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Optou-se, neste estudo, pelo uso do termo “cadeia produtiva” em vez de “cadeia de suprimentos”, a fim de ressaltar a cadeia de ponta a ponta para produtos ou serviços, desde o suprimento até a entrega, evitando o possível entendimento equivocado da parte a jusante da cadeia. Normalmente, os estudos de cadeia produtiva têm cunho econômico, em termos de localização do mercado e infraestrutura disponível, com pouca atenção aos aspectos sociais.

Há evidências do aumento na importância estratégica de alinhar o valor social em relação ao valor econômico no capitalismo (ZADEK, 2004; AUSTIN, 2006; FISCHER, 2005; WAGNER, 2001). Se hoje enfrentamos as consequências de uma falta de sustentabilidade em créditos securitizados ao longo da cadeia econômico- financeira, podemos estender nossas preocupações para uma crise socioambiental com mais severas consequências se não cuidarmos do alinhamento entre valor econômico e valor social nas atividades produtivas.

É crescente a tendência de buscar a contribuição social e o meio ambiente, ao mesmo tempo em que as empresas e instituições também possam auferir lucratividade nos seus investimentos.

Na indústria, um cuidado especial normalmente se dá com a rede fornecedora, como exemplo a empresa de cosméticos Natura, que busca nos seus fornecedores de ingredientes na Amazônia não só o bem-estar social e ambiental das comunidades, mas também viabilização econômica de suas atividades. Porém, isso não se restringe somente às indústrias, há uma tendência global, também em fundações e institutos, de buscar o desenvolvimento econômico das comunidades carentes por meio de projetos com investimentos de impacto, isto é, projetos que têm impacto social e

ambiental positivos, mas que também proporcionam algum retorno financeiro (MORGAN, 2010).

Apesar do sucesso da era industrial, das grandes mudanças e dos benefícios trazidos à sociedade nos tempos atuais, as consequências dos problemas ambientais ainda não são bem conhecidas, todavia por muitos anos têm sido alvos de especulações, como descrito por Shirivastava (1995). Em seu trabalho, demonstra preocupações com o consumo e a produção excessiva, e com a falta de compromisso com o desenvolvimento ecológico sustentável, políticas governamentais apropriadas para lidar com destruição da camada de ozônio, aquecimento global e destruição da biodiversidade. Mas, ainda segundo esse citado autor, o papel das corporações nesses processos sustentáveis ainda não tem uma abordagem definida. Continuar expandindo o consumo nos moldes de hoje, porém, não parece ser a solução.

O conceito de ecoeficiência foi um dos primeiros a combinar os aspectos de valor econômico, social e ambiental tendo como objetos as ações corporativas. Por meio desse conceito e de outras ideias correlatas, iniciou-se um movimento por uma gestão responsável nas empresas com a finalidade de empreender ações em prol da minimização de emissões, redução no uso de materiais e energia, reutilização e reciclagem de insumos, passando a integrar programas de gestão que variavam em torno dos chamados 3Rs – reciclagem, redução e reutilização (SCHMIDHEINY; BCSD, 1991).

Logística reversa em cadeias produtivas, ou supply chain, como conhecida internacionalmente, é um dos esforços para tornar essas cadeias mais sustentáveis (CORRÊA, 2010; AMATO NETO, 2011; LINTON et al., 2007). Importante destacar que cadeia produtiva é todo esforço dispensado nos diferentes processos e atividades empresariais que criam valor ao consumidor final por meio de produtos e serviços (CHING, 2009). Dessa forma, a cadeia é definida por meio dos relacionamentos de todas as organizações com as quais a empresa-mãe/empresa focal interage: de um lado, os canais de fornecimento; e, de outro, os canais de distribuição e clientes (LAMBERT; COOPER; PAGH, 1998), conforme apresentado na Ilustração 5. Entretanto, para que seus membros tenham resultados positivos com sua estruturação, é preciso que ela seja bem gerenciada.

Ilustração 5 – Estrutura da cadeia produtiva

FONTE: Lambert; Cooper e Pagh (1998).

O interesse na gestão de cadeias produtivas cresceu muito nos últimos anos e tem reconhecido potencial de tornar-se o mais poderoso fator na obtenção de vantagens competitivas nos mercados globais, assim como no aumento de lucratividade e do crescimento das empresas.

Quando as companhias adaptam suas cadeias produtivas, procuram gerar e sustentar vantagens competitivas (FAWCETT, MAGNAN, MCCARTER, 2008; WEBER, 2000) ao atender às necessidades de seus clientes de forma mais satisfatória que seus concorrentes, e assim, alcançarem resultado lucrativo para todos os integrantes da referida cadeia (CHOPRA, MEINDL, 2003; FUGATE, SAHIN e MENTZER, 2006).

Sustentabilidade vai além de fazer as práticas comuns. Segundo Linton, Klassen e Jayaraman (2007), o custo total de uma cadeia produtiva deve incluir todos

os efeitos de degradação de recursos, geração de produtos secundários, geração de perdas e poluentes ao longo do processo.

Contudo, esse comprometimento conceitual com a sustentabilidade parece ser a primeira geração no alinhamento dos valores sociais e econômicos, isto é, socialmente justos, ambientalmente sustentáveis e economicamente viáveis. O desafio de avançar no equilíbrio das decisões, tornando esse alinhamento parte integrante do dia a dia, deve ser o objetivo final de uma economia sustentável. Embora se tenham alcançado reduções e economias de custo, as iniciativas são isoladas e não integradas ao sistema de produção e operação. Elas focam demasiadamente certas entradas de materiais nas organizações e se apresentam como aproveitamento de oportunidades diante do desperdício histórico. São medidas de oportunidade não sistêmicas ou sistematizadas. Questões importantes de desperdício e impacto ambiental permanecem obscuras, sem abordagem gerencial, por não haver visibilidade, ou por serem mais complexas, ou por demandarem mais investimento, e, não obstante, seu impacto permanece sem tratamento adequado pela gestão. Lenhi (2000) descreve esse aspecto do problema da falta de alinhamento dos valores, destacando o fato de o desafio residir em assegurar que os conceitos ecológicos e de responsabilidade social sejam aplicados da mesma forma em todo conjunto.

Tomando em consideração a cadeia produtiva de ponta a ponta, desde a aquisição de produtos e serviços para conversão até a entrega para o cliente final, analisando todos os atores que influenciam esse processo e suas estratégias, podem- se analisar de forma integrada e sistêmica as necessidades, dificuldades e até oportunidades para torná-la mais sustentável.

De acordo com estudos e artigo publicado na MIT Sloan Management Review (HOPKINS, 2009), na entrevista com Edgar Blanco, da área de cadeia de suprimentos do Massachusetts Institute of Technology (MIT), as empresas parecem falar de forma mais séria sobre sustentabilidade e fonte de competitividade, eliminado alguns tabus antigos. O especialista aponta a existência de quatro pontos principais a serem tratados nessa empreitada de sustentabilidade e competitividade: i) embalagem – os materiais utilizados são realmente necessários?; ii) transporte – além do custo envolvido, a emissão de gases, quantidade de movimentos desnecessários no

network; iii) envolvimento dos fornecedores para explorar as oportunidades desde o

começo; iv) comunicação das decisões sustentáveis entre empresas e consumidores. Um exemplo são produtos produzidos com ingredientes dependentes de determinada safra, como a empresa Natura, que avisa o consumidor sobre sua disponibilidade.

Portanto, gerenciar as cadeias produtivas tem sido um desafio para as empresas, em função de novas tecnologias, eficiência, eficácia, competição de custos, complexidade, etc. Agora, para se somar a esses desafios, não basta ser a cadeia produtiva somente competitiva, mas sim estar em harmonia com o meio ambiente e a sociedade. Isto é, uma cadeia produtiva que não causa danos ou impactos ao meio ambiente e à sociedade, ou até consegue trazer de volta à natureza o que retirou, isso é ser uma cadeia produtiva sustentável.