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3. Theory

3.19 MATLAB

Engajado nesse projeto, em seus estudos sobre os operadores de telemarketing da cidade de São Paulo, Braga teria percebido o embrião de um instinto reformista plebeu, ainda que inconsciente ou reprimido, que “já ameaça mostrar-se impaciente com o conformismo daqueles que se deixaram transformar em instrumentos do atual modelo de desenvolvimento.” E em caráter de conclusão afirma:

Embora carente de recursos programáticos, organizativos, ou mesmo ideológicos, esse instinto começa a se manifestar nas greves e nas mobilizações do setor, pressionando o sindicalismo lulista a incorporar suas demandas que, lentamente, vão se tornando mais ofensivas. Desafiando o coro dos contentes, não seria nenhuma surpresa encontrar, em um futuro próximo, esses trabalhadores alinhados aos batalhões vanguardistas da luta de classes (BRAGA, 2012 , p. 230) .

Dada a conclusão de seus estudos, foi coerente para Braga ver nos Movimentos de Junho o estopim da mobilização do precariado:

Se os grupos pauperizados que dependem do Programa Bolsa Família e os setores organizados da classe trabalhadora que em anos recentes conquistaram aumentos acima da inflação ainda não entraram na cena política, o “precariado” - a massa formada por trabalhadores desqualificados e semiqualificados que entram e saem rapidamente do mercado de trabalho, por jovens à procura do primeiro emprego, por trabalhadores recém saídos da informalidade e por trabalhadores sub-remunerados - está nas ruas

manifestando sua insatisfação com o atual modelo de desenvolvimento (BRAGA, 2013, p. 82).

Estaríamos “diante de um autêntico processo de mobilização do proletariado precarizado em defesa tanto de seus direitos à saúde e à educação públicas e de qualidade quanto pela ampliação de seu direito à cidade”, onde a “questão da efetivação e ampliação dos direitos sociais é a chave para interpretarmos a maior revolta popular da história brasileira” (BRAGA, 2013, p. 82).

Por mais que Braga se dedique de forma produtiva a sondar na realidade brasileira os elementos dinâmicos capazes de portar um projeto político transformador, também ele não demonstra como esses pressupostos agiram sobre os Movimentos de Junho, realizando uma tradução mecânica que tende a romantizar os fatos, que talvez possuam uma explicação mais simples e sejam menos promissores.

As forças políticas de esquerda que fazem oposição ao lulismo tiveram presença destacada nos Movimentos de Junho, principalmente em sua primeira fase, e durante os atuais movimentos esparsos, onde por momentos são a principal força política dirigente. Contudo, quando da eclosão da Grande Onda, sua influência foi seriamente debilitada, juntamente à esquerda governista.

A questão que surge aqui é saber se de fato as bandeiras do precariado hegemonizaram a política dos movimentos ou se outro segmento social, de orientação política e ideológica distinta, impôs suas pautas. Ricardo Antunes, intelectual prolífico e historicamente vinculado ao pensamento de esquerda, pensa que de fato houve no junho de 2013 uma revolta contra os rumos políticos e econômicos do governo, revolta que teria nas camadas populares sua base social.

Para Antunes, a condução do governo petista gerou na sociedade brasileira um profundo mal-estar. A manutenção da doutrina neoliberal, baseada na desregulamentação dos direitos trabalhista e ampliação das liberdades do capital, teria aprofundado o descontentamento em associação com sentimento da população de que o PT teria mudado de orientação política. Assim, como consequência do acirramento das contradições do governo, surge um estado de ânimo que explicaria os Movimentos de Junho:

A população não suporta mais o transporte privatizado, a saúde precarizada, degradada (e também privatizada em grande parte), o ensino público profundamente degradado e abandonado. A população, portanto, parece que está chegando a seu ponto de saturação e esgotamento, causados por essa

mercadorização da res pública, tipicamente neoliberal (ANTUNES, 2013, p. 38).

Antunes (2013, p. 42) ainda faz uma leitura atenta, embora ideologicamente marcada, das ação das forças governistas quando da Grande Onda, que reflete com precisão o sentimento das oposições de esquerda em relação às organizações que nos movimentos sociais dão sustentação política ao governo: “As centrais sindicais entraram, posteriormente, para dizer que querem preservar o seu espaço. Mas isso é difícil para a CUT, por exemplo, que comprou a ideia de que o Brasil novo de Lula e Dilma tinha nos levado a condição de primeiro mundo”. Concorda em propor que uma parcela da sociedade composta por jovens com em situação de subemprego e inserção precária no mercado de trabalho, numa conformação que converge com o precariado de Braga, teria sido a força social preponderante da Grande Onda. Para Antunes (2013, p. 45), esses jovens trabalhadores

manifestaram publicamente sua insatisfação com os limites de um modelo de desenvolvimento que se apoiou na espoliação do espaço urbano por meio do conluio entre incorporadoras, construtoras, empresas de transporte e poder público. De fato, no dia 17 de junho de 2013, os jovens expressaram seu desejo de inventar outra metrópole, um lugar generoso onde as diferenças pudessem ser acolhidas, os serviços públicos funcionassem a contento para as amplas maiorias e a cidade não permanecesse como propriedade de uns poucos privilegiados.

Ainda que ressaltando o protagonismo da juventude trabalhadora nos Movimentos de Junho, Antunes (2013, p. 46) salienta que seu desfecho está em aberto.

O projeto de mudança que a população trabalhadora quer é outro. Claro que nessas lutas há um pouco de tudo, pois, como dissemos anteriormente, elas são multifacetadas, o que mantém o cenário em aberto. É como se tivéssemos janelas abertas e, do lado esquerdo, as janelas fossem mais bonitas, elas mostram um futuro mais claro; já se olharmos pelo lado direito e da extrema direita, teremos um cenário tenebroso.

Talvez mais que a aproximação do que foram os protestos de 2013, a visão combinada de Antunes e Braga forneça um perfil do que pensaram as oposições de esquerda durante os Movimentos de Junho, de que orientação teórica embasou suas ações.