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Med arbeidsgiverne på laget

Entre os questionamentos suscitados pela sotie, o papel do leitor também não sai incólume. O insucesso literário do narrador – cuja justificativa poderia ser, tal como o fará Edouard nos Faux-monnayeurs, atribuída ao interesse nos bastidores do texto e não na sua escritura191 – se deve em grande parte ao fato de ser um mau leitor, em especial de Virgílio. Através de

190“Títiro que mora (ou vegeta) em uma torre, que não faz nada real e simplesmente contempla e faz

concessões, Títiro que vive no pântano e louva sua graça (...) é o simbolista por excelência em seu isolamento do real, desprovido de aventura, para o qual a paisagem é apenas um estado de espírito.” YAARI, M. Ironie paradoxale et ironie poétique. Vers une théorie de l’ironie moderne sur les traces de Gide dans Paludes. Alabama: Summa Publications, 1988. p. 186.

191“l’histoire de l’oeuvre, de sa gestation! Mais ce serait passionnant... plus intéressant que l’oeuvre elle-

91 sua leitura o narrador tenta encontrar, segundo Cazentre:

à la fois un encouragement à l'émancipation (…) et une inspiration créatrice, et il échoue sur ces deux plans. (…) C'est en se fondant sur un héritage littéraire reconnu et assimilé (même et surtout quand il fait l'objet d'une ré-création intégrale) que l'écrivain peut prétendre, d'un même mouvement, s'affirmer lui-même et accéder à une création authentique, un héritage qui, pour Gide, est singulièrement incarné par Virgile.192

Quando o narrador leva o personagem virgiliano a seu próprio texto e faz dele o símbolo da inação, desconsidera totalmente o contexto anterior. Além de apresentar uma tradução duvidosa dos versos de Virgílio, o narrador se “esquece” da situação do pastor, cuja felicidade é causada pela conservação das terras por ele cultivadas durante um período conturbado. A relação intertextual é falha, e o diálogo entre os textos é inexistente para o narrador. Sua leitura é, portanto, incompleta. Pode-se dizer que o narrador deixa deliberadamente de lado o hipotexto virgiliano, a fim de utilizá-lo para justificar suas ideias. Ignorando o hipotexto, o narrador não percebe que o imobilismo também pode ter um lado positivo dependendo da situação na qual seja identificado. Ele enxerga apenas uma faceta, e considera as Bucólicas apenas como um apoio para seu pensamento.193

Em outras palavras, é como se o narrador apagasse o hipotexto e não o levasse em conta, fazendo dele uma tábua rasa na qual pudesse inscrever qualquer coisa. Essa leitura “defeituosa” leva o narrador a voltar continuamente às mesmas coisas. Paludes se tornará Polders, Gaspard tomará o lugar de Hubert: a mudança é bastante sutil... mas ela existe. A participação à qual se refere Gide no prefácio implica também na mobilização do repertório do leitor. Sem um público cujo referencial seja, no mínimo, próximo ao do escritor e, portanto, apto a perceber as pequenas transformações, o jogo formado a partir da reescritura deixa de fazer sentido. E o narrador encarna exatamente o tipo

192“ao mesmo tempo um encorajamento para a emancipação (...) e uma inspiração criadora, e ele fracassa

nos dois planos. (...). Baseando-se em uma herança artística reconhecida e assimilada (sobretudo quando se torna o objeto de uma recriação integral) o escritor pode tencionar, em um só movimento, afirmar-se e chegar a uma criação autêntica, um legado que, para Gide, é singularmente personificado por Virgílio.” CAZENTRE, op. cit., p. 330-1.

193 Outros personagens gidianos representariam o mau uso que se pode fazer da literatura. Entre eles,

destacamos Michel, protagonista de L'Immoraliste. Segundo T. Cazentre, Michel ignora o intertexto virgiliano presente em seu percurso, e é incapaz de compreender o exemplo positivo que este apresenta. Cf CAZENTRE, T. “La légende cachée. Lecture et intertextualité virgilienne dans

92 de leitor contrário às aspirações de Gide, um leitor que não estabelece ligações entre os textos e incapaz de perceber suas potencialidades escondidas.

A partir de uma pagina dos Chants de Maldoror, M. Charles destaca a comparação feita por Lautréamont entre a leitura e a travessia de um pântano escuro e envenenado. O autor ainda pede aos céus que o leitor, “enhardi et devenu momentanément féroce comme ce qu'il lit”194, consiga encontrar seu

caminho apesar dos obstáculos. E a esse leitor serão necessários retidão lógica, um espírito em constante estado de alerta e desconfiança a fim de não ser engolido pelas “emanações nefastas” advindas do texto.

A comparação do texto com um pântano e da leitura com uma jornada através dele destaca uma visão que pode ser aproximada da exposta em Paludes com relação ao papel do leitor, que é advertido desde o início dos “perigos” aos quais eventualmente será exposto. O terreno no qual se move Títiro pode ser interpretado como uma metáfora para as dificuldades do narrador às voltas com uma estória praticamente sem ações, mas podemos também ver aí os problemas da leitura. Acompanhar uma narrativa sem grandes acontecimentos, cuja cronologia é quase tão vaga quanto os personagens e na qual o espaço, ainda que indicado, não revela grande coisa, não é tarefa fácil para um leitor acostumado às referências dadas pela literatura realista. O texto, dessa forma, propõe já no começo a instauração de um novo protocolo de leitura, através da atribuição ao leitor da “revelação” do(s) sentido(s):

Avant d’expliquer aux autres mon livre, j’attends que d’autres me l’expliquent. Vouloir l’expliquer d’abord c’est en restreindre aussitôt le sens; car si nous savons ce que nous voulions dire, nous ne savons pas si nous ne disions que cela. – On dit toujours plus que CELA. – Et ce qui surtout m’y intéresse, c’est ce que j’y ai mis sans le savoir, – cette part de l’inconscient, que je voudrais appeler la part de Dieu.195

É preciso enfatizar o caráter “sagrado” que a leitura toma no trecho acima – pois a palavra revelação faz pensar nos Mistérios religiosos, sem falar

194“ousado e momentaneamente convertido em algo tão feroz como aquilo que lê.” LAUTREAMONT. Les Chants de Maldoror. Apud CHARLES, M. Rhétorique de la lecture. Paris: Seuil, 1977. p, 13. 195 GIDE, op. cit., p. 11. “Antes de explicar meu livro aos outros, espero que outros mo expliquem.

Querer explicá-lo primeiro é limitar-lhe desde já o sentido; pois se sabemos o que queríamos dizer, não sabemos se estávamos dizendo apenas isso. Sempre dizemos mais que ISSO. E o que me interessa acima de tudo é o que eu coloquei nele sem saber, essa parte de inconsciente, que gostaria de chamar a parte de Deus.” Trad., p. 11.

93 na “part de Dieu”, as inserções feitas inconscientemente pelo escritor – e, por conseguinte, a importância atribuída ao leitor. Ao mesmo tempo, maliciosamente, o escritor se isenta de qualquer responsabilidade com relação às possíveis interpretações e as confere ao leitor. Cabe a este último interpretar a obra, e nenhum sentido por ele encontrado pode ser imputado ao escritor.

O uso da língua em Paludes também convoca a atenção do leitor. Além de empregar um vocabulário cheio de preciosismos, o livro mistura estilos completamente diferentes, do mais rebuscado ao mais comum:

Alors si vous voulez, Angèle, nous allons faire en cette barque un petit voyage d’agrément. Je vous faisais observer simplement, chère amie, qu’il n’y a là rien que des carex et des lycopodes – des petits potamogétons – et moi je n’ai rien dans les poches – un tout petit peu de mie de pain pour les poissons…196

Voici donc le portrait d’Hubert. Il est en fleur… Ouvrons la porte; il fait trop chaud. Cette autre salle m’a l’air d’être encore un peu plus pareille à ce que je m’attendais à la trouver; – seulement le portrait d’Hubert y est mal fait; j’aimais mieux l’autre; il a l’air d’un ventilateur; – ma parole ! d’un ventilateur tout craché.197

A aparição inesperada de palavras e expressões diferentes do estilo do parágrafo causa estranhamento, e o contraste entre palavras rebuscadas e expressões coloquiais desconcerta totalmente o leitor. Obrigado a uma leitura cautelosa, este fica sempre à espreita das armadilhas espalhadas ao longo do livro, e não consegue nunca se instalar em uma zona de conforto, em um terreno conhecido.

Os nomes dos personagens da sotie também merecem destaque, pois contribuem para a instalação do absurdo no texto. Borace, Tullius, Madruce, Tancrède, Ponce e tantos outros acabam com qualquer pretensão do leitor de encontrar algum realismo na obra. Nomes que surgem e desaparecem sem deixar rastros, não apresentam significações particulares, a não ser denotar justamente o caráter de marionetes de seus proprietários. De acordo com B. Fillaudeau:

196 Ibid., p. 96. “Então, se você quiser, Angèle, vamos fazer neste barco uma pequena viagem de recreio.

Eu a fazia observar simplesmente, cara amiga, que só existem aqui espadanas e licopódios – pequenas potamogetonáceas – e eu não tenho nada nos bolsos – um pouquinho de miolo de pão para os peixes...” Trad., p. 78.

197 Ibid., p. 97. “Aqui está o retrato de Hubert. Está em flor... Vamos abrir a porta; faz calor demais. Esta

outra sala parece ser ainda mais semelhante ao que esperava encontrar; apenas o retrato de Hubert está malfeito; eu preferia o outro; parece um ventilador; palavra de honra! Um perfeito ventilador.” Trad., p. 79.

94 c'est dans Paludes que nous trouvons le plus grand nombre de noms n'ayant pas de résonance immédiate. Cette 'inexpressivité' fait bien ressortir le côté anonyme et sans relief de certains personnages des

soties; dans Paludes, la plupart des littérateurs – ne sont-ils pas d'ailleurs interchangeables, comme le pense le narrateur? – mais aussi les membres de la famille de Richard, suffisamment marqués par leurs infirmités.198

Diferentemente do que acontece no Prométhée mal enchaîné e em Les Caves du Vatican, apenas três personagens possuem nomes "simbólicos": Angèle, Hubert e Richard. A amiga do narrador tem as ações ditadas por seu “angelismo” (a visão de Gide com relação à sua esposa Madeleine, considerada por ele pura e sem desejos sensuais), o que explica os “simulacros anódinos” entre ela e o narrador.199 Já Hubert é um caçador, como

o santo do qual seu nome provém. Quanto a Richard, cujo nome faz pensar na palavra riche, (“rico”), sua pobreza resignada é fonte de inspiração para o narrador.

Por ser menos “estranhos” que outros nomes presentes no texto e por apresentarem maior participação, os três amigos do narrador se mantém em uma fronteira entre o real e o ficcional. Se o leitor perceber esses sentidos, vai achar que são obra de pura ficção, tal como os outros personagens. Mas também podem suscitar a duvida: seriam eles máscaras para pessoas reais?200