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2 Material and Methods

2.2 Measures

A memória do mundo épico se volta ao passado e a do romance parte do presente em direção ao passado, problematizando-o. A escrita do passado é também objeto de reflexão de Benjamim quanto o autor trata da escrita da história. Como vimos, a memória se forma por imagens. É para a imagem que se fixa do passado que Benjamin aponta, alertando para que ela não se constitua a partir dos despojos atribuídos ao vencedor:

Ora, os que num momento dado dominam são herdeiros de todos os que venceram antes. A empatia com o vencedor beneficia sempre, portanto, esses dominadores. Isso diz tudo para o materialismo histórico. Todos os que até hoje venceram participam do cortejo triunfal, em que os dominadores de hoje espezinham os corpos dos que estão prostrados no chão. Os despojos são carregados no cortejo, como de praxe. Esses despojos são o que chamamos bens culturais. O materialismo histórico os contempla com distanciamento. Pois todos os bens culturais que ele vê têm origem sobre a qual ele não pode refletir sem horror. Devem sua existência não somente ao esforço dos grandes gênios que a criaram, como à corveia anônima dos seus contemporâneos. Nunca houve um monumento de cultura que não fosse também um monumento da barbárie. E, assim como a cultura não é isenta de barbárie, não o é, tampouco, o processo de transmissão da cultura. Por isso, na medida do possível, o materialista histórico se desvia dela. Considera sua tarefa escová-la a contrapelo (BENJAMIN, 1985, p.225).

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Quando se conta a história tomando por fio condutor as condições materiais, voltamos ao mundo épico, onde as vitórias eram marcadas pelos espólios de guerra. Tal era a preponderância da matéria sobre o espírito, que as vitórias e relações sociais eram marcadas pelos espólios de guerra e pelos presentes, respectivamente. Eram dignos de terem seus feitos narrados os homens que dispunham de maior tesouro, pois seu valor podia ser reconhecido nesse tesouro, por exemplo quantas batalhas havia vencido, quão sinceras eram suas amizades. Assim, o materialismo ressalta o vencedor em detrimento do vencido, aquele iluminado pelo brilho do tesouro amealhado como despojos de guerras vencidas. Todos os tesouros, portanto, carregam em si o traço de barbárie. Tomando esses tesouros como bens culturais, Benjamin observa que nenhuma cultura é isenta de barbárie, tampouco a transmissão dela. Desse modo, o historiador materialista contempla com distanciamento o monumento cultural, ciente do horror que o precedeu.

Walter Benjamin propõe então uma concepção de história em que o conformismo ante a opressão, alimentado pela imagem dos antepassados escravizados, deve ser substituído pela esperança alimentada pela imagem dos descendentes libertados (cf. BENJAMIN, 1993, p.229). Portanto, a escrita do passado insere-se num continuum, de forma que o escritor concebe a história num “tempo saturado de agoras” (BENJAMIN, 1985, p.229) e nele reconhece uma configuração que lhe oportuniza “lutar por um passado oprimido”. Ao historiador não compete conhecer o passado como ele foi de fato, e assim fixá-lo em imagens tomadas como reais ou que revelem a “verdade” sobre o passado, mas implica reconhecer nele uma configuração tal que não o fixe na imagem do vencedor, mas, ao contrário, leve à revolução dialética. Uma vez que a história não se alimenta de fatos isolados, pois eles só podem se tornar históricos em contato com o presente, o tempo presente se torna, como nas palavras de Santo Agostinho, tríplice, pois contém o passado enquanto recordação e o futuro enquanto esperança (cf. SANTO AGOSTINHO, Confissões).

A teoria da narrativa proposta por Ricoeur nos três volumes de Tempo e Narrativa parte dessa noção agostiniana do tríplice presente. Com essa constatação, o conceito de identidade narrativa é apresentado por Ricoeur como possibilidade de inserir na identidade permanente de um indivíduo a mutabilidade e assim reconhecer na narrativa a temporalidade. Porém, o próprio filósofo alerta sobre os limites da narrativa ante a inescrutabilidade do tempo. Na literatura pós-moderna, testemunhamos a metamorfose apontada por Benjamin no mundo sem experiências intercambiáveis. Assim: “É na maneira como a narrativa é levada a seus limites que reside o segredo de

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sua réplica à inescrutabilidade do tempo” (RICOEUR, 1997, p.458). A literatura, como área de conhecimento por excelência da composição narrativa, pode lançar desafios à história no que concerne à busca da “verdade” – esta, bem diversa da busca do real – pois “(...) a literatura revela-se um vasto laboratório para experiências de pensamento onde são postos à prova da narrativa os recursos de variação da identidade narrativa” (RICOEUR, 1991, p.176).

Ressaltamos, ainda, nas relações entre a narrativa literária e a histórica as considerações de Carlo Ginzburg em relação à busca da “verdade”, em especial no que se refere aos recursos que tem o romancista, não o historiador, para se aproximar da “verdade”. Segundo ele, o conhecimento histórico não teria acesso a uma “verdade” que não deixe “rastros”, não produz, portanto, documentos,

(...) mas os procedimentos narrativos são como campos magnéticos: provocam indagações e atraem documentos potenciais. Nesse sentido, um procedimento como o discurso direto livre, nascido para responder, no terreno da ficção, a uma série de perguntas postas pela história, pode ser considerado um desafio indireto lançado aos historiadores. (GINZBURG, 2007, p.188)

O discurso do romance, conforme já notamos nos estudos de Genette e Bakhtin, contribui para a aproximação entre o leitor e a ação, numa tentativa de mediação cada vez mais sutil, porém cada vez mais eficiente na busca da “verdade”. Assim, o discurso literário, ainda que não se comprometa com o real, torna-se importante para colocar à prova a narrativa histórica na busca da “verdade”, lançando um desafio aos historiadores.

A lembrança não é fiel ao fato passado e sim construída pela imaginação em busca da “verdade” – “verdade” e não o real, o fato em si, pois que esse é marcado pela ausência e, se tornado presente, é apenas pela imagem da lembrança construída. Ainda, se é construída pela imaginação, essa imagem é construída sobre as formas arquetípicas. Nesse sentido, elas incluem a memória da coletividade pela aderência do arquétipo e, conforme os ensinamentos de Halbwachs, pela intersecção entre as memórias individuais e coletivas, lembrando, também, que o indivíduo participa, ao longo de sua vida, de diversos grupos sociais.

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Destacamos a alusão de Halbwachs à questão temporal na construção da memória quando ele se refere à participação do indivíduo em vários grupos sociais ao longo da vida. A questão temporal e o caráter de construção da lembrança, cujas lacunas são preenchidas pela imaginação, remetem à narrativa, conforme o conceito de Ricoeur. Assim, podemos estabelecer um diálogo entre as conceituações desses dois teóricos, a fim de compreender a escrita da memória enquanto escrita de si, incluindo sua mesmidade e ipseidade no processo de identificação, contínuo, reconfigurado a cada narrativa. E se escrever a memória implica narrar as experiências, as palavras de Benjamin são esclarecedoras da narrativa pós-moderna, pois esse autor relaciona a narrativa à experiência. Para ele, não temos mais experiências a contar, uma vez que os novos modos de produção e de vida prescindem da sabedoria trazidas por esse contar. Mesmo que as experiências do mundo moderno não sejam mais intercambiáveis, não se pode dizer, entretanto, que elas inexistem. E embora a literatura hoje não promova com o intercâmbio delas os conselhos do narrador, “replica-as”, de modo a exigir do leitor não a passividade de quem recebe os conselhos, mas de quem tem de buscá-los a cada página. A página do romance torna-se então em espelho, diante do qual o leitor busca escrever a si, como também o fizera o autor, pois que, a despeito das mudanças no modo de narrar, a literatura não prescinde da mimese da experiência humana.

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2. A PROBLEMATIZAÇÃO DO “SER PORTUGUÊS” EM OS CUS DE