Antônio chegou bastante adiantado para a primeira entrevista. Ao adentrar a sala de espera, avistei um homem que andava de um lado para o outro, o corpo pesado, uma aparência de bem mais idade do que seus cinqüenta anos. Seus grisalhos cabelos longos e lisos
44 Trabalho apresentado no IV International Congress of Biosynthesis, 1-3 Junho de 2006,
Lisboa (realizei essa viagem sob os auspícios da Pró-Reitoria de Pós-Graduação da USP) Posteriormente, foi transformado em artigo, escrito em parceria com meu orientador, Prof. Titular Gilberto Safra. Sob solicitação do editor, foi entregue para ser publicado do livro Energia & Character. No entanto, o projeto desse livro acabou não vingando, o que me levará a submeter esse artigo a outra publicação especializada.
pendiam de sua cabeça tal qual uma peruca de mulher. Ainda que alto e robusto, o visual do rosto era o de uma senhora idosa num corpo de homem. Ele arfava e andava e pesava. Incerto de se era ele a pessoa que me pedira entrevista, perguntei:
- Antônio?
Meneando a cabeça afirmativamente, abriu um sorriso ao me ouvir e me ver. Cumprimentou-me com um quase abraço. De alegria.
Subimos as escadas para a sala de trabalho. Seus passos ressoavam como se ele carregasse um peso morto, um corpo morto.
Sentou-se frente a mim. Sorriu, meio desajeitado. Mas era nítida sua alegria de estar ali. Durante seu silêncio inicial, fiquei sentindo-o e pensei comigo mesmo: „esse aí é barra pesada‟.
Suas primeiras palavras foram:
- Vim aqui, porque não tenho corpo. Não consigo sustentar ter
corpo. Fiz um trabalho com um bailarino que me deu corpo. Me deu substância corporal. Isso durou um mês e meio. Mas aí, comecei a ter vários problemas físicos. Não agüentei a barra de ter corpo. Por isso estou aqui.
Momentos mais tarde, falou:
- Eu preciso da música. Estudo música a vida toda. Eu até já
me apresentei em alguns barzinhos. Mas não dá. Morro de medo de me apresentar.
Contou-me, então, que estudou violão clássico por mais de trinta anos, bem como piano e flauta transversa. Ultimamente, estudara canto. Mas também largou. Disse-me:
- Quando canto, sinto que me expando, que consigo produzir
uma membrana entre o dentro e o fora, entre mim e o outro. Quando canto, encho a sala de ar. E isso me dá a perfeita noção de que eu existo e existe o outro.
- Parece-me que você me comunica que, quando canta, você
cria pele. E por ter pele, pode sentir-se a si mesmo, pode saber de si e pode, também, saber do outro, disse-lhe.
Antonio largou o canto, também. Segundo ele, temporariamente:
- Até poder ter corpo para agüentar cantar.
Num momento posterior, foi muito claro quanto ao que necessitava na vida:
- Vivo fora de mim, fora do meu corpo, zanzando por cima do
corpo. Ou zanzando por aí. Preciso encarnar. Por isso estou aqui.
Comunicou, então, que estava com muito medo de "me
desestruturar". Perguntei-lhe o que queria dizer com isso. Relatou-me,
então, que trabalha em determinado órgão público e que, com a mudança de governo ocorrida alguns anos antes, mudou a chefia. Esta rebaixou seu cargo - bem como o de dezenas de outros colegas de trabalho -, que era de nível superior, para nível médio. Tal rebaixamento implicou na redução pela metade do seu salário. Segundo ele, essa mudança teria sido uma manobra do novo superior hierárquico para possibilitar que afiliados do partido do governo pudessem ser contratados sem concurso para os antigos cargos de nível universitário. Falou-me de sua aflição:
- O emprego nessa repartição me deu estrutura: parei de ficar
pulando de um emprego para outro, consegui ter estabilidade financeira, ter poder aquisitivo. Consegui, inclusive, me casar, há oito anos.
Narrou que não ficou passivo e submisso diante da redução salarial, tendo acionado a Justiça para reivindicar seus direitos, juntamente com outros colegas de trabalho que estão na mesma situação. No entanto, além de sentir-se frustrado por ter perdido metade de seu poder aquisitivo, ele se sente emocionalmente fragilizado com essa situação:
- Fico me sentindo como antes de ter esse emprego. De novo,
vem uma sensação de incerteza, de não ter chão. Racionalmente, sei que não vão tirar meu emprego, porque sou concursado. Mas é como
se eu não tivesse lugar. Sei muito bem o que é isso. Vivi isso a vida inteira.
Falei-lhe de minha percepção de que o rebaixamento para um cargo de nível médio é vivido por ele como humilhação. E que esse fato me parecia ter gerado nele, não só uma vivência de ter menos valor do que tem, como, também, a de que ele não era visto como ele efetivamente era.
- Faz sentido para você, perguntei.
Antonio começou, então, a dizer-me que a experiência de não ter lugar era desde sempre. Nunca havia se sentido pertencendo a nada, nem a ninguém. E que ele sempre vivia como que se escondendo.
Passou a falar dos pais. Ergueu-se do sofá e muito vivamente falou:
- Os meus pais eram muito sexuados. Eles tinham muito tesão
um no outro. Eu acho que eles tinham que ter ficado assim, namorando, trepando, e nunca deviam ter se casado.
Sua percepção era a de que, ainda que não planejada, a gravidez dos dois irmãos mais velhos tinha sido assimilada pelos pais:
- Mas eu, eu nunca devia ter nascido. Aliás, acho que nunca
nasci.
Após um período de silêncio, comunicou-me:
- Eu fui rejeitado pelo meu pai! Ele ficou furioso com minha
mãe, quando ela engravidou de mim. Acho que ela também não queria aquela terceira gravidez, ela estava muito ocupada com a vida profissional dela. Meu pai queria que ela me abortasse. Mas ela manteve. Não porque eu ache que ela quisesse. Mas só para fazer frente a meu pai. Só para mostrar que ela também tinha poder. Nasci por birra de minha mãe!
Passou a relatar diversos episódios que lhe confirmavam sua vivência de não ter nascido e, conseqüentemente, de não ter corpo. Referiu-se ao medo que sentia toda vez que tinha que se mostrar:
- Acho que tem ligação, esse negócio de eu sentir que não
nasci com o medo de aparecer, de tocar em público.
- Tocar, cantar em público é como se você dissesse: 'estou
aqui, sinto assim. Sou assim'. Expressar sua música é como dizer: 'eu existo!', retruquei.
Conversamos, então, sobre o fato de haver necessidade de se ter corpo, tanto para poder existir, quanto para poder sustentar a existência.
Nesse momento, ele ficou bastante ansioso e agitado. Faltavam uns quinze minutos para o final da entrevista. Decidi fazer um trabalho corporal com ele. Pedi-lhe que retirasse seus sapatos e ficasse de pé. Sugeri que dobrasse os joelhos e deixasse o peso do corpo sobre a planta do pé, para ajudar-lhe a dar melhor sustentação a seu corpo. Propus-lhe que, de olhos fechados, inspirasse e expirasse pela boca, aprofundando a respiração até o baixo ventre, e que, caso se sentisse tentado a se desfazer da ansiedade a que estava acometido, que procurasse 'respirá-la'; pedi-lhe que, mantendo as mãos eretas, afastasse os braços da lateral do corpo, até a altura dos ombros; depois, solicitei que coordenasse a inspiração com o levantar dos braços, e a expiração com o descer dos mesmos. Pedi-lhe permissão para tocá-lo. Concedida, fui tocando-lhe a coluna com as pontas de meus dedos da mão direita.
Sua respiração foi se ampliando e correntes de energia vegetativa foram percorrendo seu corpo. Transcorridos uns dez minutos, terminamos o trabalho.
- O que está se passando com você, perguntei.
Sorridente, me disse que se sentia vivo, que se sentia com pele, habitando seu corpo. E que precisava andar pela sala, como que para ver se podia sustentar aquela sensação. Aquiesci, com um gesto largo de braço.
Após ter caminhado por, aproximadamente, uns dois minutos, sentou-se e me perguntou:
- Como é que vão ser as suas férias? A gente tem que pensar
nisso, pois vai vir Natal, depois as férias de Janeiro...
Estranhei um pouco sua pergunta, pois ainda estávamos no início de Novembro. Disse-lhe que trabalharia até o Natal e depois, em Janeiro, tiraria duas semanas de férias. Ele ficou em silêncio e seu corpo começou a pendular, demonstrando o que me pareceu uma hesitação.
- Você quer marcar nosso próximo encontro, perguntei.
Respondeu-me que havia gostado muito de mim, de nossa entrevista. Mas que ele queria ainda se entrevistar com mais uns dois ou três terapeutas. Agregou que todos os terapeutas anteriores tinham sido escolhidos por outras pessoas e não por ele – eu havia sido indicado por sua esposa, que também é terapeuta.
- Acho fundamental que você use sua liberdade e sua
autonomia para escolher você o seu terapeuta, disse-lhe.
Terminada a entrevista, levantamo-nos e conduzia-nos para a porta, quando retraiu o corpo, deu um passo atrás e me disse:
- Pois é, estou me sentindo muito bem, muito encarnado. Mas
eu tenho medo de não sustentar.
- Antonio, o medo de encarnar e de sustentar a encarnação
será um tema a ser trabalhado a fundo, se você nos escolher, disse-
lhe.
Abri-lhe a porta do consultório. Ao transpassá-la, virou-se para mim sorrindo e falou-me:
- Você disse se eu escolher a nós... 'nos escolher'. Gostei
desse negócio de 'nos escolher'... E desceu as escadas continuando a
sorrir.
Pensei comigo mesmo: „Esse não volta; pelo menos, não tão
cedo. Pegou o que precisava. Isso que se passou não foi só uma entrevista, foi uma verdadeira “consulta terapêutica” (Winnicott, 1977).
3.1.2 MENTALIZAÇÃO OU ACURADA PERCEPÇÃO DE SI