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O processo de inundação ocorre quando as águas dos rios, riachos, galerias pluviais saem do leito de escoamento devido à falta de capacidade de transporte de um destes sistemas e ocupam áreas onde a população utiliza para moradia, transporte, recreação, comércio, indústria e outros. Estes eventos podem ocorrer devido ao comportamento natural dos rios ou ampliados pelo efeito da alteração produzida pelo homem na urbanização pela impermeabilização das superfícies e a canalização dos rios. Na medida em que a população impermeabiliza o solo e acelera o escoamento através de condutos e canais, a quantidade de água que chega ao mesmo tempo no sistema de drenagem aumenta produzindo inundações mais freqüentes do que as que existiam quando a superfície era permeável e o escoamento se dava pelas ravinas naturais. Os impactos no meio urbano resultantes da inundação dependem

do grau de ocupação da várzea pela população (inundações ribeirinhas) e da impermeabilização e canalização da rede de drenagem (drenagem urbana). As inundações ribeirinhas têm sido registradas junto com a história do desenvolvimento urbano. As inundações devido à urbanização têm sido mais freqüentes neste século, com o aumento significativo da população nas cidades e a tendência dos engenheiros atuais de fazerem projetos com uma visão pontual do problema, ou seja, drenarem o escoamento pluvial o mais rápido possível das áreas urbanizadas (Tucci, 2003). A Figura 3.1 apresenta o conjunto dos processos que se origina no uso do solo e culminando com o aumento do escoamento na drenagem.

Tabela 3.1 - Comparação dos aspectos da água no meio urbano

Infra-estrutura

urbana Países desenvolvidos Brasil

Abastecimento de água

Resolvido, cobertura total Grande parte atendida, tendência de redução da disponibilidade devido à contaminação, grande quantidade de perdas na rede

Saneamento Grande cobertura na

coleta e tratamento dos efluentes

Falta de rede e estações de tratamento; as que existem não conseguem coletar esgoto como projetado

Drenagem Urbana Controlados os aspectos

quantitativos; Desenvolvimento de investimentos para controle dos aspectos de qualidade da água

Grandes inundações devido à urbanização;

Controle que agrava as inundações através de canalização

Aspectos de qualidade da água nem mesmo foram identificados

Inundações Ribeirinhas

Medidas de controle não- estruturais como seguro e zoneamento de inundação

Grandes prejuízos por falta de política de controle

Figura 3.1 – Processo de impacto da drenagem urbana (Sudersha, 2002). Adaptado 3.2.1 Inundações de áreas ribeirinhas

As inundações podem ocorrer em áreas ribeirinhas, onde os rios geralmente possuem dois leitos: o leito menor onde a água escoa na maioria do tempo e o leito maior que é inundado em média a cada dois anos. Este tipo de evento ocorre, normalmente, em bacias grandes (maior do que 500 km2), sendo decorrência do processo natural do ciclo hidrológico.

Os problemas resultantes da inundação dependem do grau de ocupação da várzea pela população e da freqüência com a qual ocorrem as inundações (Tucci, 2003). A ocupação de áreas de riscos de inundação provoca impactos sociais relevantes. Esta ocupação se dá principalmente pela falta de uma política pública, pois as áreas hoje desocupadas devido a inundações sofrem pressões para serem ocupadas. Isto pode ser evitado através do planejamento do uso do solo, regulamentada no Plano Diretor Urbano das cidades. Os principais impactos sobre a população são:

1. Prejuízos de perdas materiais e humanas;

2. Interrupção da atividade econômica das áreas atingidas, gerando ônus para a região; 3. Contaminação por doenças de veiculação hídrica como leptospirose, cólera, entre outros;

O que se observa normalmente é a forma como é tratada esta questão, pois o gerenciamento atual não incentiva a prevenção destes problemas, uma vez que quando ocorre a inundação o município declara estado de calamidade pública e recebe recursos a fundo perdido, isto é, não necessitando realizar concorrência pública para gastar o recurso. Outra questão importante é uma falta de conscientização por parte da população, já que a maioria das soluções sustentáveis passa por medidas não-estruturais que envolvem restrições à população, e acaba optando por medidas estruturais aumentando o custo da obra e, em alguns casos, transferindo o problema para jusante. Para buscar modificar este cenário é necessário um programa a nível estadual voltado à educação da população, além de atuação junto aos bancos que financiam obras em áreas de risco.

3.2.2 Inundações devido à urbanização

O processo de urbanização das grandes cidades tem provocado impactos significativos para a população e para o meio ambiente. Este desenvolvimento se deu de forma desordenada, o que desencadeou um aumento significativo na freqüência e nos níveis das inundações, refletindo na qualidade de vida da população e nos prejuízos associados a estes eventos. De fato, com o desenvolvimento urbano, as alterações hidrológicas correspondentes são inevitavelmente observadas: aumento considerável nos volumes escoados e alterações nos hidrogramas de cheias, principalmente devido ao crescimento de áreas impermeáveis. A filosofia de escoar a água precipitada o mais rápido possível da área em questão através de canalização, apenas transfere o problema para jusante afetando outra parte da população. O volume que escoava lentamente através da superfície do solo e que era retido pela vegetação ou tinha sua velocidade reduzida pela própria rugosidade do solo, com a urbanização passa a escoar no canal, exigindo maior capacidade de escoamento das seções, gerando um maior custo de manutenção para redução dos picos de vazão. A Figura 3.2 representa o efeito sobre as variáveis do ciclo hidrológico devido à urbanização.

Diversas causas podem estar associadas ao processo de urbanização. A Tabela 3.2 apresenta algumas destas causas e seus impactos.

Figura 3.2 – Características do balanço hídrico numa bacia urbana (Tucci e Bertoni, 2003). Adaptado

Tabela 3.2 – Causas e impactos da urbanização sobre as cheias dos rios urbanos

CAUSAS IMPACTOS

Impermeabilização - Maiores picos de cheia e vazões em rios

Redes de drenagem - Maiores picos de cheia a jusante

Lixo - Degradação da qualidade da água

- Entupimento de bueiros e galerias pluviais Redes de esgotos sanitários deficientes - Degradação da qualidade da água

- Doenças de veiculação hídrica Desmatamento e desenvolvimento

indisciplinado - Maiores picos de cheia e volumes escoados- Maior erosão

- Assoreamento em canais e galerias

Ocupação de várzeas - Maiores prejuízos ao patrimônio por enchentes

- Maiores picos de cheias

- Maiores custos de utilidades públicas Fonte: Bollmann (2004)