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Quando descobri os livros, descobri um outro jeito de viver.

(Maria Lúcia Medeiros)

Natural de Bragança, Pará, Maria Lúcia Fernandes de Medeiros, mais conhecida por seus amigos e familiares como Lucinha, nasceu em 15 de fevereiro de 1942. Ao vir para Belém, ainda criança, aos doze anos de idade, passou a estudar no colégio Gentil Bittencourt. Apaixonada por livros, ela prestou o vestibular e foi aprovada para o curso de Licenciatura em Letras, na Universidade Federal do Pará, em 1967, que concluiria em 1970. Não demorou muito para que conseguisse um emprego em uma das escolas mais conceituadas daquela época, Escola John F. Kennedy, como professora de Comunicação e Expressão em Língua Portuguesa, onde trabalhou nos anos de 1972 a 1974. Com o intuito de sempre se aperfeiçoar, concluiu especialização em Teoria Literária na Universidade Federal do Pará, em 1978 e, logo depois, passou a fazer parte do quadro de professores da mesma universidade pela qual se graduou. Ainda no âmbito profissional, em 1985, ocupou a função de especialista em leitura, aplicando treinamento aos professores da rede pública na Região Amazônica, no programa “Salas de Leitura”, projeto nacional do Ministério da Educação e Fundação de Assistência ao Estudante. Em 1991, passou a ser consultora da Casa da Linguagem, Fundação Curro Velho, cargo que ocuparia até quase o final de sua vida. No âmbito pessoal, em 1961 aproximadamente, Maria Lúcia passou a viver com seu futuro esposo, Mariano Klautau, com quem criou quatro filhos.

A contista começou a aparecer em 1984, quando Fanny Abramovich organizou Ritos

de passagem da nossa infância e adolescência, e Maria Lúcia Medeiros teve seu conto “Corpo inteiro” publicado nessa antologia. Esse foi só o início. Depois disso, a editora Roswitha Kempf, de São Paulo, em 1988, editou e publicou o primeiro livro de contos da escritora paraense, intitulado Zeus ou a menina e os óculos.

Em 1990, a editora paraense Cejup, que mais tarde, em 1994, publicaria Quarto de

hora, lançou o segundo livro de contos de Maria Lúcia Medeiros, Velas. Por quem?. Esse último foi depois republicado em edição especial, na Coleção Nossos Livros, pelo jornal A

Província do Pará, em 1997.

Em 1991, com dois livros de contos publicados, Maria Lúcia Medeiros teve o seu

ABC: José Arthur Bogéa (como ela, professor, escritor e crítico literário) escreveu, em uma espécie de folder literário, o que chamou de ABC de Maria Lúcia Medeiros, publicado pela

Editora Universitária da UFPA. Esse ABC traz, além de prefácio do próprio autor, palavras e comentários de A a Z, em uma espécie de pequeno dicionário, que descrevem a escritora paraense e sua obra.

Em 1993, Maria Lúcia participou, na Sorbonne, em Paris, do Colóquio Nouvelles

D’ailleurs [Notícias de além] e, ainda nesse ano, apresentou em Andebuch, Berlim, o conto

“O dia em que Johannes Brahms tocou o teu diário”.

Em 1994, no mesmo ano em que foi lançado Quarto de Hora, a autora teve o seu texto, “O lugar da errância”, publicado no livro Amazônia e a crise da modernização, do Museu Emílio Goeldi, de Belém do Pará. Aliás, esse foi um ano promissor para sua carreira de escritora: além de ter publicado o conto “A pedra, a claridade” na Revista Infos Brésil, de Paris, dois de seus contos foram traduzidos para outras linguas: “A pedra, a claridade”, para o francês, por Michel Riaudel, e “Corpo Inteiro”, para o alemão, por Ute Hermmans. Participou, ainda, da Feira de Livros de Frankfurt, com leitura de conto próprio, “Corpo Inteiro”, em mesa formada por várias outras figuras da literatura brasileira, como Lygia Fagundes Telles, Caio Fernando Abreu, Márcio Sousa e Ivan Angelo. De volta ao Brasil, participou, como debatedora, no Simpósio Nacional de Leitura, no Centro Cultural Banco do Brasil, na cidade do Rio de Janeiro. Ainda em 1994, a cineasta Flávia Alfinito adaptou para as telas o conto “Chuvas e trovoadas”, integrante da coletânea Zeus ou a menina e os óculos. Do conto foi feito um curta-metragem que se pode dizer bastante fiel ao texto original. Com duração de 14 minutos, o curta, assim como o conto, conta a história de garotas “costureirinhas”, que assistem a aulas de costura, no que parece ser a Belém da Belle Époque. No entanto, entre as meninas da história há uma que se diferencia das outras: uma menina mais livre. O filme conta com um elenco renomado, constituído por Patrícia França e, como narrador, José Mayer. A adaptação obteve boas críticas e ganhou diversos prêmios, em 1995: melhor fotografia, no Festival de Gramado, e melhor direção de arte, no Festival de Brasília. Ainda em 1994, também para as telas, Mariano Klautau Filho, filho de Maria Lúcia Medeiros, dirigiu o documentário Escritura Veloz, produzido por Cláudio de La Rocque Leal. O filme une e apresenta depoimentos sobre a obra e a vida da contista.

Em 1995, época em que Medeiros destacava-se mais e mais como escritora, o antigo

Jornal da Jinkings (periódico editado pela então Livraria Jinkings, o qual circulava entre os intelectuais de Belém), número dois (fevereiro, março, abril de 1995), publicou um artigo de duas páginas, dedicado exclusivamente à escritora. A matéria, além de trazer informações sobre a vida da contista, ressaltou seus trabalhos e destaques nacionais e internacionais, inclusive as traduções de seus contos e a adaptação de “Chuvas e Trovoadas” para o cinema.

Trouxe, também, comentários sobre a escritora, feitos pelo poeta paraense Max Martins, por Marton Maués, Cláudio de La Rocque Leal e Sônia Malcher, todos figuras conhecidas no meio intelectual paraense.

Em 2000, a Boitempo Editorial publicou o livro Horizonte Silencioso, a quarta obra de Maria Lúcia Medeiros.

Logo depois, em 2001, a contista começaria a apresentar sintomas de uma devastadora e irreversível doença, o Mal de Charcot ou Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA), enfermidade que degenera progressivamente os neurônios motores no cérebro e na medula espinhal, causando uma atrofia muscular, seguida de crescente fraqueza muscular, até a completa paralisia. Ela não afeta, contudo, a consciência e a lucidez.

Maria Lúcia Medeiros, que continuou escrevendo, ganhou, em 2003, uma antologia de seus contos, da Editora Amazônia, na coleção Pará Didática. Como vem escrito em uma das orelhas do próprio livro,

[a] ideia de produzir a coleção Pará Didática surgiu da constatação de que era imprescindível revelar ao público leitor do Pará e do Brasil o talento extraordinário dos escritores paraenses, nomes conceituadíssimos nas letras e mestres na arte de escrever [...].

Em 2004, a Secretaria de Cultura do Pará publicou uma plaquette, um pequeno livro contendo um ensaio de Maria Lúcia Medeiros, O Lugar da Ficção, sobre seu próprio ofício de escrever, como gostava de chamar. Um texto autobiográfico, intercalado com poemas de sua predileção, que contam muito do momento que a escritora vivia.

No final desse texto, Maria Lúcia Medeiros revela:

Tenho trabalhado incessantemente. Tenho lutado contra a dolorosa força de proteger meu texto de uma realidade que se faz de silêncios. Mas confesso que tenho lutado em vão. Pensando melhor não será o silêncio o som de que preciso neste momento para encontrar o lugar da ficção? (MEDEIROS, 2004, p. 17).

O silêncio mais profundo chegou afinal. Mas sua voz segue nas linhas de seus contos, nas falas de suas personagens, nas interpretações dos leitores e críticos.

Pouco depois de “Lucinha” falecer, em 2005, foi lançado Céu Caótico também pela Secretaria de Cultura do Estado do Pará, com prefácio de Amarilis Tupiassú.