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Maudheim, Antarktis 1949–1952

Mais do que descrever a história do Peru, apresenta-se um povo milenar e a sua permanência até os dias de hoje, pois os Incas subsistem; a sua cosmovisão, as suas tradições sociais e, por exemplo, os seus antigos ayllus converteram-se nas cofradias da época colonial espanhola e mais tarde em bairros. A arte das gravuras em madeira perdura no trabalho de esculpir com a ponta de uma faca as cabaças que tanto se vendem aos turistas. Continuam fabricando-se grandes vasilhas em argila e lidando-se com a terra a partir de ensinamentos e técnicas muito antigos. Ou seja, os Incas continuam a existir, tendo assimilado as novidades, mas conservando um modo de compreender a vida, de olhar para o céu e de ir deixando pedrinhas pelos caminhos. Arqueólogos e cientistas continuam a fazer novas descobertas do

antigo Peru, e os incas, mais do que nunca, continuam sendo um dos povos mais interessantes e misteriosos da terra.

O império incaico durou do século XIII ao XVI e foi o império que alcançou maior expansão de todos os que habitaram na América Latina. Culturalmente, porém, esse império, ao se comportar como herdeiro dos povos que os precederam, não aportou novidades expressivas, denunciando, assim, certo estado de estagnação ou de conformismo. Eles eram, sobretudo, conquistadores, uma vez que seus rastros se encontram desde Pastos, na Colômbia, até Los Huarpes, na Argentina.

Com a finalidade de apresentar de forma breve um passado extraordinário, são descritas, a seguir, algumas das características históricas, geográficas, sociais e culturais da civilização andina, segundo dados coletados por Longhena e Alva (1999, p. 18).

No transcurso dos séculos, o Peru passou pelo período “Pré-Cerâmico” (4.000- 1800 a.C.). Estas datas são atribuídas ao mais antigo fragmento de fibras vegetais trançadas encontrado no Peru (3.500 a.C.). No ano 2.500 a.C. foi introduzido o cultivo do algodão. Nesse longo período, grupos de caçadores e de homens que viviam da colheita no mundo andino eram nômades que foram, pouco a pouco, adquirindo um tipo de vida sedentária. A esse período remontam as sepulturas coletivas mais antigas e os primeiros centros de cerimônias. Huaca Prieta y Aspero, no litoral, e Kotosh e La Galgada, no altiplano dos Andes, mostram o nascimento de uma sociedade organizada, apesar de ausência da cerâmica. Há tecidos que permanecem testemunhas dessa época.

Segundo Longhena e Alva (1999, p. 18), o fragmento cerâmico mais antigo do Peru descoberto em Kotosh (1.800 a.C.) data do período “Cerâmico Inicial” (1.800-900 a.C.). Foram também achados fragmentos de madeira no monte Sechín (1.519 a.C.) e nos depósitos de Mina Perdida (1.250 a.C.) foram achadas lâminas de cobre como mostras de uma época de transição importante para o desenvolvimento das artes, de técnicas de construção e de aspectos sociais que constavam no período anterior de forma embrionária. A aparição da arte da cerâmica e da metalurgia tornou os centros cerimoniais mais complexos. Os templos apresentavam um formato característico de ferradura. Há afrescos policromados nas paredes de Garagay e no Monte Sechin, provavelmente de tal época. No vale do Casma está uma das bases mais famosas desse período inicial, cuja origem vem do segundo milênio a.C.

O período do “Horizonte Temprano” (900 a 200 a.C.) é a fase do centro cerimonial de Chavín de Huantar (no litoral norte do Peru). A construção do velho templo denominado Castelo data de 900 a 500 a.C. A seguir vem a fase que corresponde à construção

do novo Templo, mas com a expansão da cultura Paracas desde o litoral sul, inicia-se, 200 a.C., a decadência de Chavín.

O primeiro período intermediário é o “Intermediario Temprano”, que se expande entre o ano 200 a.C até 700 d.C. Nesse período se constrói a cidade capital do Estado na cultura Nazca (100 a.C.). A partir do ano 100 d.C. é provável que se tenha dado início à construção das Pirâmides do Sol e da Lua, que fazem parte das descobertas arqueológicas de Moche. A história andina é caracterizada pelos regionalismos iniciados nesse período. Quando a cultura Chavín finaliza a unificação cultural e política, o território se fraciona numa série de pequenos reinados ou estados que correspondem a outras tantas culturas e civilizações. Entre essas se destaca a cultura Moche e também a Nazca ao longo do litoral deserto do sul. Eram sociedades desenvolvidas com base na agricultura e na pesca e dedicadas à produção de cerâmica, tecidos e às artes com metais preciosos. As sepulturas muito ricas, atribuídas a personagens de elevada consideração social, sugerem a existência de uma sociedade piramidal e rigidamente organizada.

No período do “Horizonte Médio” (700 a 1.000 d.C.), os pequenos estados do período anterior desapareceram e o império Huari, uma potência política e militar, desenvolveu uma nova etapa de unificação do mundo peruano. Surgem as cidades propriamente ditas, com a sua estrutura quadriculada, com ruas e muros de fortificação. O povo Huari recebe a influência cultural e religiosa de outra potência de tipo teocrático: o Tiahuanaco, cujos ciclópicos e restos misteriosos estão situados perto do lago Titicaca. Esses restos talvez representem o intento de recuperar o antigo culto ao Deus das Varas de Chavín. Desse período permanecem esculturas monumentais magníficas, recipientes de cerâmica policromada e tecidos feitos com grande maestria. No entanto, no ano 1.000 d.C., os centros de poder Huari e Tiahuanaco sucumbiram devido a causas desconhecidas.

O período “Intermediario Tardio” (ou segundo período intermediário) vai do ano 1.000 d.C. até 1450 d.C. Ao longo do litoral peruano, das cinzas dos povos Moche e Nazca surgiram novas civilizações, e sobre os restos dos Huari edificaram-se importantes centros cerimoniais. O poderoso reino Chimú, no litoral norte, de lendárias origens, edifica a impressionante cidade de Chanchán, um dos centros urbanos de maior prestígio do mundo pré-colombiano. Os objetos de ouro, prata e pluma citados por cronistas da época são características dessa civilização. No sul estão as ricas necrópoles de Chancay e Ica-Chincha, mostras de complexos rituais funerários e de elaborada produção têxtil. Em 1450, pelo avanço do império Inca chegaram ao fim a rica civilização Chimú e todos os estados do período

Intermediário Tardio. O rei de Chanchán, Minchancaman, renuncia perante a cidade sitiada pelo Inca; e o reino Chimú cai em mãos do inimigo em 1463 d.C.

O período do “Horizonte Tardio”, segundo Longhena e Alva (1999, p. 19) também chamado de “Novo Horizonte” ou “Horizonte Inca”, vai do ano 1450 até 1533 d.C. Esse período corresponde à expansão e ao estabelecimento da última grande força unificadora do Peru pré-colombiano: o Império do Tahuantinsuyo, ou Império Inca. Graças a uma estrutura estatal rígida e organizada e a um exército poderoso, os primeiros soberanos incas conseguiram conquistar em pouco tempo os numerosos povos do período anterior e deram vida a um império de dimensões desmedidas, cujos vestígios de construções megalíticas e de enormes vias públicas se conservam até hoje.

No século XV, antes da chegada dos espanhóis, o Peru era constituído pelo Tahuantinsuyo, o maior império da América pré-colombina, atingindo mais de 3.000 km de extensão. Após a conquista dos espanhóis, instalou-se o vice-reinado do Peru. Nessa época se destaca a literatura de Inca Garcilaso de la Vega, com os seus Comentarios reales de los

Incas. Como filho de espanhol com uma princesa inca, Garcilazo impregnou-se, desde sua

infância, da cultura do incanato. Mas, quando adulto, é enviado à Espanha, onde escreve esses comentários sobre a nobreza incaica. No entanto, sua ambígua situação de mestiço se reflete no dilema entre adotar a linguagem acessível aos espanhóis e ser fiel a seus ancestrais peruanos. Essa tensão pode ser superada, segundo Rama (1985), por um processo de transculturação11

, termo que expressa o contato entre culturas diferentes colocadas no jogo da dominação imposto, sobretudo, pelo empreendimento colonial. Tal mecanismo comporta,

de início, uma parcial desaculturação, que implica perda de componentes considerados obsoletos; em seguida, há incorporações procedentes de uma cultura externa e, por fim, um esforço de recomposição ou neoculturação, articulando os elementos sobreviventes da cultura originária e os que vieram de fora (AGUIAR; VASCONCELOS, 2001, p. 11).

Durante o período colonial, predominou o estilo barroco nas artes, mas esse sofreu modificações devido às influências das tradições autóctones, como dá prova disso a Escola de Cuzco, sobretudo na pintura. Dir-se-ia que o povo quéchua, nesse período, ainda que dolorosamente, formou um mundo com um mínimo de unidade, ao menos quando se observam algumas comunidades que enfrentavam mestiços e espanhóis. Unidade que se afundará na época republicana. No século XIX, com a independência da Espanha, surge uma

literatura de cunho mais nacionalista, na qual se destaca a obra de Ricardo Palma Tradiciones

peruanas.

A situação política e social do Peru foi sempre de uma grande e sofrida complexidade. A grande diferença social repercute, principalmente, em relação aos ameríndios, que são os mais ameaçados de extinção devido à exclusão social e às condições de pobreza. A tendência é uma predominância geral da mestiçagem, tanto que atualmente quase a metade da população é mistura de espanhol e quéchua, sendo os brancos cerca de 15%; os mulatos, 7%; os negros, 2%; quase 1% de asiáticos; e o restante, ameríndios. Quanto à índole dos ameríndios, fala-se muito da sua expressão de dor característica, a ponto de ser chamada de dor cósmica. Isso se deve, em parte, à forte inserção na natureza; e a própria rispidez dos Andes a conforma. Mas este remete a um sentimento de origem pré-colombiano, como lembra Arguedas (1977, p. 111): “que não se esgotaram todas as fontes da alegria, como é costume achar, e que a dor deixa de ser dominante assim que desaparecem as mais cruas formas de opressão social”.

Quanto à origem dos primeiros reis Incas, esta remete à tradição oral e a fontes históricas impregnadas de lendas, dispondo-se de dados seguros apenas a partir da dinastia de Pachacutec. No ano de 1533, o inca Atahualpa é capturado e morto traiçoeiramente pelo capitão espanhol Francisco Pizarro, dando início à queda do Tahuantinsuyo. A morte, porém, do último representante da dinastia, Inca Tupac Amaru, acontecerá em 1572 quando o império é anexado à coroa de Castela. E inicia-se, assim, a época na qual o Peru foi uma colônia da Espanha e que abrangeu os séculos XVIII e XIX (VARGAS UGARTE, 1971, p. 104).

Quando os espanhóis chegaram ao Peru sob o comando do capitão Francisco Pizarro, eram mandatários dos incas os irmãos Huascar e Atahualpa. Eles representaram o zênite do Tahuantinsuyo. Com a morte de ambos em 1533, acabou-se a história genuinamente andina, de desenvolvimento autóctone e livre de ingerências estrangeiras. E passou a ter lugar um novo Peru, o Peru atual, uma mistura do andino e do espanhol, unidos de forma tal que a identidade dos peruanos é uma irreversível combinação dos dois elementos (SORIANO, 1995, p. 36).