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8. Analyse

8.2 Mekanismers påvirkning på sykefraværet

A organização do Serviço de Visitação Alimentar constava de três fases: 1ª fase – criação e implantação – fevereiro a dezembro de 1945; 2ª fase – Inquérito Domiciliar ou Social – fevereiro a maio de 1946, e 3ª fase – Clube dos 4E e das Donas de Casa – início maio de 1946.

A formação das Visitadoras de Alimentação, realizada pela Escola Agnes June Leith, do Ceará e pela Escola Firmina Sant‟Ana, de Belo Horizonte, era ligada diretamente ao SAPS, sendo que suas atividades eram fiscalizadas pela Divisão Técnica, do Rio de Janeiro. O Serviço de Visitação Alimentar era parte essencial na formação dessas profissionais, como atesta o depoimento de uma visitadora (entrevista realizada em 07/07/2008):

(...) Nós tínhamos os Clubes dos 4E. Então reunia crianças a quem a gente dava instrução, orientação, não de letras, mas comportamento, de educação física; várias coisas em termos de comportamento. E também as mães, a gente reunia; e visitava as famílias; a gente ia à casa de cada uma. Aqui na avenida 13 de Maio, que era um matagal a gente veio fazer estágio nessa região. Ainda tem gente da época que fazíamos visita aqui e que a gente ainda encontra. Daí fazia instrução de alimentação, de administração da casa; principalmente alimentação. A gente se voltava com muito carinho para a parte alimentar.

Para entender, realmente, como se processavam as atividades dessas profissionais, será interessante analisar os depoimentos realizados pelas visitadoras durante o I Congresso de Visitadoras de Alimentação, realizado em Fortaleza em 1947.

Esse Congresso, no teatro José de Alencar, reuniu visitadoras de diversos estados, setores da sociedade e comunidade, sendo que não existem dados sobre o número de participantes. Algumas palestras foram proferidas sobre o funcionamento do Serviço de Visitação Alimentar, assim como foram descritos diversos relatos sobre as experiências das visitadoras em vários estados do País. Serão analisadas, primeiramente, as palestras e depois o relato de experiências de visitadoras.

3.1.1 Palestras

As palestras eram proferidas na comunidade, igrejas, escolas e no restaurante do SAPS–CE. Seguiam uma sistemática e organização oriunda da Divisão Técnica da sede do SAPS localizada no Rio de Janeiro. Eram organizadas de acordo com a disponibilidade dos participantes das localidades e realizadas uma vez por semana ou quinzenalmente.

A descrição das palestras relatadas a seguir foram oriundas dos Anais do I

Congresso de Visitadoras de Alimentação (que têm os relatos na íntegra), realizado em

Fortaleza, CE, em outubro de 1947.

Na primeira palestra, a visitadora Sônia Moreira Alves de Souza fez uma análise dos métodos empregados no Serviço de Visitação Alimentar do SAPS, sob orientação de dois espaços: um pela Divisão Técnica, do Rio de Janeiro, sob o controle da Turma de Educação (janeiro a outubro de 1947), e outro supervisionado pela Escola Agnes June Leith (janeiro a dezembro de 1946), no qual foi expressa a ideia de que a fome crônica não é um problema nacional, mas universal.

Para suprir as deficiências alimentares da população, as visitadoras têm o papel de educar e difundir conhecimentos sobre alimentação racional. Em seguida, exibiu os resultados da pesquisa realizada com 100 famílias moradoras no bairro de Jacarecanga – Vila Operária, pertencente à Fábrica de Tecidos São José.

Situação geral – salários baixos, sendo que as despesas com aluguel, luz e mercearia consomem quase todo o orçamento doméstico; presença de várias doenças, sendo tuberculose e doenças venéreas as mais comuns; os operários trabalham sem proteção – sem máscaras ou luvas;

tipo de alimentação encontrado – arroz, feijão–de–corda com um pedaço de linguiça ou toucinho salgado, farinha de mandioca, café e pão. Ausência de gordura para tempero; e

cocção dos alimentos – normalmente cozidos com água com sal, sendo que leite, manteiga, peixe, carne bovina e verduras são consumidas com menor frequência por causa do elevado preço.

Ações desenvolvidas no Ceará: formação de Clubes de Donas de Casa, Clube de Moços, Clube de meninos, Clube de meninas, que baseiam suas atividades no lema Aprender a fazer fazendo, do Clube dos 4E, e auxílio alimentar.

O inquérito realizado no Distrito Federal apresentou os seguintes resultados: tipo de alimentação encontrado – arroz, feijão preto, linguiça ou qualquer

conserva, farinha de mandioca, chicória, chuchu, couve, café, pão e gordura (cardápios);

cocção dos alimentos – os hábitos alimentares são similares aos dos nordestinos, sendo que o consumo de farinha é ínfimo em comparação com aqueles (hábitos); e

o consumo de leite e frutas é pequeno, entretanto, o de verduras é maior do que o dos habitantes do Norte e Nordeste.

O trabalho desenvolvido no Rio de Janeiro abrangia: visitação domiciliar para inquérito de dados estatísticos e orientação às donas de casa, auxílio alimentar (distribuição de refeições em caminhões térmicos pelo SAPS), desjejum escolar.

O desjejum era constituído de frutas, mingau, café com leite, tapioca, pão, sucos e canjica, sendo que ele mudava de acordo com os hábitos alimentares da localidade em que atuava a visitadora. Este desjejum era farto porque havia a ideia de que se a criança se alimentasse bem aprenderia melhor (Visitadora da Alimentação – 1956, entrevista realizada em 07/07/2008).

A aplicação do método dos clubes, tanto em Fortaleza quanto no Rio de Janeiro, visava à formação de uma Consciência Alimentar coletiva e possuía o seguinte lema: onde todos se unem muito se realiza. Ela seria desenvolvida por meio da atuação educativa das visitadoras, tanto nos restaurantes, quanto nas escolas, creches e visitas domiciliares, pois se acreditava que, ao se mudar o padrão alimentar da população, ensinando–a a se alimentar racionalmente, se contribuía para a formação dessa consciência.

A segunda palestra, proferida pela professora Maridete de Almeida Cruz, teve por tema Alimentação. Ela se reportou à importância da alimentação racional na vida dos diferentes povos, enfatizando sua relevância no desenvolvimento e progresso do País e, também, o papel da alimentação para o melhoramento da produtividade e conservação da família, raça e espécie. Mais uma vez, se nota que os princípios eugênicos eram dominantes na época – educar para melhorar a produtividade da classe trabalhadora, sendo visível a valorização excessiva da função alimentar:

O valor do homem é a primeira riqueza de um povo, e a produtividade de uma nação depende da capacidade, da cultura e da saúde de todos os seus componentes. Está provado que, sem alimentação racional, não pode o homem constituir a riqueza de seu país, antes pelo contrário é um peso morto para si e para a sociedade a qual pertence, é um entrave ao progresso. A alimentação veio justamente atender ao problema humano, pois é a aplicação racional das leis da nutrição ao desenvolvimento do indivíduo; a manutenção de suas funções orgânicas, a produção do trabalho visando tudo isto é conservação da família, da raça e da espécie. É a chave da força física, da capacidade do trabalho, do ânimo para as lutas, do vigor e da boa disposição, da alegria e da vitória na batalha contra as doenças. Não há saúde sem boa alimentação porque a alimentação representa a própria vida. Ela é na sua extensão e no significado a mais preciosa força com que conta o organismo animal para desenvolver–se normalmente, para crescer e manter a saúde em seus níveis desejáveis. Só as populações com um coeficiente perfeito, sob o ponto de vista nutritivo, poderão sobreviver às contingências que naturalmente aparecem com os aspectos mais variados (SAPS, 1947:133).

Relatou os hábitos alimentares nas diversas regiões do mundo, finalizando com a situação do Brasil, onde a subfome crônica é permanente, enfatizando que, se esse estado não for corrigido, o povo será sempre econômica e socialmente debilitado, e que somente por meio da educação alimentar se poderia mudar o quadro no País. A importância da merenda escolar foi apresentada como o caminho adequado para a criança, na infância, adquirir bons hábitos alimentares, e também como poderia trazer outros benefícios, como melhorar o crescimento infantil, proporcionando um desenvolvimento físico adequado e melhoramento do rendimento escolar.

A terceira, proferida pela professora Conceição de Maria Lemos Bastos, sobre o tema Educação das Mães, alertava para o fato de que somente educando as mães se poderia educar as crianças; e de que a higiene pré–natal proporcionaria às mães crianças saudáveis, assim como a alimentação adequada durante a fase de crescimento. Nesse contexto, o papel da visitadora como educadora e incentivadora de hábitos alimentares racionais era fundamental, inclusive no que se refere ao crescimento do consumo de leite de vaca pelas famílias.

A quarta palestra, ministrada por João Cavalcante Figueiredo, sobre o tema Psicologia da Criança, mostrou a importância da disciplina Psicologia da Infância no currículo da Escola Agnes June Leith. Essa disciplina, ministrada no segundo trimestre do curso, tinha, segundo ele, importância fundamental no trabalho desenvolvido pelas visitadoras nos Clubes dos 4E, pois saber respeitar e lidar com personalidades diversas são fundamentos para se conseguir educar efetivamente crianças e pessoas de modo geral.

A quinta palestra, com o professor Walmir Farias Peixoto, sobre Hortas Domésticas, mostrou a utilidade da preparação das visitadoras para orientação às famílias sobre como semear e manter suas plantações, ensinamentos esses que eram difundidos aos frequentadores dos Clubes dos 4E e Clubes das Donas de Casa. Reportou–se também à importância da difusão da fruticultura, aconselhando a plantação de mamoeiros nas residências das famílias visitadas, já que ele é rico em vitaminas A e C, e também da bananeira, pelo fato de sua fruta ser mais popular do Brasil e frutificar o ano inteiro. Outro assunto por ele abordado foi a avicultura, argumentando que, ao criar galinhas poedeiras ou

de corte, as famílias teriam lucros imediatos e o consumo de ovos e galinha aumentaria. Por último, falou da importância de se incrementar o desenvolvimento da apicultura, a qual, além de também ser excelente fonte de renda para as comunidades, já que o mel além de ser reconstituinte orgânico possui propriedades medicinais. Encerrou sua palestra dizendo que as visitadoras deveriam dar condições para que a comunidade fizesse uma criação de abelhas, instalasse horta doméstica, criasse tecnicamente galinhas e plantasse árvores frutíferas.

Após as palestras, a professora Maria Odete André Gomes proferiu discurso de paraninfo da 8ª Turma de Visitadoras de Alimentação, centrando seu pronunciamento na necessidade de formação de técnicos que pudessem proporcionar aos menos favorecidos conhecimentos de práticas alimentares saudáveis que pudessem melhorar a qualidade de vida destes.

Situou a Visitadora de Alimentação como trabalhadora social que procurava atuar junto à população carente, lutando contra a ignorância alimentar, melhorando o orçamento doméstico e contribuindo para a formação de um novo brasileiro – saudável e produtivo.