7 Analysis of the media’s reaction to and the coverage of the political crisis
7.2 Media’s reaction and coverage – analysis
2.1- A exigência do público no jornalismo
Existe um espaço de dualidade, entre a prática e o pensamento, entre o jornalismo e a erudição, que precisa de ser desbravado, problematizado e reequacionando. A questão pública, ou a exigência do público no jornalismo, está no cerne das nossas preocupações neste trabalho. E orientar-nos-á como problema intelectual podendo ser proposta como desafio ocupacional no campo da imprensa em Portugal, designadamente, em termos laboratoriais, na imprensa regional.
E porquê na imprensa regional? Porque em estudos desenvolvidos anteriormente (Amaral, 2006) constatou-se que, também neste sector da comunicação social, tradicionalmente mais conectado com as comunidades, há um predomínio da agenda política e das fontes institucionais. Significa que em termos de rotinas e lógicas de cobertura mediática, à semelhança dos resultados apresentados pela EREC, esta imprensa dita de proximidade não difere da grande imprensa. O que nos leva a questionar essa “ligação à comunidade” e o lugar dos cidadãos. Ou seja, até que ponto também a imprensa regional e local não está desencontrada com a sua clientela natural, no sentido de recuperar a vida pública e apoiar uma democracia viva nas pequenas e médias comunidades.
Recorre-se ao contributo de um movimento regenerador do compromisso jornalístico para com a sociedade e a democracia, que se desenvolveu mais activamente a partir da década de 90 nos Estados Unidos. Trata-se do jornalismo público (public
journalism) também conhecido como jornalismo cívico (civic journalism) ou ainda
jornalismo conectado com a comunidade (community-connected journalism). De acordo com Michael Schudson (1999:118), é um dos movimentos sociais mais importantes e melhor organizado dentro do jornalismo na história da imprensa norte-americana, cuja ascensão recente não pode ser compreendida se não se tiverem em conta as
monumentais transformações por que passou a sociedade americana, a partir dos anos 60 e 70: reformas sociais, políticas e económicas20.
O seu epicentro deu-se no ano de 1988 quando, numa reação à cobertura da campanha presidencial norte-americana, o jornalista Davis Merritt, editor do jornal Wichita Eagle, propôs um novo “contrato” entre os candidatos e os jornalistas que, na prática, significasse uma cobertura mediática mais focada nos temas com que os cidadãos mais se preocupavam e menos com aquilo de que os políticos queriam falar. Merritt propunha uma mudança significativa na premissa do jornalismo de campanha em defesa de um novo princípio (inspirador de todo o movimento): fazer a campanha, “cobrir” o que importava aos cidadãos.
O objetivo central residia na reconfiguração da relação prioritária dos jornalistas. Em vez de esta privilegiar (quase exclusivamente) políticos e os seus agentes, provocando uma espécie de distanciamento da vida real, a meta seria focar a agenda jornalística nos problemas e preocupações reais dos cidadãos. Impulsionar aquilo a que o próprio Merritt chamou de “discussão informada e comunitária de temas críticos” (Jay Rosen, 1994). Seguiram-se diversas experiências exploratórias destinadas a mudar a relação fundamental entre o jornal Wichia Eagle, a comunidade e as pessoas que servia. A sua principal característica consiste na valorização da participação dos cidadãos. Mas importa, desde já, clarificar as diferenças entre jornalismo cívico e jornalismo cidadão. No primeiro, como vimos, mantém-se a intervenção do jornalista profissional. O que muda é a vontade de quebrar velhas rotinas e desejo de uma nova ligação com os cidadãos e as suas verdadeiras preocupações. O segundo, ao contrário, é um modelo emergente a partir da segunda metade dos anos 90, com a explosão do jornalismo online, e é tão só aquele em que existe participação direta de pessoas não jornalistas. São modelos distintos, podendo naturalmente dialogar até pelas possibilidades que as plataformas informáticas podem trazer (e trazem) na recolha dos problemas sentidos pelos cidadãos.
A marca mais reformadora dos media, hoje, é talvez a acentuação e diversificação das formas através das quais acolhem e incentivam os seus públicos a expressar opiniões e posições sobre questões de atualidade. Os inquéritos, as sondagens, os fóruns, os chats, etc, impulsionaram fluxos de comunicação e correntes de opinião
20 Sobre a origem e desenvolvimento do jornalismo público, cf. Anthony J. Eksterowicz, Robert Roberts
e Adrian Clark , “Jornalismo Público e Conhecimento Público, in Traquina, Nelson e Mesquita, Mário (orgs.) Jornalismo Cívico, 2003, Livros Horizonte, Lisboa.
diversas. O que é verdadeiramente novo é a escala com que ocorrem estes processos, graças às potencialidades das novas tecnologias. Mas será que estas formas de consulta e de expressão, estatística e politicamente aproveitadas por alguns media, têm efetivo valor ou significado substancial? Será que os contributos dos cidadãos para os diversos espaços de opinião são objeto de leitura e análise nos próprios meios que os albergam? Será que a voz do cidadão comum, que se procurou escutar, tem verdadeiro valor jornalístico? Será que os temas ou preocupações da agenda do cidadão encontram reflexo na cobertura jornalística?
É aqui que o movimento do jornalismo cívico entronca e se distingue do jornalismo cidadão – embora não defendamos uma separação linear até porque em termos conceptuais não podemos assumir uma definição hermética, como se de uma fórmula científica se tratasse. Quando muito, como defende o próprio Merritt (Rosen, 1994:48) o jornalismo cívico, em lugar de um conjunto de regras, assume-se como uma convicção e a consequente atividade sobre a relação entre o jornalismo e a vida pública.
Em síntese, o jornalismo cívico reclama oferecer um novo modelo de como o jornalismo pode e deve dar um significativo contributo para a democracia. Numa perspetiva de reforma da imprensa na sua relação com os destinatários, a experiência do movimento testemunha iniciativas que tentam empenhar os cidadãos na vida cívica, criar ou melhorar a discussão pública, redesenhar o retrato que os jornalistas apresentam de forma a centram-se nos cidadãos enquanto atores e gente que discute (Rosen, in Traquina (org.) 2003: 50).
Foi Jay Rosen, professor na Universidade de Nova York e investigador sobre o papel do jornalismo na democracia, que deu o impulso académico ao movimento, fundando, com apoio da sua universidade e da Fundação Knight, o Project for Public
Life and the Press. No essencial, segundo Rosen (1999:262) este novo jornalismo cívico
perseguirá uma série de metas que são:
- Dirigir-se às pessoas como cidadãos, como potenciais participantes nos assuntos públicos, em vez de serem tratados como vítimas e espectadores;
- Ajudar a comunidade política a atuar para resolver os seus problemas, em vez de limitar-se a informar sobre eles;
- Melhorar o clima da discussão pública, em vez de observar como este se deteriora; - Ajudar para que a vida pública funcione bem.
Identificamos, em síntese, três ordens de fatores na origem da teorização do movimento do civic ou public journalism: 1) A influência das teorias do comunitarismo, no âmbito da filosofia política; em articulação com a questão da democracia deliberativa, cuja linha teórica mais forte encontramos em Habermas, Arendt e Dewey. E na componente prática (técnicas de participação dos cidadãos), tomaremos em conta nomes chave como Yankelovitch e Fishkin; 2) A crítica ao comportamento dos jornalistas perante a política e os políticos, entendida como uma atitude de «ceticismo» sistemático, suscetível de contribuir para o desinteresse dos cidadãos pela vida pública; 3) A crise de credibilidade da imprensa e, em geral, dos media, detetada através de estudos de opinião.
No essencial, tendo em linha de conta a sua génese, este movimento de reconfiguração das práticas jornalísticas consiste em “desinstitucionalizar” a cobertura política ligando-a mais às preocupações dos cidadãos. O que coloca o desafio de, na prática, o jornalismo cívico implicar mudanças culturais na lógica organizacional das redações. É aqui que o reconhecimento e a aplicabilidade de práticas conducentes a esta postura de compromisso e responsabilidade social para com os cidadãos encontram as maiores dificuldades. Mas, ao mesmo tempo, assume-se como um desafio ocupacional capaz de reforçar o jornalismo como pilar de cimentação básica da vida sociopolítica das sociedades. Importa, por isso, analisar este modelo à luz das interpretações teóricas e dos exemplos práticos no contexto dos Estados Unidos.
2.2- Jornalismo público: uma década de inovação nos EUA
Jan Schaffer, diretor executivo do Pew Center for Civic Journalism21, apresentou na Convenção Nacional da Sociedade de Jornalistas Profissionais, realizada em Fort Worth, no Texas, em 13 de Setembro de 2002, uma radiografia sobre o progresso das experiências de jornalismo cívico, ao longo de dez anos e alguns resultados de pesquisas mais atuais. O responsável destaca o papel mais ativo de jornais regionais, rádios e emissoras de televisão locais em St. Paul e Charlotte, Seattle e San
21
Schafer, Jan, «Civic Journalism: A Decade of Civic Innovation», Society of Professional Journalists National Convention, Fort Worth, TX, september 13, 2002 Texto disponível em:
Francisco, Spokane, Portland e Filadélfia, como os que demonstraram maior capacidade de experimentação e inovação naquilo a que chama “arena cívica”.
Schaffer testemunha que, globalmente, estão entusiasmados com o legado, sobretudo nos casos em que o jornalismo cívico foi bem executado, tendo-se notado, em sua opinião, uma melhoria no jornalismo e na sua relação com as comunidades. O Pew
Center for Civic Journalism desenvolveu, em parceria com os media, um trabalho de
grande impulso da instrução de práticas de jornalismo cívico, a partir de 1993, ano que em financiou 120 projetos em mais de 225 redações, tendo ainda desenvolvido projetos de formação para cerca de 4 mil jornalistas e educadores. Além de recenseadas cerca de 450 iniciativas independentes.
É com base neste caminho percorrido que Jan Schaffer, a partir da pesquisa independente de académicos, adianta um conjunto de indicadores de mudança positivos. Designadamente o facto de o jornalismo cívico desencadear um comportamento cívico, por exemplo estimulando os cidadãos a participar em ações de voluntariado, a assistir a reuniões sobre o futuro da sua cidade ou participar em grupos de ação com vista à resolução de problemas comuns.
As práticas de jornalismo cívico acabariam, segundo Shaffer, por indicar às pessoas um menu de opções de envolvimento em causas coletivas, se quisessem. Por um lado, a investigação provou que este modelo de jornalismo constrói o conhecimento. As pessoas que participaram de projetos de jornalismo cívico foram comprovadamente mais inteligentes sobre os assuntos. Por outro, como sustenta o responsável do Pew
Center, o modelo reforça a credibilidade dos jornais, pois as pessoas passaram a
demonstrar mais confiança nos media depois de um projeto de jornalismo cívico podendo, desta forma, aumentar também a sua circulação e sustentabilidade. Além destes aspetos positivos, a realidade de aplicabilidade e envolvimento das redações não é entusiástica, como sublinha Schaffer, uma vez que o nome, os objetivos e os pressupostos práticos encontram fortes resistências entre os jornalistas.
Citando um estudo do Pew Center em 2001, revelou-se que 66 por cento dos editores de jornais mais importantes e influentes dos EUA disseram gostar da ideia, da filosofia e das ferramentas e técnicas do jornalismo cívico. Mas, na prática, os resultados indicaram que apenas 19 por cento abraçaram a etiqueta do “civic
journalism”, 47 por cento seguiram a filosofia, mas não se importaram com “o rótulo”;
10 por cento recusaram o “rótulo” e 9 por cento rejeitaram liminarmente tudo o que tivesse a ver com jornalismo cívico.
Uma das questões que o fenómeno tem evidenciado, ao longo dos últimos 10 anos, e que se mantém por resolver, é mesmo a questão do “rótulo”. Schaffer explica que em 1993 e 1994, o termo “jornalismo cívico” era tratado como sinónimo de “jornalismo de advocacia” ou, por causa do uso precoce de grupos de foco de cidadãos, orientada para o jornalismo de mercado. Do lado dos críticos, nota Shaffer, defende-se que este movimento não deve adotar um novo rótulo mas apenas designá-lo “bom jornalismo”. Mas o responsável do Pew Center sustenta, em contraponto, que, além de o movimento preconizar e desenvolver um jornalismo melhor, a maioria dos “jornalistas cívicos” acha que a sua função é mais do que isso.
Isto é, o jornalismo cívico procura ativamente o envolvimento de pessoas comuns nas rotinas de produção noticiosa e constrói novos “pontos de entrada” para uma cidadania mais completa e substancial. Além da função informativa, focada nas problemáticas sugeridas pelos cidadãos e na diversificação de fontes, a dinâmica do projecto promoveu uma evolução desses “pontos de entrada”, como lhe chama Schaffer, que não são mais do que formas, ferramentas e procedimentos de ativação de participação dos cidadãos na vida pública da sua cidade. No caso norte-americano, assistiu-se a uma evolução e sofisticação desses “pontos de entrada”, na década a que reporta a investigação do Pew Center, passando, por exemplo, de salas de reuniões da cidade, júris simulados no Seattle Times, equipes de ação no Binghamton Press & Sun-
Bulletin, para experiências mais arrojadas, em termos tecnológicos, como as Web
câmaras em lares latino-americanos, Quiosques de computador em Missoula, Montana, Mapas clicáveis como o usado para informar sobre a remodelação das margens do rio, em Everett, Washington.
São exemplos de práticas para aumentar o nível de interatividade com os cidadãos, tornando-os atores em vez de espectadores, numa das premissas do jornalismo cívico e um dos principais trunfos do sucesso futuro dos jornais. Assim o dizem 90 por centro dos editores dos jornais de topo que, num estudo do Pew Center, citado neste texto de Shaffer (2002), para quem o futuro dos jornais depende, inevitavelmente, de maior interatividade com os leitores. Mais tecnologia não significa, por si só, bons
resultados a esse nível. No estudo citado por Shaffer, 73 por cento dos editores disseram que não estavam satisfeitos com o seu atual nível de interatividade. Eis um paradoxo da eficiente sociedade de informação, apesar de um enorme nível de interatividade que foi conseguida a partir dos anos 90, com o e-mail, correio de voz e web câmaras, entre outros. Ou seja, não parece óbvio que o aumento das ferramentas e meios de interação conduza, automaticamente, a um nível de envolvimento efetivo em arenas de discussão substanciais. Shaffer sustenta que os “jornalistas cívicos” são motivados por profundas preocupações sobre o jornalismo contemporâneo. Referenciando pesquisas na área, o responsável ilustra essas preocupações com o facto de o público entender que a linha que separa as notícias dos comentários se tornou turva, assim como entre entretenimento e notícia. Os jornalistas parecem ser incapazes de “acertar” e os média, de um modo geral, investem mais tempo atendendo às elites do que aos cidadãos comuns, perdendo contacto com o público.
As mesmas pesquisas, segundo Shaffer, adiantam a recorrente crítica de que o jornalismo é motivado por interesses comerciais, conduzindo-o a uma cobertura sensacional dos acontecimentos com maior impacto social e a um afastamento do princípio de fidelidade aos cidadãos, acima de outros interesses. Está portanto em causa, a montante do jornalismo, a perda desse referente fundador da própria democracia que são as dinâmicas de participação cívica. E esta participação só pode ser significativa, de forma particular, se cada indivíduo tiver o poder na tomada de decisões e na resolução dos problemas sociais em que está direta ou indiretamente envolvido. Quanto maior é o afastamento, maior será o fosso entre as dimensões de responsabilidade individual e coletiva. Joga-se a coerência entre esse compromisso individual, que é de carácter ético, e a ação coletiva, que é de carácter político, como elemento fundamental para os equilíbrios sociais e/ou denuncia das contradições em todo o sistema social das sociedades democráticas.
Significa que o papel do jornalismo, face a estes desafios, pode e deve aprofundar uma dimensão antropológica como sistema que garante, em certa medida, os fundamentos simbólicos de salvaguarda dos direitos humanos, da democracia e da participação. Ou seja, ao jornalismo cabe a função integradora para assegurar esses pilares básicos que permitem criar uma consciência global de responsabilidade social coletiva, em que não só denuncie as realidades (política, social, económica e cultural)
que oprimem os cidadãos, mas atuando sobre os problemas e refletindo, em modelo de
open source, sobre os temas que podem orientar o futuro das sociedades.
Voltando ao texto de Shaffer (2002) concluiu-se que a principal motivação do
Pew Center não é uma preocupação exclusiva com o jornalismo mas, antes, na sua
capacidade de reforçar o chamado “engajamento cívico”. Shaffer usa uma terminologia de inspiração tocquevilleana, no que se refere ao modo como Aléxis de Tocqueville, em
Democracia na América, destaca o papel ativo das associações cívicas para a
vivacidade da vida pública nos Estados Unidos, nos idos anos 30 do século XIX, e de um dos seus seguidores, Robert D. Putman (1995), que sustenta a ideia de “tradições cívicas” como instrumento para uma democracia “vibrante”. Voltaremos a este conceito e à sua problematização mais à frente.
Ora, o “rastilho” dessa preocupação contemporânea do Pew Center com a qualidade de vida social tem que ver com a alegada perda de envolvimento ou participação das pessoas quer nos atos eleitorais, quer em ações de voluntariado ou na vida cívica em geral, na senda da tese de Putman. O Pew Center coloca a hipótese interrogativa se serão os meios de comunicação uma parte desse problema de perda de “engajamento cívico”. Shaffer (2002) adianta:
«Fomos criando uma nação de espectadores e rubberneckers em vez de uma
nação de cidadãos participantes de uma sociedade auto-governante? Fomos criando um produto, uma mercadoria, quando poderíamos estar a formar cidadãos responsáveis perante os seus postos de trabalho como cidadãos, assim como temos funcionários públicos responsáveis perante os seus empregos». Qual era o objetivo principal do Pew Center como uma das principais instituições de apoio ao movimento do jornalismo cívico? Shaffer explica, afinal, que se pretendia uma mudança de paradigma cultural nas redações dos jornais. Isto é, a meta seria desenvolver um jornalismo que abandonasse o papel de “cão-de-ataque”,22 mantendo a função de sistema “fiscalizador” e, ao mesmo tempo, assumindo funções de
22 Referência ao chamado «jornalismo de ataque» (um jornalismo obcecado por escândalos) que surge
(Sabato, 1991) num contexto de uma crescente onda de crítica ao jornalismo e dos media em finais do século XX, em que se condena a deriva sensacionalista e trivialismo da informação. Cf. Traquina, 2004: 58.
um “cão-guia”, ajudando os cidadãos a descobrir que tipo de papéis podem desempenhar, diariamente, numa democracia além do simples ato de votação eleitoral.
A arena política foi a principal plataforma de ação do jornalismo cívico, na sua génese em 1990-92, experimentando, na base eleitoral, uma cobertura informativa de questões sugeridas pelos cidadãos. Ou seja, mais do que um agendamento dos temas, apenas pelo prisma dos candidatos, os jornais envolvidos recentraram a sua focagem em perspetivas a partir das preocupações dos cidadãos. A dinâmica prática abriu os jornais ao “voto aberto” e mais refletivo com os cidadãos a fazer perguntas, mediadas pelos jornais, diretamente aos candidatos. Em vez da retórica discursiva e circunstancial da arena política, introduziu-se a participação concreta dos destinatários das políticas – o povo – transformados em atores mais conscientes sobre quem, efetivamente, estava em melhores condições para assumir o poder executivo do seu país ou região.
Num olhar retrospetivo, o responsável do Pew Center já se mostrava preocupado e confrontado com a evidência de que, no geral, as ferramentas e as técnicas empreendidas pelo jornalismo cívico terão sido “sequestradas” enquanto a meta terá sido perdida. Shaffer (2002) lembra os auspícios das experiências do modelo levadas a cabo nessa primeira fase do movimento. Por exemplo, caso um candidato se recusasse a responder a uma pergunta ou a um problema levantado por um eleitor, jornais como The
Charlotte Observer e The Wichita Eagle – os principais embaixadores das práticas de
jornalismo cívico – deixavam um espaço em branco nas páginas ao lado da sua declaração de posição. Com isto, os candidatos rapidamente entenderam que precisavam de tomar posições de esclarecimento sobre as questões que preocupavam as pessoas. Mas o enfoque não se circunscreveu à área política. Em 1994, como lembra Shaffer, destaca-se uma abordagem mais abrangente e mais profunda com um dos mais bem sucedidos modelos de jornalismo cívico, intitulado “The Taking Back”, do jornal