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Seguiremos na tarefa de reconstruir o lugar social onde irrompe o relato historiográfico de Jean de Léry, desta feita nos concentraremos na França das guerras de religião.302 A Reforma Protestante na França do século XVI foi marcada por ações de grande intolerância e violência sanguinária que produziram como lamentável implicação a morte de milhares de huguenotes. A grande questão que surgiu juntamente com o protestantismo foi, conforme observa Delumeau, se “seria possível ser de uma religião diferente da do príncipe e assim mesmo conservar a plenitude dos direitos de cidadão? O debate em torno dessa questão

301 Alexandre Dumas, Os Três Mosqueteiros, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2010, p. 534.

302 Vd. Arlette Jouanna, Jacqueline Boucher, Dominique Biloghi, Guy le Thiec, Histoire et Dictionnaire des

Guerres de Religion, Turin, Robert Laffont, 1998; André Stegmann, Édits des Guerres de Religion, Paris,

Librairie Philosophique J. Vrin, 1979; Odon Vallet, Petit Lexique des Guerres de Religion: d‟hier et d‟aujoud‟hui, Paris, Albin Michel, 2004; Jules Michilet, Histoire de France: Guerres de Religion, Sainte-

114 provocou na Europa ocidental, e principalmente na França, as guerras religiosas do século XVI e da primeira metade do XVII”.303

Durante o reinado (1515-1547) de Francisco I (1494-1547) o sentimento de possível tolerância religiosa poderia soar razoável devido ao seu interesse pelo Humanismo da Renascença. Dentre suas principais ações que expressam este interesse, encontramos o incentivo aos estudos de textos clássicos, eleitos com esta nomenclatura pelos renascentistas; além da instituição da função do impressor real outorgando-lhe a responsabilidade da impressão destes textos clássicos, até mesmo a Bíblia encontrava-se incluída na agenda de produção das obras; e, por fim, a criação de uma classe de professores reais em Paris que seriam responsáveis pela promoção dos novos conhecimentos. Por implicação natural, estas ações de Francisco I acabaram por construir em certa medida o contexto propício para o surgimento das mentalidades reformadas na França do século XVI.

Devemos considerar que Francisco I não possuía motivações suficientemente concretas para apoiar a Reforma Protestante, porque o governante francês detinha o poder sobre a igreja da França para a nomeação de bispos e a coleta de dízimos. Poder político e fonte de renda faziam dirimir qualquer possível desejo da coroa francesa por algum tipo de mudança na estrutura religiosa do país. Contudo, nem sempre Francisco I pensou desta forma, pois a transitoriedade política de suas ações marcaram suas decisões pela pura e simples conveniência dos seus próprios objetivos segundo lhe parecesse mais adequado. Apoiou os príncipes protestantes alemães contra Carlos V e convidou um dos principais reformadores alemães para um colóquio teológico em Paris.304 No entanto, tais ações ocorreram ao mesmo tempo em que o rei francês executava huguenotes na fogueira.305

Pontuamos como aspecto fundamental, na construção estrutural das matrizes influenciadoras da reforma francesa, o surgimento de um movimento proeminente que nasce na França deste período, conhecido como o círculo de Meaux, que surgiu por influência do bispo Guillaume Briçonnet (1470-1534).306 Dentre suas principais ênfases estava uma piedade influenciada pelos escritos de Lutero e, pela leitura e pregação da Bíblia. Briçonnet chamou para auxiliá-lo em sua empreitada o humanista Jacques Lefèvre d‟Etaples (1450-

303 Jean Delumeau, De Religiões e de Homens, São Paulo, Loyola, 2000, p. 104.

304 Jules Michilet, Histoire de France: Réforme, Sainte-Marguerite sur Mer, Équateurs, 2008, p. 103-104. 305 Martin N. Dreher, A Crise e a Renovação da Igreja no Período da Reforma, Coleção História da Igreja, vol.

3, 4.ª ed., São Leopoldo-RS, Sinodal, 1996, p. 109.

115 1536), contribuindo os seus escritos como um modelo para a interpretação bíblica na França. Outra influência marcante esteve na pessoa da irmã do rei Francisco I, Margarida de Angoulême (1492-1549), uma humanista de convicção com grande capacidade intelectual e certa inclinação pela Reforma Protestante. Outro personagem importante para a Reforma Protestante do século XVI na França e mais tarde em Genebra que se associou ao círculo foi Guillaume Farel (1489-1565). Aquele Briçonnet inclinado à Reforma Protestante seguiu a direção oposta quando o Parlamento de Paris em 1525, apontou o círculo de Meaux como herético, chegando até mesmo a renegar as obras de Lutero que outrora tanto lhe influenciaram. Muito provavelmente o círculo de Meaux foi tomado pelo medo da fogueira, já que neste período alguns pregadores influenciados pela Reforma haviam sido condenados como hereges e queimados neste mesmo ano de 1525.307 “Com exceção de Farel, os reformadores de Meaux não tinham a mesma índole de Calvino. Sua real preocupação dirigia-se a uma renovação e revitalização da autoridade episcopal, não à reforma da Igreja”.308

A oscilação constante de Francisco I continuou, ora perseguidor dos reformados, ora aparentemente moderado e condescendente com a Reforma quando era do seu interesse alianças e acordos políticos com os príncipes alemães. O próprio Philipp Melanchthon (1497- 1560) chegou a ser convidado a visitar Paris para debater sobre a unidade da igreja, no entanto, homens como Calvino e Farel precisaram deixar a França por causa das perseguições sofridas. Devemos considerar que a realidade do contexto político da França quando da chegada do movimento reformador diferia em muito daquele que se apresenta na Alemanha de Lutero ou na Genebra de Calvino, no entanto, quando observamos a França deste período percebemos ser a sua realidade traduzida em violenta e frequente perseguição aos protestantes reformados. Outro fator de preponderância que influenciou marcadamente as relações de intolerância na França, diz respeito à centralização da imprensa nas cidades de Paris e Lyon; enquanto na Alemanha e em Genebra a descentralização do poder midiático possibilitou o desenvolvimento da liberdade de expressão em várias localidades traduzindo-se neste período em liberdade de expressão religiosa, mesmo que com suas relações políticas inevitáveis pendessem para o sentido oposto.

307 Cp. Jules Michilet, Histoire de France: Réforme, Sainte-Marguerite sur Mer, Équateurs, 2008, p. 258-259. 308 Carter Lindberg, As Reformas na Europa, São Leopoldo, Sinodal, 2001, p. 331.

116 Um fator de central importância para explicar a intolerância, a categorização dos protestantes franceses como hereges309 e a sua consequente perseguição e morte foi a estrutura do pensamento religioso constituído a partir da doutrina da justificação somente pela fé. Deste modo o reformado defendia que somente Jesus Cristo é mediador entre ele e Deus, desprezando teses centrais do catolicismo medieval como a dependência na intercessão da Virgem Maria e dos Santos como meios de aproximação a Deus. Tal afastamento por parte dos protestantes desembocou em um desprezo pela missa e pela eucaristia segundo o modelo católico romano, implicando em um afastamento da própria igreja que se caracterizava como uma desestabilização social para os governantes e para os interesses políticos do catolicismo vigente. Esta postura dos reformadores em reprovar a missa acabava por atingir o cerne da religiosidade do medievo provocando uma ruptura das estruturas sociais vigentes, dirimindo o poder de influência do catolicismo, gerando a sua imediata reação, atacando os reformados ao classificá-los como hereges e exigindo a sua condenação à morte para exterminar àqueles que estavam abalando a organização da sociedade.

A heresia se constituía no período, em qualquer ação que contrariasse os interesses do catolicismo, portanto, era apresentada como uma doença social cujo único remédio aplicável era a extirpação do herege deste corpo social. A partir do pontificado do papa Gelásio I (420- 496) a Igreja Católica passou a defender com vigor o conceito dos dois poderes que governam o mundo: um espiritual e o outro temporal.310 O poder temporal estava centralizado no imperador e o espiritual nas mãos do papa. Em ambos sua fonte estava em Deus, e, portanto, desobedecer tais poderes era o mesmo que desobedecer ao próprio Deus e arcar com as consequências da infidelidade, contudo, o poder espiritual era superior, se aquele poderia matar o corpo, este poderia matar a alma, pois, mediava a salvação eterna ao temporal. Esta teoria ganhou corpo e influência na Idade Média e estava em pleno vigor no período da Reforma Protestante. Deste modo, o herege era um marginal social, alguém que não somente

309“A „heresia‟ era definida em termos de desafios à autoridade da igreja, da perspectiva daqueles que estavam

sendo desafiados. Assim, um relato puramente histórico do conceito de heresia na Idade Média deve definir a ortodoxia em termos de ensinamentos papais e a heresia em termos de dissensão desses ensinamentos. A heresia se tornou, cada vez mais, um conceito jurídico. Enquanto o período patrístico via a heresia como um desvio da fé católica, os juristas dos séculos 12 e 13 conseguiram redefinir o conceito em termos de rejeição da autoridade eclesiástica, especialmente da autoridade papal. De acordo com a argumentação de Robert Moore, a ampliação da categoria de heresia constituiu um instrumento importante de controle social. A redefinição medieval da heresia situa o cerne da mesma no questionamento do poder papal e não no desvio da ortodoxia cristã. A heresia tornou-se o meio pelo qual a sociedade classificava as tensões endêmicas sob uma categoria conceitualmente religiosa. Deixou de ser um conceito teológico e passou a ser definido legal ou sociologicamente”. Alister McGrath, Origens Intelectuais da Reforma, São Paulo, Cultura Cristã, 2007, p. 41.

310 Richard P. McBrien, Os Papas: os pontífices: de São Pedro a João Paulo II, 2.a ed., São Paulo, Loyola, 2004,

117 vivia como um contraventor da lei, mas, acima de tudo, era alguém que se portava contra o próprio Deus, segundo o catolicismo. Portanto, a execução dos hereges se constituía em um elemento litúrgico e ritualmente simbólico com o objetivo de apagar completamente a memória do herege na face da terra com um efeito didático para aqueles que possivelmente viessem a ter qualquer interesse por movimentos contrários à Igreja Católica. O objetivo era frear o progresso constante do crescimento numérico dos huguenotes na França, no entanto, a perseguição e a morte da fogueira produziram o contrário, pois, os huguenotes iam à morte com uma convicção inabalada, e acabaram se tornando os verdadeiros mártires da Reforma Protestante na França do século XVI.311 Conclui Lindberg:

As execuções, então, acabaram se tornando um teatro de martírio no sentido original da palavra “mártir”, ou seja, “testemunha”. As execuções reforçaram a convicção dos huguenotes de que sua fé representava um retorno à fé da Igreja primitiva, quando surgiu o ditado de que “o sangue dos mártires é a semente da Igreja”. Uma “morte boa” como essa dava testemunho de uma fé genuína e, consequentemente, impressionava pelo menos alguns dos espectadores. Em seu sofrimento, os mártires calvinistas buscaram coragem e legitimação em modelos veterotestamentários de um povo eleito e perseguido.312

Também devemos ressaltar a importância da influência exercida por Calvino na França, mesmo residindo em Genebra.313 O protestantismo francês necessitava de apoio e sustentação que lhes foram concedidos pela Igreja Reformada de Genebra. Por solicitação de famílias nobres francesas, Calvino enviou pastores reformados para dar assistência aos seus conterrâneos ávidos pela pregação bíblica exposta pelos reformados. As perseguições se intensificaram sob o reinado (1547-1559) de Henrique II (1519-1559) que não possuía qualquer apreço pelo Humanismo Renascentista e tão pouco necessidade em estabelecer alianças políticas com os protestantes alemães, consequentemente, implicando em uma intolerante perseguição mais dura do que a que fora realizada sob o reinado de seu pai Francisco I.314 Henrique II “publicou editos decretando duras punições para práticas heréticas como comer carne durante a quaresma e participar de reuniões não autorizadas. Também instituiu um tribunal especial para casos de heresia, denominado, de modo apropriado, de la

311 John H. Leith, A Tradição Reformada: uma maneira de ser a comunidade cristã, São Paulo, Pendão Real,

1996, p. 299.

312 Carter Lindberg, As Reformas na Europa, São Leopoldo, Sinodal, 2001, p. 334-335.

313 Pierre Courthial, A Idade de Ouro do Calvinismo na França: 1533-1633 in W. Stanford Reid, Calvino e sua

Influência no Mundo Ocidental, São Paulo, Casa Editora Presbiteriana, 1990, p. 87-109; Jules Michilet, Histoire de France: Guerres de Religion, Sainte-Marguerite sur Mer, Équateurs, 2008, p. 78-89.

314 Jules Michilet, Histoire de France: Guerres de Religion, Sainte-Marguerite sur Mer, Équateurs, 2008, p. 116-

118 chambre ardente, a câmara ardente”.315 Tal câmara, criada em 1549 no Parlamento de Paris,

com a função de investigar as heresias, possuía as seguintes determinações: “os delatores ganhavam um terço dos bens dos hereges (estímulo para a calúnia); era proibido vender ou possuir livros heréticos (estímulo para a intolerância); todo herege era passível de pena capital (estímulo para a crueldade); e, finalmente, devia haver uma seleção dos juízes, arma indispensável para o arsenal da tirania”.316

O clero da Igreja Católica alegava que sua autoridade estava sendo usurpada, não como dissentimento, por causa do modo atroz com o qual os protestantes eram tratados, mas porque sua soberania fora atingida. As penas aplicadas aos acusados de promover a heresia reformada eram intensamente tirânicas e cruéis, chegando até mesmo a arrastá-los pelas ruas e esquartejá-los ainda em vida.317 Desta feita, uma prática que frequentemente ocorria, dizia respeito aos pastores genebrinos quando eram enviados à França como missionários, estes assinavam documentos que transferiam suas propriedades para suas famílias, porque, certamente ao entrarem naquele país para a atividade da pregação reformada não retornariam com vida.318 O contexto de dura perseguição fora aplacado quando da repentina morte de Henrique II que morreu devido a ferimentos gerados durante um combate em um torneio de cavaleiros.

As ideias calvinistas atingiram diversas camadas da estrutura social francesa no século XVI, tanto representantes de classes mais abastadas financeiramente, como artesãos, comerciantes e banqueiros, quanto pessoas de classes sociais mais limitadas economicamente.319 Em grande medida esta ampla influência esteve associada à prática da ética calvinista que enfatizava os conceitos de vocação e uso social das riquezas, e também ao modelo de pregação simples e acessível, bem como ao padrão do modo de culto reformado, especialmente no que concerne à metrificação dos Salmos para o francês que possibilitava a

315 Carter Lindberg, As Reformas na Europa, São Leopoldo, Sinodal, 2001, p. 336.

316 André Maurois, História da França, São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1950, p. 151. 317 Carter Lindberg, As Reformas na Europa, São Leopoldo, Sinodal, 2001, p. 337.

318“Em 1567, Genebra tinha enviado pelo menos 120 pastores à França para organizer congregações, que, por

causa da perseguição, geralmente viviam uma existência clandestina. Não obstante isso, a Igreja Reformada espalhou-se rapidamente por toda a França. Uma das chaves de seu sucesso foi o gênio organizacional que ela tomou de empréstimo à Igreja genebrina de Calvino. O primeiro sínodo nacional da Igreja Reformada da França reuniu-se em Paris em 1559. Ele apresentou uma confissão de fé, a Confissão Galicana, cujo primeiro rascunho foi escrito por Calvino”. Carter Lindberg, As Reformas na Europa, São Leopoldo, Sinodal, 2001, p. 337.

319 André Biéler, O Pensamento Econômico e Social de Calvino, São Paulo, Casa Editora Presbiteriana, 1990, p.

119 participação de todos os membros da Igreja Reformada no canto congregacional.320 Contudo, a própria prática do cantar os Salmos metrificados se constituiu em um elemento amalgamador estruturante, que produziu uma identidade resistente perpassando a todo o protestantismo francês, gerando unidade e ímpeto diante das perseguições sofridas durante este período de guerras de religião. Os Salmos metrificados foram cantados durante as lutas e até mesmo quando eram queimados vivos na fogueira muitos entoavam estes mesmos Salmos como uma afirmação de sua vívida fé e esperança futura. Tal ato se tornou tão deveras marcante que transtornava os algozes, de modo que as autoridades incomodadas com tamanho testemunho vívido de fé, buscaram impedi-los até mesmo cortando a língua dos condenados à morte.321

Carlos IX subiu ao trono após uma série de divisões ocorridas na coroa francesa, no entanto, o rei possuía apenas dez anos de idade quando veio ao trono, tornando-se sua mãe a regente, contudo, implicando na implementação de um governo que trouxe benefícios para os huguenotes322, mas, por um curto espaço de tempo. No exercício do governo da França, Catarina contou com a assistência do seu chanceler Michel de l‟Hôpital (1507-1573) promovendo uma política de moderação com respeito às questões religiosas de sua época,

320 “Calvino aboliu o coro medieval e enfatizou o canto congregacional. Hoje, é difícil recuperar a vibração do

culto na linguagem do povo, bem como uma nova experiência com o canto congregacional. Como já foi demonstrado, Calvino preferia os salmos. Ao mesmo tempo que traduziu alguns do Saltério de 1539, ele se valia dos grandes talentos poéticos de Clemente Marot e Teodoro Beza. Em 1539, o primeiro Saltério de Calvino continha dezenove salmos. Teodoro Beza completou o Saltério por volta de 1562. Os salmos, postos em rima francesa por Marot e Beza e musicados por Luis Bourgeois e Cláudio Goudimel, tornaram-se um dos livros mais importantes da reforma. Tiveram muitas edições e foram traduzidos para o alemão, holandês, italiano, espanhol, boêmio, polonês, latim, hebraico e ingles. Foram usados também por católicos romanos, luteranos e outros”. John H. Leith, A Tradição Reformada: uma maneira de ser a comunidade cristã, São Paulo, Pendão Real, 1996, p. 299.

321“O cântico dos salmos tornou-se essencial para a piedade calvinista. Os protestantes franceses, ao serem

levados para a prisão ou para a fogueira, cantavam salmos com tanta veemência que foi proibido por lei cantar salmos e aqueles que persistiam tinham sua língua cortada. O salmos 68 era a Marselhesa huguenote”. John H. Leith, A Tradição Reformada: uma maneira de ser a comunidade cristã, São Paulo, Pendão Real, 1996, p. 299.

322 Sobre a origem e significado do nome huguenote, expõe Maurois: “Calvino expôs-lhes uma doutrina tão

francesa quanto a de Lutero era alemã. Filho de um procurador de Noyon, publicou em 1536 A Instituição

Cristã, e nesse mesmo ano foi para Genebra, cidade livre imperial, que tinha adotado a Reforma com suas

confederadas Friburgo e Berna (confederados: eidgenossen, donde derivou a palavra huguenotes)”. André Maurois, História da França, São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1950, p. 152. Já Davis mostra outra origem: “O quanto os protestantes eram vistos como vasos da poluição é sugerido por uma crença popular a respeito da origem do nome “huguenote”. Na cidade de Tours, le roi Huguet era o nome genérico para os fantasmas que, em vez de passar seu tempo no purgatório, voltavam para bater portas, assombrar e magoar as pessoas à noite. Os protestantes saíam à noite para seus lascivos conventículos, e assim os padres e o povo começaram a chamá-los de huguenotes em Tours e depois em outros lugares. Os protestantes eram assim tão sinistros como os espíritos dos mortos, os quais se tentava apaziguar em seus túmulos no Dia de Todos os Santos”. Natalie Zemon Davis, Culturas do Povo: sociedade e cultura no início da França Moderna, 2.a ed., Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1990, p. 133-134.

120 trazendo benefícios aos protestantes.323 Eis as principais medidas que foram tomadas: “suspensão da perseguição; liberdade para Condé e outros prisioneiros huguenotes; permissão para que os nobres huguenotes da corte organizassem seus cultos em separado; e designação de novos tutores católicos, de tendência liberal, para o jovem rei”.324 Um dos pontos mais

elevados do governo regencial de Catarina quanto à discussão religiosa esteve na convocação para um debate teológico público entre protestantes e católicos, chamado de Colóquio de Poissy realizado entre os meses de setembro e outubro de 1561, que fora arquitetado pelo chanceler l‟Hôpital com o intuito de promover a unidade político-social na França.325 O tom

do discurso de abertura do Colóquio que fora pronunciado por l‟Hôpital era o da tolerância religiosa através do diálogo mútuo entre as partes discordantes, no entanto, o primaz da França o cardeal Tournon, apresentou um protesto com veemência, antes mesmo da entrada dos huguenotes no recinto, que contrariava a própria essência do colóquio, argumentando que os hereges deveriam ser julgados e não ouvidos como se estivem no mesmo nível de igualdade dos católicos. Mesmo a despeito do protesto, o rei por influência de sua mãe, ordenou a entrada dos huguenotes, concedendo-lhes o direito à palavra.326

A delegação huguenote era composta por onze ministros vindos de Genebra e vinte leigos que representavam diversas igrejas calvinistas da França. A posição calvinista, no Colóquio, teve como porta-voz Teodore Beza (1519-1605), nascido em uma família nobre da Borgonha e possuidor de uma erudição singular. Devido às próprias perseguições aos huguenotes na França teve que exilar-se por treze anos na Suíça, tornando-se um amigo muito