Para a categoria, Percurso Institucional foram elaboradas duas subcategorias: Adaptação e acompanhamento na instituição e Relação com os colegas e técnicos.
5.2.3.1. Adaptação e acompanhamento na instituição
Acerca do percurso institucional dos entrevistados verificou-se que os utentes U1, U2, U3 continuam algumas vezes a frequentar a Casa do Povo de São Bartolomeu de Messines, porém devido à falta de transporte, torna-se difícil frequentar a tempo inteiro. O principal motivo que os leva a participarem nas atividades é manterem-se ocupados diariamente e o interesse em conviver com outras pessoas como forma de combater o isolamento social. Já os utentes U4, U6 e U7 deixaram de frequentar as atividades da instituição devido à falta de tempo. Quando questionados se o trabalho na Casa do Povo os ajudava, todos responderam afirmativamente.
- “Sim.. sim, é muito importante… para as pessoas que tenham dificuldades” (U1) - “Sim é…” (U2)
- “Sim…vez em quando venho cá” (U3)
- “Sim… gosto de estar aqui com os meus colegas” (U4)
- “É importante e eu agradeço muito à Casa do Povo, já me ajudaram muito… mas prontos não posso ficar mais” (U5)
- “Sim eles dizem que sim, que ajudam aqueles que têm mais problemas, mas para mim isso...não” (U6)
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- “Muito, porque como eu andei nos treinos de andebol…isso emocionou-me muito” (U7)
As famílias F1 e F2 mencionaram também a grande importância que a Casa do Povo tem tido para os seus familiares na promoção de novas competências e autonomia. A família F3 menciona que o seu utente deixou de frequentar a Casa do Povo por negar a sua deficiência e não querer estar na presença de outras pessoas em situação semelhante. Afirma também, que o seu familiar não teve progressos, mas se tivesse sido inserida numa atividade profissional ou num grupo de pessoas com deficiência, talvez se notasse alguma evolução. As declarações das famílias F1 e F2 demonstram que houve evolução e um excelente acolhimento por parte da Casa do Povo.
- “Sim era e é, só que derivado à situação de ele trabalhar não consegue ir (…)”
(F1)
- “Sim (…) só que não tem a capoeira e ele está muito ligado à capoeira, e tem medo que venha aqui e passe horas demais (…)” (F2)
As declarações dos técnicos acerca da evolução dos utentes na instituição foram positivas, pois cada um demonstra diferentes progressos nas suas dificuldades.
O técnico T1 menciona que a nível motor tiveram um caso de sucesso, pois não tinha qualquer coordenação motora, o que lhe impedia de se deslocar a certos locais, mas atualmente superou essa dificuldade e tornou-se uma das melhores atletas da ginástica adaptada. Outro caso de sucesso, foi um rapaz que não conseguia comer sozinho nem falar com os outros, porém ao treinar as competências sociais, atualmente, já consegue estabelecer um diálogo e ter autonomia para comer sozinho. O técnico T1 refere que essencialmente trabalham as rotinas e as mudanças de hábitos, pois algumas pessoas, antes de ingressarem nas atividades não tinham qualquer tipo de rotina nem uma alimentação saudável e hábitos de higiene, o que dificultava muito a sua evolução a diversos níveis. O técnico T2 menciona, que para observar os progressos dos utentes é necessário fazer uma observação individualizada, porque cada um tem o seu ritmo de aprendizagem e diferente grau de dificuldade. Por exemplo no clube da batucada verificou-se no início uma grande dificuldade em fazer músicas, mas gradualmente foi melhorando, como se pode certificar atualmente, pois os utentes já possuem uma série de noções e conhecimentos musicais. O técnico T3, refere que os utentes evoluíram muito a
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nível social, a nível da inclusão e a nível cognitivo, através da aplicação de diversos jogos e estratégias de intervenção.
Em relação à adaptação, o técnico T1 menciona que nem todos se adaptaram bem às atividades, visto que são adultos com mais de 30 anos de idade e que em toda a vida foram dependentes.
- “Nem todos, porque muitos deles (…) são adultos de 30 e tais 40 anos e são pessoas que toda a vida foram independentes dentro das suas capacidades, e tinham rotinas (…) e ao estarem na Casa do Povo impede que eles façam isso. Eles não valorizam por estarem aqui (…) eles acham que vêm para aqui para nos fazerem um favor (…) ” (T1).
Alguns utentes consideram que estão a fazer um favor aos técnicos por estarem na Casa do Povo e que deveriam receber algum numerário em troca, ou seja, não têm consciência das suas reais necessidades. Os técnicos T2 e T3 já demonstram uma opinião diferente, pois consideram que a maioria adaptou bem às atividades.
- “Sim, na sua maioria sim, tivemos um caso ou dois de pessoas que vieram,
experimentar e não conseguiram adaptar-se e acabaram por não continuar (…) A adaptação fazemos com tempo, porque também temos de conhecer as pessoas (…)” (T2)
- “Normalmente adaptam-se bem, o maior problema aqui são as famílias, porque as famílias têm muitos receios, muitos medos e muitas vezes os utentes não fazem mais porque as famílias não deixam” (T3)
Para o técnico T3 o maior problema que enfrentam são as famílias, porque têm muitos receios, muitos medos e por isso os familiares estão limitados em participar em todas as atividades propostas. Os técnicos T1 e T3 referem que os utentes demonstram interesse em participar nas atividades do projeto, mas apenas aqueles que são assíduos e as frequentam diariamente, e que têm consciência da importância da Casa do Povo. O técnico T1 afirma que grande parte das famílias incentiva os seus filhos a participarem na Casa do Povo e aqueles que são mais motivados é por terem uma família por trás que lhes consegue dar motivação. Essa motivação provém também da aprendizagem em diversas áreas, como aprender a nadar, jogar andebol e participar em competições, apender a
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visualizar e ler as horas, saber utilizar o dinheiro, entre outras. Outra motivação que leva os utentes a frequentarem a Casa do Povo é o fator sociabilização, pois se tivessem em casa não teriam a oportunidade de interagir na comunidade.
- “Grande parte frequenta, porque a família os incentiva para isso, e neste momento o grupo assíduo é um grupo que tem uma família por trás que lhes consegue dar motivação (…) primeiro preferem que eles estejam aqui do que estejam na rua (…) e depois eles começam (…) ir para a piscina, aprendam a nadar, isso é uma motivação. Jogam andebol…vão competições fora é outra motivação, há alguns que não sabiam ver as horas e agora já sabem, ficam motivados com isso…ou aprender a trabalhar com o dinheiro (…) Portanto cada um tem a sua motivação, mas neste momento, todos têm alguma motivação”. (T1)
5.2.3.2. Relação com os colegas e técnicos
Relativamente à relação com os outros colegas da Casa do Povo constatou-se que todos os entrevistados mencionaram com convicção ser uma boa relação.
- “Ah! É boa … é excecional, eu respeito eles…. Eles respeitam a mim…brincamos, somos uma família…somos como irmãos” (U1)
- “Sim é boa” (U2)
- “Dou…Dou, mas de vez em quando há um engraçadinho” (U3) - “Sim, são simpáticos…” (U4)
- “É tudo bom” (U5) - “Era boa” (U7)
Apesar da ausência de alguns utentes nas atividades, a relação com os técnicos também é considerada muito boa por todos os entrevistados, pois afirmam que toda a equipa os ajuda muito nas suas necessidades. No entanto, relativamente ao trabalho realizado por outras instituições os entrevistados U1 e U5 relataram que foram maltratados, em outras respostas sociais, a nível psicológico, mas também física.
- “…fui para casa dos rapazes em Faro perto do Bom João e estive até aos 18 anos (…) trataram-me super mal e lá na casa dos rapazes também…” (U1)
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“Andei numa casa com outras crianças na praia de mira para os lados de Coimbra…fui lá em pequenino (…) levei muita porrada de um casal que mandavam na instituição…. Não fui bem tratado” (U5)
A informação supramencionada na categoria institucional encontra-se de acordo com o referido por Goffman (1961, citado em Dias, 2011), dado que este indica que as instituições de solidariedade social apoiam as pessoas com deficiência, estabelecendo rotinas e mudanças de hábitos diferenciados, que fora da instituição não teriam (como uma alimentação saudável, hábitos de higiene, gestão do dinheiro, etc.). Para além disso, quando uma pessoa é apoiada numa instituição, a sua presença é fundamental, pois através da interação com outras pessoas há uma troca de conhecimentos e saberes importante. No entanto, os resultados indicam que a maioria dessas pessoas não comparecem às atividades da instituição devido à falta de acesso ao transporte, mas principalmente, por falta de incentivo e interesse.