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Quando as famílias chegam das periferias das cidades nos acampamentos do MST, para viverem nessa nova comunidade que vai se formando, assumem princípios políticos e filosóficos do Movimento, que exige delas participação em alguma instância de trabalho coletivo, para conviverem organizadas em sociedade, envolvidas pelo trabalho coletivo e nos debates promovidos pela prática da escola de acampamento e assentamento desenvolvida pelo Setor de Educação do MST.

17 “Yo si puedo! É um método de alfabetização de origem cubana, que combina números e letras,

com o objetivo de capacitar os educandos para a leitura, escrita e, sobretudo, para a leitura do mundo. Este método utiliza como principais recursos materiais uma televisão e 65 cassetes [...]. As sessões de alfabetização são orientadas por um monitor, pessoa que de forma voluntária, facilita e acompanha a construção de conhecimentos por parte dos alfabetizandos. http://ese-

educacional.blogspot.com/2009/10/yo-si-puedo-o-método.html. (Educação Social, blog da

São os núcleos de base, com o mínimo de 10 e, máximo de 15 famílias cada um, que escolhem dois representantes para constituir a coordenação e a direção do acampamento. É dos núcleos que saem também os responsáveis das brigadas, dos coletivos, das equipes de segurança, dos setores de educação, saúde, teatro, higiene, moradia, produção, entre outros. A Escola Itinerante tem um papel primordial nessa tarefa de manter a coesão dos acampados, ao trabalhar a formação da consciência das crianças, jovens e adultos acampados, que vivem a realidade da ocupação e o enfrentamento para conquistar a terra de trabalho.

A Escola Itinerante nasce dentro dessa conjuntura de contradição e exclusão social da sociedade brasileira, onde se trava a luta pela reforma agrária e se proporciona a escolarização ao “Sem Terrinha”, contribui na alfabetização de adultos e na criação de lideranças, formando pessoas para que entendam a sociedade e trabalhem coletivamente pela transformação social.

Para o acampamento Maila Sabrina foram pessoas que andavam juntas nos acampamentos de ocupação de terra na região norte do Paraná. Na fazenda Brasileira, se juntaram pessoas que constituíram a Escola Itinerante em outros acampamentos, que não se mantiveram porque as famílias foram despejadas. A discussão sobre a implantação da Escola Itinerante no acampamento Maila Sabrina, segundo Ângela, começou no final de 2003, início de 2004, que acabou se efetivando na constituição da escola em outubro de 2005, quando a Coordenação Regional do MST e do acampamento, discutiram com o Setor de Educação estadual e foi designado o educador Eldilvani Marcelito, para contribuir na organização da Escola Itinerante Caminhos do Saber, em Ortigueira, no PR.

Uma Escola do Campo pública, do trabalho, unitária, de qualidade, laica e universal. No início trabalhei dois anos em Quedas do Iguaçu, essa foi a primeira Escola Itinerante no Paraná. Mas aqui tinha uma demanda muito grande por escola, como já tinha essa experiência vim pra cá discutir com a comunidade essa nova escola. (ELDILVANI MARCELITO).

Para falar sobre essa escola pública, do trabalho, unitária e laica, a qual o pedagogo Eldilvani se refere acima, farei uma longa citação da educadora Machado (1991) de seu livro Politecnia, Escola Unitária e Trabalho.

Ao mesmo tempo em que o capitalismo gera a burguesia, gera também o proletariado. Assim, de forma simultânea à proposta liberal-burguesa surge também uma nova concepção de educação e de unificação escolar. A proposta de escola unitária do trabalho faz parte da concepção socialista de educação e tem por objetivo o desenvolvimento multilateral do indivíduo. Ela se propõe como escola única, porque, sob a hegemonia do proletariado, o socialismo pretende realizar a emancipação geral; e do trabalho, porque é ele que lhe dá o conteúdo da unificação educacional. Este princípio unitário pressupõe, em primeiro lugar, tornar os conhecimentos concretos, vivos e atualizados com o desenvolvimento técnico- científico. Por outro lado, exige a redefinição da relação entre estrutura, conteúdo e métodos numa perspectiva orgânica. Por último, requer que o ensino seja impregnado pelas questões postas pelo quotidiano social. O ensino politécnico é definido como o meio adequado para a operacionalização deste princípio educativo, atendendo às condições apontadas acima. Entendida desta forma, a unificação escolar só é possível à medida que forem eliminadas as condições geradoras da diferenciação e da desigualdade social. Para chegar a esse nível de unificação, seria preciso, porém, uma certa diferenciação: torna-se necessário passar, primeiro, pela escola de classe (proletária) para atingir a uma escola realmente unificada, a escola da sociedade sem classes. (MACHADO, 1991, p. 11).

Foi assim que mais uma Escola do Campo surgiu no debate com a comunidade, criada na perspectiva de ser uma nova instituição de ensino no e do campo, que trabalha na base da sociedade, com as famílias de trabalhadores excluídas, que nunca tiveram direito de se organizar, que vivem na periferia das cidades e ao irem para os acampamentos, começam a adquirir uma visão crítica da sociedade, pela participação na dinâmica do Movimento que move a luta dos acampados pela reforma agrária. Nessa fase da organização do acampamento, as discussões são realizadas com os trabalhadores/as nos núcleos, no sentido de contribuir na formação de sua consciência e na ampliação de seu nível de consciência crítica e política.

Nos acampamentos as famílias orientadas pelos militantes do MST, começam a organizar a nova comunidade, constituem a direção e uma coordenação para dirigir o acampamento sem terra, são constituídos os Setores, os Coletivos, as Equipes com os membros dos núcleos de base. Além da Mística que tem um papel fundamental na ampliação da consciência do sem terra e da sua pertença ao Movimento, contribuindo para consolidar sua auto-estima, sua cultura e nesse processo de humanização iniciado no acampamento, tem de assumir tarefas orientadas pela instância de trabalho na qual atua, participação que se irradia ao acampamento, onde tudo está para ser feito e depende da participação de todos

para que as tarefas sejam realizadas nas frentes de trabalho e de produção no acampamento, na escola, no lar e na organização social, gerando uma nova criança com esperança de construir um mundo democrático, com liberdade e direito para o ser humano e não para o capital.