua subjetividade na relação com o idioma e com o espaço escolar público, responderá de modo a tentar “preenchê-la”, em um movimento pela busca da completude.

10 A autora ainda postula a divisão desse sujeito consciente entre o sujeito cartesiano (racional, centrado) e o psicológico (centrado em suas sensações).

Por fim, também será possível observarmos dizeres em que o sujeito do gozo se faz presente, na medida em que os processos de individualização (e, com eles, as idéias de “responsabilidade individual”, “culpa”, “frustração”, “decepção”, entre outras) serão alvo de análise.

A respeito da responsabilidade relacionada à noção de “culpa”, podemos citar Lipovetsky (2007, p. 6), o qual afirma, na sequência do que postula como uma cultura da culpabilidade, que “temos agora o tempo das culturas da ansiedade, da frustração e da decepção”. Ao vivermos em uma sociedade "pós-moralista", o cotidiano deixa de se calcar no dever e na moral para trazer ao centro o bem-estar, o individualismo e os direitos subjetivos – naquilo que o autor denomina como hipermodernidade. Esta lógica faz com que cada vez menos assumamos a responsabilidade pelo outro, a não ser que nossas atitudes altruístas nos tragam benefícios. Nossas relações passam a ser imediatistas, frágeis e permeadas por sentimentos de decepção e depressão que trazem à tona o contínuo incitamento ao consumo e ao gozo, característicos da sociedade hipermoderna, em um ciclo interminável (LIPOVETSKY, 2005; 2007)

Bauman (2008) propõe uma reflexão acerca do que ele chama de “individualização” na sociedade moderna. Com base no trabalho de Norbert Elias11, ele diz haver uma relação recíproca entre “sociedade” e “indivíduos”, uma vez que “a sociedade moderna existe em sua atividade de 'individualizar', assim como as atividades dos indivíduos consistem na remodelação e renegociação, dia a dia, da rede de seus emaranhados mútuos chamada 'sociedade'” (BAUMAN, 2008, p. 62).

A partir disso, o mesmo autor comenta que participar desse “jogo individualizante” não é opção, sendo que a culpa e a frustração fazem parte desse cenário social. Em suas palavras:

Se ficam doentes, é porque não foram resolutos e engenhosos o bastante ao seguirem o regime de saúde. Se ficam desempregados, é porque falharam ao aprender as habilidades para se saírem bem numa entrevista, porque não tentaram com afinco ou porque estão, pura e simplesmente, envergonhados de trabalhar. Se não estão seguros a respeito de suas carreiras futuras e se angustiam quanto

11 Norbert Elias, The Society of Individuals, Michael Schröter (org), trad. Edmund Jephcott, Oxford: Blackwell, 1991.

ao futuro, é porque não são bons o suficiente em fazer amigos e influenciar pessoas, e porque falharam em aprender como deveriam as artes da auto-expressão e de impressionar os outros. É isso que lhes é dito, e o que eles chegaram a acreditar, de modo que se comportam 'como se' essa fosse de fato a verdade sobre a questão (BAUMAN, 2008, p. 65).

Assim, com uma tendência individualizadora na nossa sociedade atual, cada um se torna responsável por seus fracassos e sucessos. Isso acabaria gerando nesses homens e mulheres, aos quais o autor se refere, culpa e frustração até mesmo por responsabilidades a eles atribuída pelo simples discurso neoliberal que pressupõe o esforço pessoal como determinante no futuro dos indivíduos.

Tendo em vista, então, essa primeira discussão sobre o tema da responsabilidade, englobando diferentes aspectos sobre a subjetividade dos indivíduos (como a questão da moral como técnica de si, a responsabilidade como uma resposta a essa demanda do discurso da ética, e os diferentes tipos de sujeito que nos constituem na atualidade), passemos para a análise propriamente dita nos capítulos seguintes.