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A ideia geral que norteou a elaboração dos questionários desta pesquisa baseou-se nas premissas de Bulea (2010:30), que define como medir a validade de conhecimento transmitido na formação a partir do texto, verificando os efeitos dessa prática na transformação do pensamento consciente, através do agir dos formandos. A sua teorização tem fundamento nos princípios do ISD89.

A autora propõe técnicas aplicáveis num contexto de interação verbal e recomenda métodos e técnicas de análise e a utilização de diferentes formas de atuação, nomeadamente a instrução sósia, a entrevista de explicitação e a entrevista clássica, métodos que privilegia por estarem ligados à utilização da linguagem e à formação do indivíduo através do texto. Advoga ainda que essas formas de atuação se encontram baseadas exclusivamente na utilização da linguagem e quase exclusivamente na linguagem oral.

Para a autora, a instrução sósia e a entrevista de explicitação permitem aferir do agir humano, especialmente nas questões mais difíceis de responder e nas quais a entrevista clássica leva em consideração o que é dito pelo entrevistado, independentemente do contexto de enunciação. Este tipo de entrevista supõe ainda o que é dito de forma voluntária pelo entrevistado, mas também aquilo que este afirma com apoio do entrevistador. Bulea (2010:34-35) sublinha que a entrevista permite aferir a subjetividade dos entrevistados e verbalizar a ação vivida e aspetos implícitos difíceis de apreender sem que o entrevistado os formule, mas sendo mencionados com a ajuda do entrevistador através de procedimentos técnicos específicos.

Em seu entender, ao colocar as questões, o entrevistador deve precaver-se de formular  perguntas  como  “porquê?”,  evitando  agir  sobre  o  conteúdo  do  que  é  referido,   optando por perguntas genéricas e descritivas que permitam obter informação sobre a

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Bronckart (2006b: 9-10) define o ISD como um quadro teórico epistemológico que surgiu de estudos baseados no papel da linguagem do ponto de vista cognitivo. Segundo o autor, o ISD é uma corrente, não é uma teorização linguística, nem psicológica, nem sequer sociológica. Não é um modelo de análise de discurso nem uma teoria. Mais adiante iremos referir-nos a este quadro teórico.

99 forma do que é dito pelo entrevistado. Para tal, a autora considera ser importante fazer perguntas  com  verbos  de  ação,  como  por  exemplo  “em  que  consiste  o  facto  de  fazer  x?”,   o que, como diz, permite ter respostas com informação sobre algo que se realizou no passado e não o que acontecerá no futuro ou algo hipotético.

Inspirando-nos nos princípios que norteiam a elaboração de perguntas para essa avaliação, criámos o questionário de pesquisa, ao qual os alunos, sujeitos desta pesquisa, responderam por escrito. Assim, obtivemos uma representação90 do seu agir e dos efeitos das práticas realizadas com base no texto literário o que, consequentemente, nos levou a uma compreensão do que norteia a promoção da interculturalidade, aferido a partir da perspetiva dos alunos.

Importa referir que os princípios do ISD vêm do interacionismo social e que se dedicam ao estudo da ciência do texto. A ideia central que norteia esses princípios foi utilizada para a constituição do modelo de questionário que analisa o resultado do trabalho realizado a partir do texto literário no ESG.

Ao abordar a questão da ciência do texto, Bronckart (2005:48) refere que os mecanismos do ISD permitem a produção e interpretação91 de entidades verbais que contribuem para a transformação de pessoas e interagem ou ajudam na transformação de factos sociais. Segundo Bronckart (2006b: 9-10) o ISD permite medir a validade de conhecimento transmitido no âmbito da utilização da linguagem e práticas discursivas, a partir da operacionalização dessa prática ou da verificação das transformações do pensamento consciente. Esse mecanismo fornece princípios para formar pessoas a partir do texto e influenciar as suas ações, após um processo de formação com recurso a linguagem. O   autor   (2006b:12)   enfatiza   que   o   ISD   estuda   “os   efeitos   das   práticas   de  

linguagem sobre   o   desenvolvimento   humano”   através de textos ou discursos.

Considerando que o ISD é uma variante do interacionismo social, que ele designa de ciência do humano e que contribuiu para práticas de natureza didática.

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Para reflectir sobre os comportamentos dos alunos seria necessário mais tempo para observar como é que estes agem e respondem a determinado fenómeno, em função do que aprenderam a partir do texto, numa situação real de aula, aplicando-se metodologias centradas num acompanhamento a par e passo de ações em torno dos sujeitos sociais de pesquisa. Uma vez que os alunos tiveram que preencher um questionário (não filmámos, nem acompanhámos a ação de formação realizada a partir do ensino da literatura), apenas foi possível inferir a representação do seu agir.

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É de referir que, em outras pesquisas, os princípios do ISD foram amplamente utilizados em práticas pedagógicas de produção de textos, mas muito raramente na sua receção.

100 Bronckart (2006:9-10) defende ser possível fazer-se a mediação do processo de ensino-aprendizagem a partir da didática do texto a fim de realizar a formação das pessoas e desenvolver as suas capacidades, isto porque, segundo ele (2006a:10), o ISD tem  a  especificidade  de  “postular  que  o  problema da linguagem é absolutamente central e decisivo  para  a  ciência  do  humano”.  Esta  é  composta  por  mecanismos  de  discussão  de   dinâmicas sociais e de processos de socialização secundária que podem ser aprendidos em processos de formação e que podem influenciar o agir humano, tanto no que concerne ao seu conhecimento, como no que diz respeito às identidades. O autor defende ainda que a linguagem e as práticas discursivas baseadas em textos e ou discursos são capazes de formar um pensamento humano consciente por serem instrumentos fundamentais para o seu desenvolvimento e por interferirem no agir humano.

Para medir a validade de conhecimento transmitido e para verificar os efeitos das práticas de linguagem sobre o desenvolvimento das pessoas, Bronckart (2006a:9-10; 2007:44-47; 2007:71-72) destaca três níveis referentes aos princípios do ISD.

O primeiro nível integra formações sociais, quadros que organizam relações entre indivíduos e o seu ambiente, atividades de linguagem e conhecimento coletivo – organizados de acordo com diferentes sistemas lógicos. Tal como o autor menciona, no âmbito do desenvolvimento humano os processos de individualização não se dissociam dos de socialização.

O segundo nível considera o comportamento de mediação formativa através de processos de integração ou socialização de crianças e jovens no uso da linguagem em determinada cultura escolar.

O terceiro trata de questões que dizem respeito aos efeitos que exercem as mediações formativas sobre os indivíduos, caraterizadas por duas componentes, a saber: a que tem a ver com o pensamento fundador da persona e o outro, que trata das condições de desenvolvimento das pessoas e das suas capacidades ativas (resultantes das representações realizadas pelo próprio indivíduo ou da sua interação com o coletivo, na mediação do processo de ensino-aprendizagem, no âmbito da didática do texto).

Empregando esta corrente, é possível medir-se a validade de conhecimento transmitido com recurso ao texto e influenciar o seu agir, bem como apreender os efeitos das práticas de linguagem sobre o desenvolvimento das pessoas e formar um pensamento humano consciente – suscetível de os remeter para o relacionamento intercultural. É

101 nosso entendimento que, caso o resultado das práticas através da linguagem não tenham o efeito desejado, o processo pode ser corrigido, uma vez que as ações das pessoas pode ser avaliado e estimulado.

Em Bronckart (2007:22-24), vemos (re)afirmado que a investigação interacionista se baseia no desenvolvimento do ser humano, no contexto da organização social em que este se encontra envolvido, considerando os efeitos da interação semiótica. Permite transformar  as  pessoas  em  seres  “conscientes  da  sua  identidade  e  capazes  de  colaborar   com as outras na construção de uma racionalidade do universo que as  envolve”.  O  autor   defende ainda que as posições do interacionismo se encontram interligadas às capacidades psicológicas das pessoas.

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