Para essa análise foram utilizadas as 50 células classificadas como complexas. Essa ação se justifica pelo fato de que as células simples sofrem variações em sua atividade dependendo da fase do estímulo. Isso ocorre porque as células simples possuem partes excitatórias e inibitórias bem definidas em seu campo receptivo. Dessa forma, conforme as barras que formam a grade senoidal se movimentam pelas regiões do campo receptivo dessa classe de célula, é provocada uma excitação ou uma supressão na sua atividade. Assim, não é possível distinguir precisamente se o efeito do piscar sobre a atividade das células simples é causado pelo ato de piscar propriamente dito ou pela modulação gerada pelo estímulo. Nessa análise foram utilizadas as respostas neuronais obtidas através da utilização do paradigma 1 (Fig. 29A).
Das 50 células complexas isoladas, 75% (37/50) apresentaram uma diminuição de sua atividade durante o piscar. Entretanto, somente 45% (17/37) das células desse subgrupo apresentaram uma diminuição significativa da resposta (p<0,03; Wilcoxon Signed-Rank) quando comparada à atividade sustentada estimada antes do piscar, apresentando uma porcentagem de diminuição de aproximadamente 70% [64,5 – 86,5]. Exemplos representativos dessas células são mostrados na figura 30A e B. O restante do
subgrupo (55% - 20/37) também apresentou uma redução na atividade (37% [24,1 – 54,9]), entretanto, sem significância estatística (Fig. 30C).
Figura 30: Exemplos representativos do efeito do piscar sobre a atividade neuronal durante estimulação visual com uma grade senoidal. (A – B) Os histogramas de densidade de disparos e gráficos do tipo raster mostram duas células isoladas (SUA) em que o piscar causou uma redução significativa da atividade. (C – D) Algumas células isoladas apresentaram ainda uma redução da atividade, entretanto, sem significância estatística. Cada gráfico da célula isolada é acompanhado do efeito gerado também na atividade multiunitária (MUA – atividade geral captada pelo eletrodo), representada nos gráficos do lado direito. Ao lado esquerdo é mostrado em preto e azul os formatos dos potencias de ação de cada célula isolada e da MUA, respectivamente. As sombras cinza que acompanha as linhas pretas nos gráficos indicam o intervalo de confiança (95%) do cálculo dos histogramas de densidade de disparos. A linha vertical vermelha e as horizontais cinzas indicam o início do piscar, a atividade espontânea da célula (linha sólida) e o limiar calculado pelo método de shuffling (média-2*DP; linha pontilhada), respectivamente. As cores vermelha e preta nas trilhas do raster se referem ao piscar reflexivo e o espontâneo, respectivamente.
É importante ressaltar que, apesar do nível de significância não ter sido atingido, a diminuição da atividade foi abaixo do nível definido pelo método de shuffling (média – 2*DP; calculado sobre 1000 repetições). Para o restante da amostra (26% - 13/50) não foram encontrados modulações significativas na atividade para a maioria das células (Fig 30D; p>0,05), sendo que para 4 unidades foi observado um aumento na resposta, o qual foi maior do que o limiar estabelecido pelo shuffling (média+2*DP). Entetanto, somente uma dessas células apresentou um aumento estatisticamente significativo (p=0,03; Wilcoxon Signed-Rank). Na figura 30 (lado direito) são mostradas as modulações causadas pelo piscar em toda a atividade celular registrada pelo eletródio (atividade multiunitária – MUA). Como observado, as modulações tendem a acompanhar o efeito observado nas células isoladas (atividade unitária – SUA). Realizando uma comparação entre o nível de diminuição da atividade celular das células isoladas (SUA) e da atividade nos canais (MUA), observa-se que a SUA apresenta uma diminuição significativamente maior (50% [10 – 65]) do que a MUA (15,1% [25 – 37]; p<0,001; Wilcoxon Signed-Rank). Esse resultado sugere que o piscar modifica a atividade das células próximas de forma ligeiramente diferente.
A tendência central da diminuição de resposta causado pelo piscar para a população de células pode ser apreciada na figura 31A. Observa-se que o piscar causa uma redução significativa (p<0,001; Wilcoxon Signed-Rank) da atividade neuronal (8,1 disparos/s [3,4 – 11,6]) quando comparado à atividade sustentada (15,4 disparos/s [6,7 – 24,3]). Um ponto importante a ser observado, é a relação entre a modulação da resposta neuronal pelo piscar e a porcentagem de oclusão da pupila. Como mostrado no capítulo
anterior, a coruja não oclui toda a pupila em muitos eventos e essa característica pode ter influência no nível de diminuição da resposta, de modo que, quanto maior a oclusão, maior é a diminuição da atividade neuronal. Para responder essa questão, foi correlacionada a porcentagem de supressão causada pelo piscar com a porcentagem de oclusão da pupila para todas as células (Fig. 31B). Não foi encontrada correlação entre essas duas variáveis (rho: -0,05; p = 0,88; correlação de Spearman), indicando que a diminuição observada na resposta independe do nível de oclusão. Esse resultado também sugere que, apesar de não ter realizado um mapeamento da posição do campo receptivo do neurônio em relação à pupila, a oclusão parcial da mesma pela pálpebra parece ter sido suficiente para bloquear a estimulação neuronal.
Figura 31: Efeito do piscar sobre a população de células. (A) Comparação entre a atividade obtida 120 ms antes (atividade sustentada) e 120 ms após o inícios da piscada de todas as células analisadas. (B) Correlação entre a porcentagem de supressão gerada pelo piscar e a porcentagem de oclusão da pupila para cada célula. Os valores negativos de supressão indicam que o efeito do piscar sobre a atividade neuronal resultou em um aumento da atividade e não uma diminuição. Não foi encontrada uma correlação significativa entre essas duas variáveis. * = p<0,01.
Para fornecer indícios de que o nível de atividade sustentada calculada em 120 ms antes do piscar reflete o nível médio da atividade evocada pelo estímulo, foi realizada uma comparação entre o número médio de disparos obtidos nesse período com o calculado pelo processo de shuffling para todas as células avaliadas. Como pode ser observado no gráfico de Bland-Altman da figura 32A, os valores obtidos 120 ms antes do piscar são praticamente iguais aos gerados pelo processo de shuffling (a diferença entre as duas medidas fica distribuída em torno de zero – linha sólida),
indicando que as duas medidas são equivalentes. Além disso, aproximadamente 96% (48/50) dos pontos estão distribuídos dentro de um intervalo de confiança de 95% (linha pontilhada no gráfico). Estatisticamente, as duas medidas não apresentaram diferença (atividade sustentada = 15,2 disparos/s [6,1 – 24,3]; shuffling = 15,0 disparos/s [9,2 – 23,8]; p = 0,70; Wilcoxon Signed-Rank). A título de comparação, também foram obtidos controles 400 ms após o início da estimulação sustentada. Realizando novamente a comparação (Fig. 32B), fica claro que a retirada do controle do início da estimulação gera valores maiores (25,3 [14,4 – 42,7]), e estatisticamente significativos (p<0,001; Wilcoxon Signed-Rank), do que o outro método. Portanto, a utilização da atividade antes do piscar como controle parece ser a mais correta, apesar do estudo apresentado por Gawne e Martin (2000) ter utilizado o início da estimulação para comparação.
Figura 32: Gráficos de Bland-Altman dos controles obtidos antes do piscar (A) e 400 ms após o início da estimulação com a grade senoidal (B). A linha sólida e as linhas pontilhadas em ambos os gráficos indicam a média da diferença entre valores e os limites do intervalo de confiança de 95%, respectivamente.