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nos PRoJetos de RestauRação FloRestal?

Por se tratar de um modelo ainda incipiente, em processo de construção, e não traduzido ainda em ações práticas de restauração, a proposição de conceitos e ações de restauração florestal que permitam a incorporação da visão ecossistêmica está sendo sustentada prin-

cipalmente nos resultados de pesquisas científicas recentes, as quais permitem vislumbrar algumas perspectivas futuras de aplicações metodológicas.

Como o foco desses trabalhos será considerar as áreas em processo de restauração como um ecossistema funcional, composto de diferentes compartimentos interdependentes, e não apenas como um amontoado de árvores plantadas numa área degradada, será preciso inicial- mente caracterizar em detalhes o local a ser restaurado com base em seus atributos físicos. A partir desse ponto, é possível diagnosticar quais são as principais deficiências desse ambien- te, tendo como referência as condições anteriores à degradação ou situações não degradadas no entorno, com as mesmas características ambientais.

A partir desse diagnóstico, é possível definir quais ações serão necessárias para su- perar essas deficiências, considerando principalmente a sustentabilidade dessas ações no tempo, como por exemplo, a conservação do solo, a descompactação mecânica do substrato, a calagem, a reposição mineral e orgânica de nutrientes, etc.. A partir de então poderão ser organizados “grupos funcionais” a partir de espécies vegetais especialmente selecionadas para executarem funções específicas no ecossistema (conceito de “engenheiras físicas”, ver Fase 7). Como exemplo desses grupos, pode-se citar o das espécies incorporadoras de nu- trientes (leguminosas fixadoras de nitrogênio e espécies com intensa associação com fungos micorrízicos), incorporadoras de matéria-orgânica (leguminosas fixadoras de nitrogênio e es- pécies com diferentes graus de deciduidade), com ação descompactante (raízes fortemente pivotantes e profundas), redistribuidoras da água no perfil do solo, com papel de controle da erosão (espécies com rápido crescimento lateral de copa e alta densidade superficial de raí- zes ramificadas) e que criem uma zona tampão no entorno da área em processo restauração (redução de ventos e temperaturas elevadas por meio do efeito de borda, a partir da introdu- ção de espécies que naturalmente desempenham essa função em florestas).

Cabe ressaltar que nesse momento há condições de tentar considerar esses fatores na restauração ecológica apenas na escolha das espécies, mas ainda pode haver outras possi- bilidades, como por exemplo, de associações entre as espécies, das quais ainda pouco se conhece (Souza, 2007).

Nesse sentido, cabe à pesquisa organizar a definição desses grupos e selecionar as es- pécies mais aptas para desempenharem essas funções, disponibilizando aos profissionais da restauração ecológica as informações e metodologias necessárias para que os mesmos possam colocar em prática esses conceitos nos seus projetos.

2.

diaGnÓstico aMBiental das ÁReas a seReM

RestauRadas Visando a deFinição de

MetodoloGias de RestauRação FloRestal

Ingo Isernhagen, Pedro Henrique Santin Brancalion, Ricardo R. Rodrigues, André Gustavo Nave, Sergius Gandolfi

No processo decisório sobre qual a melhor estratégia de restauração florestal a ser adotada, é essencial aliar a Ciência ao conhecimento prévio da área de estudo. Para isso, além de dados secundários da região que tratem de características ambientais, é preciso realizar uma série de ações que, genericamente, podem ser chamadas de diagnóstico ou zoneamento ambiental. Esse diagnóstico conduzirá à adequação ambiental, que corresponde basicamente no esta- belecimento de ações que resultem na conservação, manejo e restauração ambiental, principal- mente das Áreas de Preservação Permanente e Reservas Legais. Isso decorre das exigências da legislação vigente e de algumas situações que, apesar de não estarem protegidas na legis- lação, também devem ser recuperadas com espécies nativas regionais, em função do benefício ambiental com a restauração dessa situação ser muito maior que se a área for mantida com atividades agrícolas. Entre essas situações podemos destacar aquelas com grande potencial de interligação de fragmentos remanescentes (corredores ecológicos), áreas com baixa aptidão agrícola e/ou alta aptidão florestal, situações com elevada erodibilidade, entre outros.

Considerando que se desejem realizar trabalhos de recuperação de áreas degradadas, é importante que nesse diagnóstico sejam reconhecidas as potencialidades de auto-recupe- ração de cada situação ambiental, de forma a permitir a definição de ações de restauração que possam aproveitar o máximo desse potencial, sendo capazes de desencadear e/ou conduzir os processos naturais de restauração. Dessa forma é possível que pelo menos parte da vegetação natural se restabeleça a partir de ações de indução e condução da própria regeneração natural. Isso tem como consequência não só a redução dos custos da adequação ambiental, mas tam- bém uma garantia maior de sucesso dessas ações.

Através deste estudo é possível diagnosticar, mapear e quantificar as áreas legalmente re- gulares e as áreas que apresentam alguma inconformidade com a legislação ambiental vigente e/ou com as condições ambientais e propor alternativas para a sua adequação legal e/ou am- biental. Recomenda-se sempre que os trabalhos de adequação ambiental, que na verdade são

diagnósticos na escala da paisagem, sejam considerados dentro do conceito de microbacias, potencializando assim os efeitos positivos das ações implantadas.

Normalmente o zoneamento ambiental é iniciado através da análise de imagens aéreas ou de satélite do local, preferencialmente as mais recentes, com resolução menor que 2,5m²/ pixel e com escala que permita uma boa visualização (se possível menor que 1:15.000). Esse processo, denominado de fotointerpretação, é realizado através de softwares compatíveis, especialmente aqueles que permitam a construção de um Sistema de Informações Geográ- ficas (SIG), onde é possível gerar bancos de dados com nomes das situações, área, caracterís- ticas específicas ou quaisquer outras informações, conforme objetivos do trabalho. Para que o trabalho de fotointerpretação seja o mais preciso possível, é importante que a imagem esteja corretamente georreferenciada. Isso pode ser realizado a partir do software, seja com dados coletados em campo (a partir do uso de GPS – Global Positioning System) ou a partir da sobre- posição de limites georreferenciados previamente fornecidos em meio digital (da propriedade ou microbacia, por exemplo). Assim, visualizam-se previamente, nas fotografias aéreas, as situações a serem encontradas em campo, como fragmentos florestais, áreas com edificações, pastos, culturas anuais, áreas abandonadas, plantios comerciais, etc. (Figura 2.1). Nesse momento, é muito importante realizar um processo inteligente e integrado de criação das “classes de uso” a serem adotadas para confecção do mapa final. É importante lembrar que essas classes devem trazer informações sobre o potencial de auto-recuperação local. Exemplo: ao invés de classificar uma área somente como “pastagem”, a informação mais completa po- deria ser “pastagem com presença de indivíduos arbustivo-arbóreos regenerantes”. Também é interessante observar, em campo, a proximidade da área em relação a fragmentos de vege- tação nativa bem conservados, que possam servir de fontes de propágulos, além de entender o histórico de uso da área.

Durante a fotointerpretação também é importante construir um traçado prévio da hidro- grafia local, através da própria imagem ou, quando existentes, com o auxílio de dados secun- dários, como cartas planialtimétricas. Essas informações secundárias são muito importantes, principalmente em caso de regiões com relevos declivosos, e devem ser preferencialmente convertidas para meio digital.

A checagem de campo é a atividade subseqüente à fotointerpretação. Consiste em visitas de campo às áreas abrangidas no trabalho de adequação, tendo em mãos cópia dos mapas, preferencialmente já fotointerpretados, para confirmar as situações identificadas em computador, atualizá-las em relação ao uso atual (já que as imagens geralmente são alguns de alguns anos antes), detalhá-las com mais precisão e corrigir eventuais falhas ocorridas duran- te a análise das imagens. Essas correções podem ocorrer devido às alterações de uso da área

posteriores à data dessas imagens, ou mesmo a erros de interpretação no momento da análise da foto. Importante registrar a data da realização da checagem para que conste no mapa final. Quanto mais detalhada for a checagem de campo, mais fiel será o mapa final. Vale destacar que tanto a fotointepretação aplicada no processo de adequação ambiental, como a checagem de campo não têm por objetivo apenas a construção de um mapa de uso e ocupação do solo, mas de identificar o potencial de auto recuperação de cada uma das situações da paisagem, o que vai permitir particularizar as ações de restauração, potencializando o sucesso dessas ações, em termos de indicadores ambientais e reduzindo os custos. Esse potencial de auto recuperação é dependente do uso histórico e atual da área em questão e das características da paisagem regional, como mencionado anteriormente.

A última etapa do zoneamento ambiental é a efetiva edição do mapa de adequação ambiental (Figura 2.2). Nessa etapa todas as informações e os detalhamentos obtidos pela fotointerpretação e checagem de campo são repassados ao mapa. Um dos últimos processos dessa fase é a identificação das Áreas de Preservação Permanente e das áreas potenciais para averbação como Reserva Legal, bem como os eventuais corredores ecológicos. Para isso, deve- se obedecer aos termos definidos na legislação ambiental federal, atentando para as particula- ridades estaduais, municipais ou até locais.

O zoneamento ambiental é o instrumento essencial do programa de adequação am- biental, possibilitando que sejam adotadas ações diferenciadas de conservação, manejo e restauração para cada uma das situações identificadas, conforme os potenciais de auto-recuperação apresentados.

Figura 2.1:

ilustração do processo de fotointerpretação de parte de uma microbacia hidrográfica, utilizando fotografia aérea em escala 1:30.000.

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