Eu admiro uma mulher independente, que não abaixa a cabeça pra nada. Quero que minhas filhas sejam independentes. Eu trabalho na cerâmica, é um trabalho difícil, mas a gente faz isso pela família. Para elas serem alguém na vida (Sandro, pai de Swesley e marido de Suelma, entrevista realizada em 25/02/2014, na sala da casa dele).
As demandas internas dessas jovens mulheres modificaram-se durante os anos. Nessa perspectiva, existem distinções ou aproximações visíveis nos comportamentos com a geração anterior, reproduzidas ao longo dos anos. Um ponto importante na transformação ocorrida é a influência dos fluxos de informações, antes externas ao grupo, hoje acessíveis via novas tecnologias e influências do processo de globalização.
Como já dissemos, a noção de ser jovem ou ser velho é dada culturalmente (BOURDIEU, 1978). É, portanto, um fenômeno sociocultural e que representa uma fronteira entre as diversas categorias: infância, adolescência, juventude, maturidade e velhice. A duração de cada etapa é discutível, elástica, sujeita a constantes revisões, definições e interpretações. Por esse motivo é que pesquisadores sociais têm procurado não naturalizar essas representações de idade e atentar para a dimensão de construção das fronteiras etárias.
Quanto à noção de campo de possibilidade, na qual os jovens se “movem, elaboram seus projetos e desenvolvem suas trajetórias sociais” (VELHO, 2012, p. 194), tem sido o norte de muitos dos pesquisadores dessa categoria. Outra questão-chave citada por Gilberto Velho (2012) é a noção de projeto relacionada a partir da problemática mais ampla de indivíduo e sociedade, compreendido no interior do domínio das ideologias individualistas.
No final do século XX e nesse início do século XXI vem ocorrendo um grande impulso no debate sobre juventude, como comenta Elisa Guaraná de Castro (2005). Todavia, ela alerta que muitos desses trabalhos abordam a juventude como categoria autoevidente ou autoexplicativa, como se a concepção de juventude fosse consensual, utilizando idade e/ou comportamento como definições metodológicas.
Essa concepção é retomada nos anos 1990, no ambiente acadêmico e no das políticas sociais. Algumas construções sobre juventude carregam um caráter universalizante, como as definições de categoria a partir de elementos físicos/psicológicos: faixa etária, mudanças físico-biológicas e/ou comportamentais; as definições substancializadas/adjetivadas da
categoria; e as definições que associam juventude e jovem a determinados problemas sociológicos e/ou como agentes privilegiados de transformação social.
A identificação de uma população como jovem a partir de um corte etário aparece de forma mais clara em pesquisas da década de 60. O corte etário de 15-24 anos, adotado por organismos internacionais como OMS e UCO, procura homogeneizar o conceito de juventude a partir de limites mínimos de entrada no mundo do trabalho, reconhecidos internacionalmente, e limites máximos de término da escolarização formal básica (básico e médio). O recorte de juventude a partir de uma faixa etária específica é pautado pela definição de juventude como período de transição entre a adolescência e o mundo adulto. Essa concepção se estabelece como a mais recorrente a partir da Conferência Internacional sobre Juventude (CASTRO, 2005, p. 4). Em relação à classificação que define jovem a partir de limites mínimos e máximos de idade, é amplamente discutida. Cabe mencionar que, no âmbito das políticas públicas, a adoção do recorte etário de 15 a 29 anos é bastante recente. Antes, geralmente, era tomada por “jovem” a população na faixa etária entre 15 e 24 anos. A ampliação dessa faixa para os 29 anos não é uma singularidade brasileira, configurando-se, na verdade, numa tendência geral dos países que buscam instituir políticas públicas de juventude. Nesse sentido, há duas justificativas que prevalecem para ter ocorrido essa mudança, a saber: maior expectativa de vida para a população em geral e maior dificuldade dessa geração em ganhar autonomia em função das mudanças no mundo do trabalho.
A partir das décadas de 1980 e 90, principalmente, passa-se a discursar sobre infância, adolescência e juventude (CASTRO, 2005; TAKEUTI, 2012). Antes disso, a própria literatura acadêmica era escassa e, no interior da própria sociologia da juventude, havia uma abordagem bastante restrita e circunscrita a alguns poucos jovens problemáticos. Atualmente, essa fatia populacional tem sido alvo intensivo de práticas e processos discursivos (tal noção pensada a partir de FOUCAULT; 1977; 1995; 2006a) nas sociedades latino-americanas (TAKEUTI, 2012). Nesse cenário, a discussão sobre juventude trouxe o olhar da diversidade atenta para a o uso da terminologia “juventudes” (NOVAES, 1998). Desse modo, abriu-se caminho para se fugir de um olhar homogeneizante.
Outra importante reflexão sobre a associação entre juventude, educação e lazer como uma construção socialmente informada é trazida por Helena Abramo (1997). Para a autora, essa seria uma concepção que trata a juventude como aqueles que estão em processo de formação e que ainda não têm responsabilidades, principalmente por não estarem inseridos no mercado de trabalho. Com isso, declara ela, o jovem das classes trabalhadoras é excluído da
concepção de juventude. Essa é uma contribuição importante para que se possa entender juventude como construção social (CASTRO, 2005).
A Boa Vista é considerada uma comunidade rural e, como vimos, juventude rural ainda é um alvo de pouco investimento teórico. Alguns estudos sobre campesinato debatem concepções de juventude, mesmo não sendo esse o objetivo central. Moura (1978), Heredia (1979), Woortmann (1995), entre outros, tratam a questão como intrínseca ao processo de reprodução social do campesinato, e a consequente desvalorização desse ambiente em relação à cidade. Nesse caso, as relações de interação social propiciam ao jovem rural o contato com o mundo; o acesso à escola, à tecnologia, aos bens de consumo, como é o caso das interlocutoras da Boa Vista que, embora inseridas em certo contexto de isolamento geográfico, dialogam com o mundo globalizado e reafirmam sua identidade.
No entanto, o debate deve considerar juventude para além de um recorte de população específica, mas, sobretudo a partir dos processos de interação social e as configurações em que está imersa. Neste sentido, juventude é, além de uma categoria que representa identidades sociais, uma forma de classificação social que pode ter múltiplos significados, mas que vem se desenhando em diferentes contextos como uma categoria marcada por relações de hierarquia social (CASTRO, 2006, p. 7).
A autora atenta ainda para as tensões que essa hierarquia social provoca, visto que está relacionada com a categoria jovem rural e com o dilema “ficar e sair”. Ademais, ao aprofundar a análise dessa categoria, é possível entender, diz ela, como os “processos de construção de categorias sociais configuram e reforçam relações de hierarquia social. A observação dos espaços e formas como a categoria juventude e em especial juventude rural atuam identificados como tal” (CASTRO, 2005, p. 11), trazendo uma série de elementos que contribui para a compreensão desse fenômeno, como a implantação de políticas públicas, por exemplo.
O que se observou é a reprodução da hierarquia rural/urbano sob construções estigmatizantes, onde morar no campo é desvalorizado culturalmente, considerando-se também o que tange as diferenças de condições de vida. O estigma (Goffman, 1980) que marca quem mora nessas áreas rurais é manifestado pela classificação de morar mal, para quem é morador de áreas associadas ao meio rural, em oposição a morar bem, para quem reside nos centros urbanos (CASTRO, 2005, p. 155).
Esse jovem também está inserido num contexto contemporâneo, por conseguinte, sujeito a questões pertinentes a uma sociedade de consumo que impõe conceitos, determina valores e consequentes modelos. A esse respeito, Norma Missae Takeuti (2012), em um
artigo intitulado “Paradoxos societais e juventude contemporânea” apresentado no Simpósio – Juventudes da América Latina, parte do princípio de que tal tema não pode ser abordado de modo universal, visto que está delimitado ao espaço circunscrito social e geograficamente – a América Latina.
[...] na sociedade contemporânea há uma produção imaginária exacerbada do ser jovem, sustentada pela indústria cultural que elege os jovens como sendo a fatia privilegiada do mercado consumidor. Isso tem como consequência a ampliação do campo de identificações imaginárias, onde a ideia de juventude passa a ser o “modelo social” para um amplo espectro de faixas etárias. Por exemplo, a sociedade de comunicação e de consumo desenvolve uma lógica da moda que se estende para o corpo social, através de imagens que apelam invariavelmente para a figura do indivíduo “sempre mais jovem” (top models em faixas de idade cada vez menores), “leve, fugaz, despreocupado e feliz”. A força das significações imaginárias sociais da juventude se denota no fato de todos se sentirem impelidos a permanecer jovem o mais tempo possível, sob fortes ameaças de estigmas de degradação humana produzida pelo tempo, tanto no corpo e na sexualidade como na inteligência (TAKEUTI, 2012, p. 249).
Para ela, a definição do ser jovem e a concepção das relações juvenis na complexa contemporaneidade estão ligadas aos contextos de ordem cultural, social, político e econômico de cada sociedade. Nessa perspectiva, as jovens da Boa Vista, do mesmo modo que outros jovens latino-americanos, estão sujeitas a essa força de significados imaginários. Nessa perspectiva, discutir alguns posicionamentos acerca dessa categoria, com base nas pesquisas em antropologia, é importante no sentido de compreender e elaborar hipóteses que deem sentido e colaborem na percepção de como mulheres jovens da comunidade concebem projetos de vida e quais as estratégias que fazem uso para tais realizações.
Por ser um conceito elástico, mas específico em seu contexto, apresento, a seguir, alguns estudos gerais sobre jovens, jovens quilombolas, a problemática da individualidade e o campo de possibilidades na sociedade na qual estão inseridas, visando entender a construção de projetos individuais.