Appendix E MATLAB Code
E.1 MATLAB Files for the Responsive Systems Comparison Method
Taciana Assumpção Vaz, 30 de maio de 2008, São Paulo.
TONY MARCOS MALHEIROS
... um garotinho contava a história de Olinda, não sei se ele conta até hoje. Se você o deixar falar e, depois de cinco minutos, pedir para ele parar de falar um pouquinho, para, depois, continuar a história, ele não saberá retomar o assunto. Ele voltará para a primeira frase, porque decorou aquilo. Alguém lhe contou a história, e ele a decorou. Mas ele não sabe retomar o assunto quando é interrompido. Com esses doutores e estudiosos, acontece a mesma coisa. Se você pedir uma explicação ou um exemplo da qualidade de vida em Brasília, ele não saberá dizer que é você poder circular, é você poder atravessar a cidade, é você poder andar por doze quilômetros sem contornar um prédio, etc. Eu não contorno um prédio completamente. Em qual cidade do mundo você faz isso? Dentro do jardim, na sombra, no verde...
T
ony Marcos Malheiros, arquiteto de origem goiana, contribuiu muito para a formação arquitetônica de Brasília. Apesar de seu berço familiar ser Formo- sa, a 80km da Capital Federal, o pai estudou e casou-se em Goiânia, onde Tony nasceu no dia 4 de outubro de 1952. Em 1961, seus pais mudaram-se definitiva- mente para Brasília, onde o arquiteto reside desde então.No ano de sua chegada, com oito anos de idade, as superquadras ainda não tinham sido construídas e a implantação do Plano Piloto estava limitada entre a via W4 – no sentido oeste – e as quadras 400 – no sentido leste:
... Acima da W4, só havia mato. Nós brincávamos de catar cajuzinho e de guer- ra no mato que existia ali atrás. Eu morei nas Quadras 704 e na 710. Não havia quase nada lá atrás. Então, era uma brincadeira. Íamos ao Clube Cota Mil a pé. Descíamos pelo mato, a pé, e pegávamos carona de volta. Das Quadras 400 para baixo, tudo era mato. Não havia embaixada, não havia nada.
Ingressou na Faculdade de Arquitetura da Universidade de Brasília (FAU-UnB) em 1972, finalizando o curso em 1978. Em 1973, começou estágio no escritório do arquiteto Elvin Mackay Dubugras1, por indicação de um conhecido de seu pai que também ali trabalhava. Inicialmente, fora incumbido apenas de de- senrolar papel vegetal, momento em que se familiarizava com o ritmo do trabalho. Ao mesmo tempo, inscreveu-se no curso de desenho técnico do SENAC, onde professores da UnB ministravam aulas. Foi assim que se originou o forte vínculo entre os dois profissionais, perdurando por longos anos.
Trabalhou no escritório de Elvin Dubugras durante todo o período letivo e por mais um ano e meio depois de formado. Chegou a assumir toda a responsa-
bilidade pelo escritório, já que Dubugras viajava muito, devido às embaixadas do Brasil que projetava:
... Antes de me formar, eu já cuidava do escritório dele, porque o pessoal mais antigo já tinha saído de lá. Assim, eu era a pessoa de confiança dele e cuida- va de tudo. Até assinar por ele eu assinava. Talão de cheques, etc. Eu cuidava de tudo.
Tony considera que começou a projetar no período da faculdade, antes mesmo de concluir o curso, pois já tinha cinco obras construídas: quatro residên- cias e um comércio. Todavia, os projetos não estavam em seu nome, uma vez que não possuía autonomia para assiná-los. Ainda no escritório de Dubugras, desenvolveu as Áreas Octogonais 5 e 6:
... Eu não era formado ainda, mas fazia tudo no escritório do Elvin. Ele deu a ideia do lançamento. Naquela época, ele mexia muito com pré-moldados, com pré-fabricados. Então, o Elvin tinha um projeto de apartamento para uma coope- rativa. Como ele tinha a ideia de usar esses pré-moldados para viabilizar a obra, nós estudamos a planta do apartamento – somente do apartamento –, e eu fiz o bloco, o pavimento tipo, o agenciamento e a urbanização toda. O projeto cor- reu inteiramente por minha conta, mas não posso dizer que era projeto meu, até porque não o podia assinar, tendo em vista que ainda não era formado. Então, sempre coloco esse projeto no meu currículo, como se fosse nosso, meu e dele.
O seu histórico acadêmico enquadrou-se na última turma do currículo antigo (1978), ou seja, as disciplinas que não eram específicas da área de Ar- quitetura tinham o mesmo peso que as demais e eram ministradas em cursos específicos. Muitos professores sabiam com quem Tony trabalhava e alguns até conheciam o nível de excelência dos projetos realizados no escritório de Elvin
Dubugras:
Eu sou da última turma do currículo velho e sou o único que fez diplomação no verão. Eles abriram uma turma de diplomação, dois se inscreveram, mas só eu a fiz. Eu pedi que a diplomação fosse feita no verão porque precisava me for- mar logo e porque sempre havia a preocupação com as greves, que provoca- vam atrasos no curso. Inclusive, o Zimbres2 foi meu orientador. Fiz um projeto
de habitação dentro do Campus. Lembro que, no dia da defesa, houve um “pau” danado entre o reitor – do Governo Militar – e os professores.
Ao concluir a faculdade, Tony teve uma grande oportunidade de traba- lho: elaborar o projeto de um bairro residencial em Cuiabá, chamado Morada do Ouro3. Naquela época, havia sido concluída a construção do Centro Político Admi nistrativo do Mato Grosso (CPA), distante da capital, assim como ocorreu em Salvador. O planejamento incluía uma avenida – Avenida do CPA4 – que o ligava ao centro da cidade. Os servidores do Estado uniram-se e fundaram uma cooperativa que decidiu construir um bairro residencial apenas para seus sócios, localizado em frente ao CPA. O projeto compreendia sete tipos de residências, prédios de apartamentos, incluindo todos os equipamentos comunitários – esco- la, posto de saúde, entre outros.
Ao assumir o compromisso, Tony convidou seu colega de infância, o arquiteto Ricardo Cerqueira Pinto5, para desenvolver o projeto em sociedade. Abriram a firma TR Arquitetura, alugaram uma sala comercial no edifício Brasília Rádio Center e desenvolveram toda a concepção para o bairro do CPA. Neste momento, Tony teve que deixar o escritório de Dubugras. O trabalho era muito complexo e demandava dedicação. Entretanto, jamais perderam o contato:
O C T O G O N A L E S E S T / S E N AT
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Eu falei para o Elvin: “O trabalho é muito grande!” “Então, vá fazê-lo. Se você quiser fazer aqui dentro, você pode fazer.” “Não, vou precisar de mais gente para me ajudar, não adianta.” Ele já conhecia o Ricardo também, porque o Ri- cardo ia lá de vez em quando. Então ele falou: “Não, tudo bem, pode ir cuidar da sua vida”. Assim, fiz o trabalho, mas continuei indo ao escritório do Elvin. Numa dessas idas, ele me mostrou uma plantinha, e eu lhe perguntei: “O que é isso?” “É a planta do escritório”. Percebi que ele estava reduzindo o escritório, que, em vez de quatro salas, ficaria apenas com duas. Então, eu lhe perguntei: “O que você vai fazer? Vai vender?” “Não, vou alugar”. Na brincadeira, eu suge- ri: “Aluga para mim, ué!” “Está bom, pode mudar para cá.” “Mas, primeiro, temos que acertar o valor.” “Não, depois a gente vê isso. Venha para cá.” Eu precisa- va ir lá de vez em quando também, porque eu tinha que cuidar das coisas dele quando ele viajava.
Após um período de sociedade, por indicação de Elvin Dubugras, Ricar- do foi convidado para trabalhar também no Ministério das Relações Exteriores (MRE). O volume de trabalho tornou-se tão intenso a ponto de ter que optar em qual escritório permanecer. Desfez-se, assim, a sociedade TR Arquitetura.
Atualmente, Tony possui escritório próprio, de forma individual e desen- volve projetos mais de cunho privado do que público. A demanda de projetos de- pende basicamente de fases que são delimitadas pela necessidade do mercado. Ao trabalhar com projeto residencial para um determinado cliente, por exemplo, este indica a um amigo que também esteja necessitando dos mesmos serviços e, assim, sucessivamente:
... Então, quando eu começo a trabalhar para um dentista, ele, que está sem- pre se encontrando com outros dentistas, faz a propaganda. Eu brinco que tem época que eu tenho CRM, tenho número na OAB, etc. Você projeta para um ad-
vogado. Dali a pouco, você está fazendo um bando de casas para advogados. Quando você projeta para um médico, você acaba fazendo um bando de ca- sas para médicos, e assim por diante, porque um conta para o outro, pois estão sempre juntos. É dessa forma que ocorrem as fases.
O mesmo acontece quando é convidado a elaborar um projeto de cunho público:
... Digamos que alguém de um ministério precise fazer um projeto de uma re- forma em determinado andar. Em uma festa, essa pessoa conversa com um desses médicos: “Eu vou precisar contratar um arquiteto.” “Tem o fulano de tal, que fez o projeto disso e daquilo para mim.” “Quem foi o arquiteto que fez sua casa? Ficou legal? Eu estou precisando fazer um serviço, vou chamar esse ar- quiteto”. E o médico indica o arquiteto. Quando o arquiteto entra no ministério, ele encontra vários outros trabalhos. Certa vez, eu entrei no Ministério da Defe- sa, que antigamente se chamava EMFA, para fazer uma reforma de layout de andar. Mas o negócio foi crescendo de tal forma que acabei reformando o an- dar do ministro inteiro, depois fiz a casa do fulano, fiz a casa do sicrano, fiz um prédio na Quadra 112, outro na Quadra 402, no Cruzeiro, na Asa Norte, enfim, fiz um monte de coisas.
A maioria dos projetos foi realizada no Plano Piloto, mas sua experiência profissional abrange outros centros urbanos, como Formosa, Anápolis, Ceres, Rio de Janeiro e Teresópolis. No ano da pesquisa, Tony desenvolvia um trabalho intenso que seria implantado em todo o Brasil. Tratava-se de um empreendimen- to para o SEST/SENAT6 de atendimento e lazer. Os usuários eram trabalhadores do setor de transportes, como por exemplo, motoristas de caminhão, de carga, de ônibus, de táxis e particulares.
às estradas, para facilitar o acesso do caminhoneiro e também de sua família que, geralmente, mora na periferia. Outro fator positivo do empreendimento é possibilitar que a vizinhança também seja beneficiada com tratamentos dentá- rios, cursos de capoeira, de línguas, etc.
O projeto inicial foi remanejado, pois havia enfrentado problemas sérios de implantação. A princípio, a Confederação Nacional do Transporte (CNT) con- tratou um escritório de Salvador para fazer o projeto que seria repetido em toda a extensão nacional. Entretanto, não foram observadas as diferenças regionais, como geografia, clima, cultura, entre outras. Para agravar a situação, a CNT não possuía uma equipe de engenharia capaz de dar assistência e apoio técnico às instalações. Acharam por bem, então, contratar uma empresa que coordenasse a implantação e outra que executasse o projeto, momento em que enfrentaram inúmeras dificuldades a ponto de interromperem todas as obras.
Como Tony encontrava-se envolvido na reforma de todos os SESCs de Brasília, foi indicado para averiguar os problemas e apresentar soluções técnicas cabíveis. Entrou em contato com a unidade de Goiânia e preparou um relatório completo do que deveria ser modificado. As ideias sugeridas foram acertadas e Tony foi convidado para fazer o mesmo em outros projetos que estavam parali- sados. Com isso, as unidades que estavam em obra não incorreram mais nos mesmos erros.
Ainda assim, o problema não estava completamente resolvido. Os futuros projetos a ser implantados em novas áreas permaneciam com os mesmos defei-
tos. Tony foi contratado pela CNT para ser o responsável por toda a estruturação das novas unidades, com a condição de não alterar o conceito previamente ela- borado, como, por exemplo, manter as coberturas curvas, pintadas de amarelo, etc. Conforme as exigências, o projeto sofreu as alterações necessárias, sendo adaptado às novas realidades regionais, como terrenos que, ora encontravam- -se no charco, ora a beira-mar, num platô, no mangue, ou mesmo em áreas com índices maiores ou menores de chuva, etc.
O arquiteto entende que existe especificidade em se projetar em Brasília. Em qualquer outro centro urbano, deve-se seguir o Código de Edificações local; en- tretanto, estes códigos, via de regra, são muito semelhantes, por estar inseridos em estruturas urbanas tradicionais. Às vezes, tem-se a especificidade de uma cidade ser mais antiga, como, por exemplo, Ouro Preto; outras dependem mais da aprova- ção do IBAMA; outras ainda não possuem nenhuma particularidade, todavia, o pró- prio Código de Edificações limita de alguma forma. Para Tony, Brasília possui tudo que fora exposto acima e, além disso, tem a especificidade de ser área tombada. Tal fato consiste em mais uma limitação à liberdade de se projetar.
Outro fator limitante relacionado ao Plano Piloto são as projeções terem formato regular, o que define a mesma volumetria para as edificações. Depois de inúmeros projetos, chega-se ao ideal em relação ao custo e à funcionalidade, o que leva à repetição de plantas e ao detalhamento apenas de fachadas, dando o falso entender que houve esmero no detalhamento da edificação:
ser, eu tenho um monte de folhetos que guardo – eu vou pegando da rua e vou guardando – até para ver o que eles estão aprovando.
... Se você for observar, todas as plantas são iguais. Há raríssimas exceções, raríssimas exceções. Você pode constatar isso. O que está acontecendo? Es- tão mexendo somente na fachada. Usam uma planta que consideram ótima e mexem na fachada.7
Para evitar o erro cometido por Niemeyer nos projetos de blocos de su- perquadra com fachadas de panos de vidros voltada para o poente, causando uma alta absorção de calor, alguns profissionais passaram a fazer uso de va- randas. Assim, começaram a invadir o espaço aéreo em um metro, depois em dois metros e, em seguida, houve a tentativa de fazer compensações. Criaram artifícios para amenizar um problema. Entretanto, Tony relata que quando dese- jou inserir a ventilação natural8 de shafts9 com exaustores, que deveriam ficar na cobertura da edificação, enfrentou graves problemas na Administração.
Tem-se muito mais flexibilidade e muito mais condições de dar melho- res soluções – à arquitetura, à funcionalidade e à qualidade – fora de Brasília. Antigamente, as edificações tinham três prumadas, trinta e seis apartamentos, por exemplo, e o apartamento era vazado. Atualmente, um prédio com a mesma dimensão, tem setenta e dois apartamentos, que não são mais vazados, já que o custo tende, cada vez mais, a aumentar:
... O apartamento do meu pai, na Quadra 305, é vazado, possui uma planta mui- to mais tranquila, com quartos para a frente e para os fundos. Ele é muito me- lhor resolvido do que este apartamentozinho aqui, onde todos os quartos ficam aqui, e um corredorzão enorme, horroroso, no apartamento. Por quê? Porque
eu tenho que ter outro corredor aqui, do lado dele, para colocar o apartamento virado para o fundo. Isso não é funcional; isso é perda de espaço.
Outro exemplo de inflexibilidade por parte de órgãos públicos aconteceu na Asa Norte. Os blocos comerciais são diferentes dos da Asa Sul, estão sepa- rados por vegetação que permite maior ventilação e insolação a cada unidade. Certa vez, o proprietário de dois destes blocos do CLN 309 contratou o arquiteto Elvin Dubugras para desenvolver os respectivos projetos arquitetônicos. Foi-lhe dada toda liberdade, inclusive a de acolher o jardim entre blocos, dando me- lhor solução para o espaço comunitário. O fato rendeu grandes problemas na Administração:
... E o cliente acatou a ideia: “Beleza! Pode fazer que eu arco com as despesas.” Então, o cliente acatou a ideia do jardim, e o Elvin fez o paisagismo, com cal- çadas, com uma pracinha no meio, com banquinhos, com mesinhas – que exis- tem até hoje, para jogos de dama e de xadrez, se a pessoa quiser jogar – com jardim, etc. Quando o projeto já estava quase terminando, começaram a fazer o paisagismo. Então, o fiscal bateu e falou: “O que vocês estão fazendo aí, em área pública?" “Não, é calçada, com jardim.” “Não, não pode. Vocês não podem construir em área pública...” Olha o absurdo! Você está querendo cuidar da área pública, que o governo não cuida, mas você não pode!
Para Tony, a ideia original de Lucio Costa para o Plano Piloto não foi tom- bada. Houve um equívoco. Foram tombadas as ideias de outras pessoas que vieram depois do urbanista. Entende que, durante o processo de implantação da cidade, houve alterações. Por exemplo, as quadras 700 deveriam ser apenas chácaras que forneceriam verduras e legumes aos moradores das superquadras; do mesmo modo, não foi prevista a instalação de semáforos. Mais tarde, as qua-