Geralmente, quando se fala de espaço, o primeiro aspecto que se pensa é o geográfico, denotando a necessidade do homem de se localizar no mundo e no contexto temporal. Na narrativa literária, estando seus elementos inter-relacionados, o espaço tem uma função que só pode ser compreendida se se relacionar com os demais elementos constitutivos dela como personagem, enredo, aspecto temporal, etc. Portanto, a personagem pode ser situada fisicamente, num espaço geográfico; temporalmente, num espaço histórico; em contato com outras personagens, num espaço social e, em relação ao aspecto existencial, no espaço psicológico.
Tendo em vista essa configuração, pela qual a personagem é percebida e identificada por outras personagens e, igualmente, estas por ela, o protagonista perpassará por esses espaços que, no presente da sua escrita, já se encontram alojados na memória, dado seu distanciamento da experiência. Nesse sentido, sua narrativa constrói-se desde o cruzamento de tempos e espaços, viabilizando-lhe, assim, a seleção dos espaços a partir dos quais ele pretende narrar suas vivências, ou melhor, retratar aquelas que mais o impressionaram. Portanto, sua intenção se reveste do propósito previsto nos dizeres: “todos os abrigos, todos os refúgios, todos os aposentos têm valores de onirismo consoante. Não é mais em sua positividade que a casa é verdadeiramente ‘vivida’, [...] O verdadeiro bem-estar tem um passado”. 95
Quando o protagonista atentou para a escrita da sua experiência, ele se encontrava no norte da Europa, na companhia da trupe de atores, dando curso às viagens de apresentação da comédia. Planejou instalar-se numa cidade, mais ao sul, na companhia das três crianças da trupe, as quais adotou, despedindo-se dos atores para se instalar numa “cidade branca que cozinhava ao sol entre vinhas e oliveiras”.96
Essa viagem não implicou apenas num deslocamento geográfico, como também no de tempos.97 O protagonista parte dos países nórdicos no presente e se dirige ao futuro pelo que postula com sua nova instalação, ou seja, um ambiente propício que lhe possibilite escrever
95 BACHELARD, [198-], p. 22. 96 SAER, 2002, p. 135.
97 Para abordar esse deslocamento do protagonista para dar cumprimento à escrita, eu me inspirei na forma em
que está sendo tratado o deslocamento de Isaías no capítulo primeiro, intitulado: Os ritos e sua narração em
sobre seu passado. Dessa iniciativa pode-se concluir que sua viagem vai incorrer em outra, a viabilizada pela memória.
Ao mencionar a cidade branca, no fragmento acima, o enteado destaca dois tipos de plantação: vinhas e oliveiras, apropriando-se da imagem para evocar o lugar e o objetivo do retorno. Tanto a vinha quanto a oliveira são árvores cultivadas na Europa; logo, são indicadoras desse lugar. A cor branca, metaforicamente, pode-se relacionar a duas vertentes: a primeira, sinalizadora de lugar, faz alusão aos povos arianos ou indo-europeus, à etnia branca que deu surgimento à cultura européia; a segunda pode estar associada a um espaço em “branco”, a ser definido. Nessa cidade, ele se instalará numa casa branca, fará uso de um quarto de paredes brancas, quase vazio, onde se valerá da folha em branco para escrever sua história.
Nesse sentido, a cor branca aponta para espaços definidos, porém lacunares, os quais se revestirão de significado para o protagonista e narrador, que retoma outras moradas alojadas na memória. É isso o que o move e que está em consonância com o que pontua Gaston Bachelard: “E quando nos lembramos das “casas”, dos “aposentos”, aprendemos a “morar” em nós mesmos”.98
Estas duas árvores apontam para a tradição. O vinho sempre foi tomado como símbolo nas celebrações em diversas culturas tanto em rituais religiosos como em solenidades culturais desde a Grécia antiga (as festividades oriundas da safra da uva, quando Baco, o deus do vinho, era homenageado) e a oliveira ganhou relevância com o seu óleo, que alimentava as chamas dos candeeiros nas civilizações antigas. Uma vez que ambos os produtos eram tradicionais nos países França, Itália e, principalmente, nos ibéricos, o protagonista quis, por meio da alusão feita àquelas plantações, deixar implícito que fixou residência na Espanha, seu país de origem, depois de ter passado por inúmeras cidades européias com a trupe de comediantes e cumprido várias temporadas.
Num primeiro momento, o histórico dessas plantações sinaliza para o emprego dos seus produtos em rituais (o vinho e a chama proveniente do óleo) e, de igual modo, eles estão presentes numa prática do narrador que antecipa o momento da escrita. Todas as noites ele celebra um ritual antes de empunhar a pena.
Uma vez instalado na “cidade branca”, o que toca o enteado em relação às cidades, de forma geral, é a sensação de estar em suspenso ao tipo característico de vida levado pelo homem urbano, em termos de atividades e entretenimentos. Baseando-se na aprendizagem
adquirida com os índios, ele afirma que nas cidades “a vida é horizontal, porque as cidades dissimulam o céu”.99 Com essa expressão, ele deixa entrever o desconhecimento do citadino
em relação ao que ele experienciou.
Considerando o distanciamento dos fatos ocorridos ao protagonista, uma vez que se decidiu pela escrita muito tempo depois do seu retorno à Europa, o seu registro se fará à base da colagem das imagens e, portanto, da imprevisibilidade de um conteúdo lembrado, pois ele consente que “é no presente que convivem as imagens que se entrecruzam, se refletem e se apagam novamente”.100