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Conforme Campos (2005, p.142), a família engloba alguns valores que nortearão a identidade social de seus membros. Assim, entre as classes mais populares, “o valor-trabalho, fundamental na definição da condição de trabalhador e de homem provedor, é encapsulado pelo valor-família, centro irradiador e foco principal na definição da identidade dos membros desse grupo social”. Dessa forma, a condição de chefe do lar ou provedor e de trabalhador é encapsulada pelo valor-família. No entanto, o alcoolismo vai interferir justamente na construção da identidade de provedor e de trabalhador, pois o álcool o impedirá de trabalhar e consequentemente de suster a família. Nesses termos, os papéis sociais de pai, marido e trabalhador ficam comprometidos.

Nos depoimentos dos AAs, é recorrente a referência às perdas de emprego e de bens materiais em função do vício. Alguns admitem que só conseguiram construir um patrimônio

depois que pararam de beber, enquanto outros confessam que perderam tudo por causa da bebida. Em casos graves, as esposas tiveram que arcar com as despesas da família e com as responsabilidades negligenciadas pelo marido. No trecho que segue, o alcoólico declara que perdeu tudo que tinha por tanto beber exageradamente, o que já estava interferindo em seu casamento.

Eu era exagerado demais. Eu sei que essa bebida fez foi acabar com tudo que eu tinha. Alisei total. Tudo que eu ganhei em 20 anos eu gastei só com bebida. Papoquei tudo. Num gastei todo porque ainda sobrou um pouquinho pra eu ajeitar minha casa, mas o resto foi embora. Só em álcool. O álcool me deixou sem nada. Já tava pra me separar da família porque a minha mulher já tava, num tava agüentando. (DEP 18)

Já no excerto abaixo, o depoente esclarece como foi que o álcool aos poucos foi tomando conta de sua vida até o momento em que o emprego deixou de ter importância, pois ele passou a faltá-lo, inclusive nos dias de pagamento, acreditando que se tratava de uma boa desculpa para faltá-lo, uma vez que ninguém questionaria sua ausência justamente no dia de pagamento. O emprego tornou-se, então, um empecilho para beber, visto que as horas gastas no trabalho eram horas perdidas sem álcool.

O meu grande fundo do poço foi quando eu perdi o meu emprego. Porque eu me tornei tão irresponsável que as segundas-feiras já não eram mais o suficiente. E passei a faltar nas terça, nas quarta... no dia do pagamento eu não ia. Porque eu

achava que era uma desculpa muito boa, né? Quer dizer, “não, ele faltou hoje, no dia do pagamento, só pode tá doente”. Mas não era não. É porque eu sabia que dois ou

três dias quando eu chagasse lá o dinheiro tava guardado. E eu tava vivendo isso. E eu me tornei irresponsável a tal ponto que abandonei o emprego. Abandonei, simplesmente não fui mais porque queria beber e o emprego me tomava o tempo. Eu queria beber durante o dia, mas não podia porque o emprego não deixava. (DEP 17)

No depoimento seguinte, a dependência do narrador chegou a tal ponto que ele trabalhava embriagado no setor de segurança privada, armado, correndo o risco de ferir alguém. No entanto, hoje, longe do álcool, considera-se um homem respeitador.

Então eu vou dizer a vocês que eu trabalho, graças a Deus, na área de segurança privada e tem alguns companheiros que trabalhavam comigo ali (...) Trabalhando, meus irmãos, com arma de fogo. Chegava muitas vezes de ressaca mentindo, dizendo que tava passando mal e inventava de comprar às vezes um lanche na hora do almoço eu já tava era atrás de me embriagar. Um dia de domingo, às sete horas da manhã, eu ia tirando a vida de um amigo meu de trabalho, sete horas da manhã, eu totalmente embriagado, né? Aquele camarada apenas brincava com a minha pessoa e eu na minha ignorância ia tirando a vida daquele cidadão. (...) E hoje eu sou um camarada que gosto muito de respeitar as pessoas. (DEP 08)

A situação do alcoólico torna-se tão grave que, em muitos casos, as esposas têm que assumir a posição de chefes do lar, trabalhando sozinhas para suprir as necessidades. Se por um lado isso é favorável, visto que as mulheres ganham independência financeira, por outro é ruim, pois é a custo da negligência dos cônjuges, causada pelo vício. Isso ainda se caracteriza em algo vergonhoso para os homens uma vez que passam a ser sustentados pelas esposas e não conseguem mais cumprir seus papéis sociais, que a sociedade lhes exige. No depoimento abaixo, o orador narra exatamente isso, a esposa que suportou sozinha o peso de suas responsabilidades e das do marido. Entretanto, após controlar o vício, encontra-se com grande desejo de voltar a trabalhar, assumir as funções que lhes são impostas.

Eu quero trabalhar agora. Eu num trabalhava não, gente. Era ela (a esposa) sozinha, a coitada. Sabe quando você pega assim numa bacia só uma pessoa pega dum lado e o outro lado num tem quem pegue, a minha empresa tava assim. Tinha um lado que num tinha quem pegasse, que era, que era, pra estar à frente. Eu pra tomar atitudes, pra determinar, pra ajudá-la a levar as coisas a frente, não, num tinha eu não. (DEP 07)

No próximo depoimento, o orador resume todas as tragédias recorrentes na vida de um bebedor: a falta de emprego e por conseqüência a falta de dinheiro, chegando ao ápice pela demonstração de falta de uma moedinha para contribuir durante as reuniões do grupo, o abandono da família, inclusive de duas esposas, que não suportaram a vida ao lado de um alcoólatra, e os problemas de saúde, em especial a impotência sexual. Ele agradece aos companheiros de AA e à irmandade pela graça de ter podido reconquistar seu espaço na sociedade, reconstruindo sua vida, com um emprego, uma nova família, sem muitos bens materiais, mas com paz e amor. Nesse momento, as duas cenografias se encontram em paralelo novamente, em que a primeira é rejeitada, onde se mostra o habitus do alcoólatra, e é vista como algo que ficou no passado e não deve mais se manifestar na vida do narrador.

Eu queria ter emprego, eu queria ter um trabalho, pelo menos uma moeda pra botar nessa sacola na hora do intervalo, eu não tinha. (...) Eu não tinha roupa. Cheguei sem roupa, cheguei nu, cheguei com roupas emprestadas e hoje o meu guarda-roupa é repleto de boas roupas. Eu cheguei despejado e hoje eu tenho uma casa maravilhosa, que é um verdadeiro lar. (...) Há bem pouco tempo eu perdi a minha condução, a minha bicicleta, mas nem por isso eu deixei de freqüentar a sala de AA. (...) Eu cheguei nesse programa com impotência sexual. Hoje eu tenho um filho lindo, divino, maravilhoso. Eu cheguei aqui abandonado pela primeira esposa, pela segunda. Hoje eu tenho uma mulher que cuida de mim maravilhosamente bem pelo fato de não estar mais bebendo. Hoje talvez eu não tenha uma conta bancária, eu não tenha um carro dentro da minha casa, mas eu tenho todas as riquezas que o homem deseja ter dentro da casa dele. Eu tenho paz, eu tenho harmonia, eu tenho amor, eu tenho Deus no meu coração. (DEP 13)

Mais uma vez, os AAs enfatizam as tragédias durante o passado de alcoolismo, originadas, principalmente, pela perda do emprego, e que terão como sequências a falta de dinheiro e a impossibilidade de prover as necessidades da família. Nesses casos, as esposas, muitas vezes, passam a desempenhar a função de chefes da família, provendo sozinhas o afetivo e o material no lar. Entretanto, esse quadro é modificado com a ingressão do bebedor na irmandade AA, refazendo sua conduta, o que acarreta em um novo estado, de estabilidade, com a reconquista de um trabalho.