Tendo sido reconhecida a potencialidade do design de desencadear relações sistêmicas e, com isso, a instauração de modos de vida, busco identificar uma forma distinta de atuação que se construa junto e no fluxo. Neste sentido, outras premissas passam a ser norteadoras do processo de se fazer design.
Concepções de sujeito, objeto, contexto, dentro, fora, público, privado, corpo, mente, mediação, evolução, inevitavelmente sofrem desestabilizações e assim passam a ser reformulados. Considera-se uma teoria em especial como propiciadora destas mudanças nos pontos de vista normalmente aceitos e que dizem respeito a este assunto. A teoria corpomídia, proposta por Katz e Greiner (2005), abrange corpo e comunicação de uma forma muito peculiar, e com isso se mostra como sendo providencial para desencadear questionamentos como os citados, segundo os conteúdos que relaciona e as proposições que faz.
Segundo Katz (2010):
O contexto não é um recipiente povoado por coisas que o transformam; o contexto está sempre mudando porque o conjunto de coisas que o forma também se transforma. As atualizações são contínuas, articulatórias e descentradas, uma vez que o trânsito permanente instabiliza as noções de dentro e fora. Assim, o contexto e tudo que o forma passam a ser lidos como estados transitórios em um fluxo permanente de mudanças (KATZ, 2010, p. 124).
É basicamente este o entendimento de contexto coerente com a iniciativa de se pensar outra forma de propor design. O que se almeja não é desmerecer os designers/decoradores em geral e a forma com que atuam, negligenciar estes manuais que apresentam os estilos e os elementos compatíveis (que, aliás, são importantes registros historiográficos) nem mesmo os resultados de processos deste tipo, que são requisitadíssimos tais como se dão. Está em jogo aqui apenas uma questão de preferência, de escolha. Quando passam a não fazer sentido as diretrizes habituais de condução de trabalhos, há de se buscar alternativas e concepções que as fundamentem.
A noção de contexto apresentada é coerente com a proposta do semioticista Thomas Sebeok, denominada contexto-sensitivo, sendo que, partindo desta, faz-se possível superar a ideia dicotômica entre um “fora”, objetos do mundo, e um “dentro”, sujeito, cuja finalidade é ser preenchido pelo acúmulo das informações provenientes do
“fora”, como se estivessem realmente apartados, e sendo inclusive possível adquiri-las, comprá-las. Essa perspectiva desestabiliza hierarquias e dinamiza as experiências.
O semioticista Thomas Sebeok (1991) salienta a importância do contexto e, diferindo do que habitualmente se pensa, afirma que o “onde” tudo ocorre nunca é passivo. O ambiente no qual uma informação é produzida, transmitida e interpretada, nunca é estático, mas uma espécie de contexto- sensitivo – por isso, as trocas entre corpos e ambientes são possíveis, e o corpo, que está sempre transitando por vários ambientes/contextos, vai trocando informações que tanto o modificam como modificam os ambientes. Evidentemente há uma taxa de preservação que garante a unidade e a sobrevivência de cada ser vivo, nesse processo de cotransformações que nunca estanca entre corpo e ambiente (KATZ, 2010, p. 123).
Este conceito é relevante à teoria corpomídia, proposta por Greiner e Katz (2005), que pressupõe um processo de coevolução ocorrendo entre seres animados e inanimados, que nos faz acreditar que a relação entre os seres existentes no mundo, neste nível de análise, é sempre democrática, na medida em que nenhum pode exercer um nível de influência maior do que outro, todos são determinantes. Vale informar que o “fluxo de transformação inestancável e permanente em curso na vida”, caracterizado como evolução para a autora, “não é direcional e tampouco cumulativo (o que o impede de ser associado à noção de progresso)” (2010).
Sobre a teoria em questão:
O desejo de permanecer leva à necessidade de fazer outro a partir de si mesmo, e só pode se realizar porque no mundo onde vivemos, as informações tendem a operar dentro de um processo permanente de comunicação. As informações encostam-se, umas nas outras, e assim se modificam e também ao meio onde estão. Vale destacar a singularidade desse processo, pois transforma todos os nele envolvidos, seja a própria informação, o corpo onde ela encostou e do qual passou a fazer parte, as outras informações que constituíam o corpo até o momento específico do contato com a nova informação, e também o ambiente onde esse corpo (agora transformado) continua a atuar. E, estando já transformado, tende a se relacionar com a nova coleção de informações que passou a o constituir. Então, também altera o seu relacionamento com o ambiente, transformando-o. Contágios simultâneos em todas as direções, agindo em tempo real (KATZ, 2010).
Tratar do design enquanto fenômeno da comunicação é extremamente coerente, especialmente quando se adota a perspectiva apresentada, de que todo corpo é um corpomídia. Katz (2006) diz que “consegue-se deduzir a natureza do propósito de um objeto a partir de sua organização. Essa organização é o seu design, o modo como as informações tomam forma”, sendo:
(...) que cada corpo é sempre um design da sua própria e exclusiva coleção de informações de cada momento de seu percurso no mundo. Dizendo de outro modo, todo corpo é sempre um corpomídia, uma mídia de si mesmo. Ele é mídia de si mesmo, e não um veículo por onde passam as informações. O corpo não é um meio por onde as informações são expressadas, mas um laboratório permanente de processos que vão desenhando a sua forma a cada situação que se apresenta (KATZ, 2006).
Essa ideia é compatível com o entendimento do design como pensamento sistêmico, como a própria organização e como esta se dá, o que difere do entendimento de design como estratégia de mercado. Isso torna esta teoria e suas fundamentações de suma relevância à proposta em construção neste trabalho.
Vale salientar que o termo corpo nesta teoria não se restringe a corpo humano; refere-se a qualquer corpo existente (objetos inanimados também), todos correlacionados. Isso implica que estamos nos transformando continuamente neste processo de mediação e troca. Não existe uma primazia do ser humano na constituição de contextos, “as relações entre corpo e ambiente se dão por processos co-evolutivos que produzem uma rede de pré-disposições perceptuais, motoras, de aprendizado e emocionais” (GREINER; KATZ, 2005).
Adotada esta condição, torna-se inviável pensar em uma casa como algo pronto, acabado e sem brechas para novas incursões. Um sistema que assim se apresenta, como um sistema fechado, é um sistema morto, uma casa sem vida, na medida em que não se concebem ressignificações.
Pensar em ressignificações é pensar em mudanças, é pensar em movimento. “O movimento, presente como padrão já no embrião, precisa da relação com o espaço para acontecer como movimento, para se atualizar. Ou seja, é o movimento quem favorece a existência da comunicação”, afirma Katz (2010). Quando o meio não o viabiliza, ficam inibidas as possibilidades de ocorrência de experiências, de reformulações, sendo que:
Significado, pensamento e linguagem emergem das dimensões estéticas de atividades corporais e são inseparáveis das imagens, dos padrões de processos sensório-motores e das emoções. (...) No entanto, o corpo está sempre interagindo com os aspectos do ambiente em um processo de troca de experiência. Por isso, o que chamamos de corpo e mente, explica Johnson, são aspectos abstratos do fluxo organismo e ambiente, uma vez que a noção de organismo já envolve corpo e mente inseparavelmente (GREINER, 2010, p. 89-90).
Mark Johnson é um filósofo e cientista cognitivo que, com base nesta ideia de fluxo entre corpo e ambiente, propõe um conceito de mente encarnada, sendo que “para começar a estudar a emergência da ação de significar, é importante reconhecer que mente e corpo não são duas coisas separadas, mas aspectos de um único processo orgânico” (GREINER, 2010, p. 89), uma continuidade.
Em seu livro The body in the mind, o autor trata da questão de “como pode qualquer coisa (um evento, objeto, pessoa, palavra, frase etc.) ser significativa para uma pessoa?” (1992, p. 1), sendo que trata do "significado linguístico" apenas “como um subcaso de significado em seu sentido mais amplo”. E seu argumento será de que:
(...) o movimento corporal humano, a manipulação de objetos e as interações perceptivas envolvem padrões recorrentes, sem o qual a nossa experiência seria caótica e incompreensível. Eu chamo esses padrões de "esquemas de imagens", porque funcionam principalmente como estruturas abstratas de imagens (JOHNSON, 1992, p. XIX).
Podemos inferir, assim, que quando trata neste livro de temas como significado, imaginação, razão, entendimento, o autor em suma está se referindo à experiência, ou seja, ao desenvolvimento cognitivo desencadeado, e potencialmente intensificado, conforme o tipo de relação/interação que temos com o mundo. Quando se refere ao entendimento como possibilidade de “have a world”, podemos traduzir como “estar no mundo” ou mesmo “ter um mundo”, ou seja, a experiência reconhecida de mundo.
Um ponto crucial aqui é que o entendimento não é apenas uma questão de reflexão (...). Em vez disso, o entendimento é a forma de “termos o mundo", a forma como vivemos o nosso mundo como uma realidade compreensível. Tal entendimento, portanto, envolve todo o nosso ser as nossas capacidades físicas e habilidades, nossos valores, nossos humores e atitudes, toda a nossa tradição cultural, a maneira em que estamos ligados a uma comunidade linguística, nossas sensibilidades estéticas, e assim por diante. Em suma, o nosso entendimento é um "estar no mundo". Esta é a forma de estarmos significativamente situados no nosso mundo através de nossas interações corporais, nossas instituições culturais, nossa tradição linguística, e nosso contexto histórico. Nossos mais abstratos atos reflexivos de entendimento (...) são simplesmente uma extensão do nosso entendimento neste sentido mais básico de "ter um mundo" (JOHNSON, 1992, p. 102).
Ao tratar de imaginação, segundo a citação abaixo, também notamos que a reformulação do entendimento comum do termo ocasiona a reformulação de outros entendimentos e dicotomias e o que está em jogo é a questão da experiência.
Além disso, defendo que é importante revitalizar e enriquecer a nossa noção de imaginação, se quisermos superar certos efeitos indesejáveis de um arraigado conjunto de dicotomias que têm dominado a filosofia ocidental (por exemplo, mente / corpo, razão / imaginação, ciência / arte, cognição / emoção, verdade / valor, e assim por diante) e que têm influenciado a nossa compreensão comum. Precisamos explorar o papel da imaginação (no meu sentido adequadamente enriquecido) de significado, compreensão, comunicação e raciocínio. Só desta forma poderemos compreender como é possível para nós "ter um mundo" ao qual podemos dar sentido e razão (JOHNSON, 1992, p. 140).
Pensar num contexto aberto e dinâmico, com o qual se admitem trocas e coevolução, e cujas experiências decorrentes visem gerar desenvolvimento cognitivo é, invariavelmente, admitir outras diretrizes para o trabalho de se fazer design.
As questões apresentadas desestabilizam a hierarquia mente-corpo-ambiente, que passam a se construir simultaneamente, o que reforça a ideia de que o design nunca está pronto, nunca acaba. Por isso faz sentido pensar que, em algum momento, o designer encerra a etapa formal de criação, o produto fica pronto, mas o design nunca se encerra. A cada instante, novas significações surgem, pois estão no mundo e nos processos cognitivos aí engendrados. Além disso, torna-se possível questionar a autoria do design. Se ao encerrar o seu trabalho, o design continua ativando novas relações, a ação de criar design torna-se compartilhada (por quem vive e usa a casa, por exemplo). Neste sentido, é importante assumir as instabilidades e a efemeridade latente como potência de transformação e geração de movimento, e daí tecer redes possíveis, que podem ser refeitas (e serão), o que revitalizará os produtos decorrentes e não os condenará.
A postura de um designer “consciente” deveria ser pensar sistematicamente, sendo supostamente impossível negligenciar tal complexidade ao atuar. É capaz, assim, de subverter, na medida do possível, a lógica de mercado.
Figura 13: Os elementos e os arranjos comumente previstos nem sempre poderão ser aplicados. Hoje, quantas são as pessoas que têm, dentre seus objetos, um piano de cauda (baby grand piano)?
Podemos considerar que a teoria corpomídia dá início a uma série de reformulações interessantes que contribuem para a elaboração de uma nova forma de pensar e fazer design. As consequências são, inclusive, políticas, como coloca Katz (2010), sendo que “a primeira delas pode ser identificada na proposta que tal entendimento de corpo traz: o corpo não é, o corpo está. Não se trata de uma substituição meramente retórica de verbos. A troca do verbo ser pelo verbo estar instaura a transitividade no lugar anteriormente ocupado pela noção de identidade”.
Adotar o fluxo e a instabilidade como premissas básicas do processo de trabalho pode parecer problemático para alguns, devido à necessidade de revisão de metodologias que esta postura acarreta. Pode, porém, para outros representar uma motivação especial, quando abandonadas algumas convenções e convicções, revistas as condições, reconsideradas as finalidades.
Na medida em que “o que está fora adentra e as noções de dentro e fora deixam de designar espaços não conectos para identificar situações geográficas propícias ao intercâmbio de informação”, e sendo que “as informações do meio se instalam no corpo; o corpo, alterado por elas, continua a se relacionar com o meio, mas agora de outra maneira, o que o leva a propor novas formas de troca”, ou seja, “meio e corpo se ajustam permanentemente num fluxo inestancável de transformações e mudanças” (KATZ & GREINER, 2001, citado por KATZ, 2010), a dicotomia público-privado passa a ser enfraquecida. Os processos referem-se tanto à casa quanto ao corpo, aos vários corpos.
Quanto à desestabilização da dicotomia corpo-mente, a concepção de contexto de Sebeok (1991) explicita:
O cenário em que qualquer mensagem é emitida, transmitida, e admitida sempre influencia decisivamente a sua interpretação, e vice-versa: o contexto de transação ele mesmo continuamente sofre modificações por parte das mensagens que estão sendo interpretadas. As mensagens são, em resumo, contexto-sensitivo. Isso é muito bem reconhecido, mas justamente como um organismo leva em conta o ambiente ainda não está claro. O movimento do "contexto" tem sido empregado de forma diferente por vários investigadores, mas, de modo geral, o termo se refere ao conhecimento do organismo de condições e o modo de utilização adequada e eficaz das mensagens. Contexto inclui toda a gama de sistemas cognitivos do animal (isto é, "mente"), mensagens que circulam em paralelo, bem como a memória de mensagens anteriores que tenham sido processadas ou experimentadas e, sem dúvida, a antecipação de futuras mensagens que deverão ser postas em jogo (SEBEOK, 1991, p. 29).
Para levar esta discussão adiante, parece-me apropriado apresentar a hipótese da mente distendida, proposta por Andy Clark:
A importante moral da história para nossos propósitos é que, nesses casos, os aparatos da cognição se adaptam sozinhos para melhor prosperar no nicho proporcionado pelos cérebros humanos. A complementaridade entre o cérebro biológico e seus artefatos, apoios e suportes é então imposta por forças co-evolutivas que unem usuários e artefatos em um círculo virtuoso de mútua modulação (CLARK apud MOLINA, 2007, p. 68).
Clark (2011) afirma que as operações reais de cognição humana incluem emaranhados inextrincáveis de relações que promiscuamente cruzam as fronteiras do cérebro, do corpo e do mundo, e é justamente na construção de nosso mundo físico e social que vamos construindo nossas mentes e nossas capacidades de pensamento e razão (que é o que, supomos, caracteriza a experiência). A este entendimento o autor dá o nome de extended mind, traduzido aqui como mente distendida10.
Neste sentido, o contexto no qual estamos imersos e os elementos que o constituem não apenas dão pistas de quem somos, são o que somos. Aprendizagem, pensamento e sentimento são características humanas que se estruturam em nosso corpo conforme se dão as interações deste com o mundo, configurando a matriz em que memória, emoção, linguagem e todos os demais aspectos da vida se constituem (CLARK, 2011).
A perspectiva deste autor vai de encontro ao questionamento proposto, de que não somos agentes fechados, ou seja, dotados de habilidades já fixadas e aptos, assim, a servir somente de suporte para as tecnologias (como aquele alguém que contrata os serviços de um decorador cuja metodologia seja tradicional, e que não possibilite problematizações), propondo, ao contrário, que somos essencialmente abertos e passíveis de reestruturações profundas, somos “negociáveis”, nos construindo fundamentalmente na relação com o meio. Isso já derruba outra dicotomia, a da natureza versus a cultura.
10
Embora a tradução do termo “extended mind” em português fosse “mente estendida”, as autoras Katz e Greiner sugerem usar a versão “mente distendida” para deixar clara a diferença com a proposta anterior de Marshall McLuhan que via os meios de comunicação como extensões do homem. Em Clark, mais do que uma extensão, trata-se de uma distensão que inclui os objetos na noção de mente.
Estes processos de modulação são de ordem cognitiva e se dão na mediação, logo, são imprevisíveis, caracterizando-nos como agentes cognitivamente permeáveis, inacabados, instáveis, precários, portanto, potentes. Quando admitimos isso, teoricamente estabelecemos outra consideração com relação às coisas (e pessoas) com as quais interagimos, relação que vá além da de usufruto, que passa a ser de coevolução, pondo em xeque a postura de superioridade humana. Isso pode mudar a relação sujeito- objeto normalmente existente, portanto.
Como resultado, a suposição é de que, na medida em que se intensificam estes fluxos, conforme a qualidade das relações entre nós e os objetos do mundo, a mente se expande, partindo do entendimento de mente do autor. A cognição está em jogo e, na medida em que a mente avança, amplia-se. A partir disso, podemos inferir que ocorre seu desenvolvimento.
Clark (2011) acredita que a característica da mente de sistemas complexos, humanos, e que classifica como naturalmente ciborgues, está sempre a explorar e testar possibilidades de incorporação de novos recursos e regimes de resolução de problemas, e para tanto promiscuamente cruza fronteiras entre o corpo e o mundo. Neste sentido, ocorre que se dão outra finalidade e diretrizes para o design, que redefine-se na intenção de servir efetivamente para a promoção de desenvolvimento cognitivo, ao estreitar os laços entre nós e os objetos.
Ao adotarmos um conceito de mente dessa característica, que continuamente renegocia seus próprios limites, componentes, armazenamento de dados e interface (CLARK, 2011), embora seja um “orgão” encarnado de controle, passamos a entender o corpo não mais como sendo um mero decodificador de problemas a serem solucionados, que são informados a um “motor interior da razão”, esta sim desencarnada.
Em vez disso, muito do nosso desempenho bem sucedido depende da constante e sutil troca entre a morfologia, a ação do mundo real e as oportunidades e estratégias de controle neural. Mas este corpo capaz é constantemente negociável, momento a momento construído a partir do fluxo da ação desejada e resultando estimulação sensorial (CLARK, 2011, p. 42- 43).
Clark (2011) lembra John Haugeland, ao afirmar que se quisermos compreender a mente como o locus da inteligência, não podemos seguir Descartes em considerá-la um princípio separável do corpo e do mundo. Assim, a mente nunca deveria ser considerada como algo essencialmente interior, situado no cérebro e no sistema nervoso central, como notamos ocorrer no senso comum, e que origina um modelo denominado pelo autor de “brainbound”.
Segundo esta perspectiva, o corpo neuronal corresponde ao sensor e efetor do cérebro e o resto do mundo é a arena onde se dão problemas adaptativos, e onde o sistema corpo-mente age. O corpo em si seria só o instrumento onde estímulos são capturados e ações são geradas com esta intenção. Neste modelo, toda a cognição humana de fato ocorre no cérebro (CLARK, 2011).
Outro autor que tem discutido reiteradamente a relação entre corpo e cérebro e a constituição da mente é António Damásio. Ao trabalhar com conceitos de imagens cerebrais (não só visuais, mas sons, texturas, cheiros, sabores, dores e prazeres são imagens cerebrais), padrões que são mapeados incessantemente e de forma dinâmica, Damásio sugere que “o processo de mente é um fluxo contínuo de imagens” (2010, p. 98).
Trazer a concepção deste autor e relacioná-la à de Clark não tem como objetivo sugerir que está equivocada nem menosprezar este entendimento de alguma forma, sendo que este, aliás, é muito coerente e válido. A intenção é, com a relação estabelecida, identificar o quão radical é a proposição de Clark no sentido de conotar a mente como algo extra-organismo, que abrange não só o corpo como o ambiente, logo os elementos que o compõem.
Prosseguindo nesta relação, Damásio diz que “as imagens nas nossas mentes são os mapas instantâneos do cérebro para tudo e mais alguma coisa, dentro do corpo e à sua volta, tanto concreto como abstrato, do presente ou daquilo que foi anteriormente gravado na memória” (p. 97), e “concluindo, as imagens baseiam-se em alterações que ocorrem no corpo e no cérebro durante a interação física entre um objeto e o corpo” (op.cit., p. 99). Com isso percebemos que o autor de fato coloca a mente junto ao corpo, no cérebro, mas que esta prossegue de certa forma apartada do corpo, mais um dos