Tal como os discursos, as imagens têm o real como referente, não sendo a sua mímesis. (…) Imagens, sejam gráficas ou pictóricas, são representações do mundo elaboradas para serem vistas.18
Como principal meio para o entendimento da polissemia das imagens é preciso retomar, desta vez em Hulme, a idéia de símbolo: uma forma que em si mesma pode ser trivial, inculta ou mesmo repulsiva, mas que, no entanto, pela associação feita a ela, é o signo representante de algo maior do que aquilo efetivamente descrito.19 Apesar de termos como símbolo, alegoria e tipo serem, aparentemente, semelhantes, existe uma diferença de significado e uso entre eles: o simbolismo emprega objetos reais em sua ilustração, é uma linguagem pictórica; já a alegoria faz uso de objetos fictícios e personagens imaginários; e, finalmente, o tipo trata de algo ou alguém que prefiguram uma existência maior.
16
DURAND. A imaginação simbólica, p. 34-35.
17
O ritual é força motriz que envolve seus participantes simbolicamente em uma iniciativa comum, chamando atenção, de forma convincente, para os interesses comuns. Desta forma, promove conformidade e evoca satisfação e alegria nesta conformidade. Esta atividade, realizada em coletividade, dá a cada a um a certeza de que não há discordância e traz orgulho e satisfação para a iniciativa em comum. Um modelo simplificado ou uma realidade aparente é criada e os fatos que não se encaixarem no novo modelo são descartados. Conformidade e satisfação com a ordem básica são as palavras-chave; e a expressão do que deve ser acreditado é um efetivo modo psicológico de instaurar convicção e correção de padrões de comportamento futuros. (tradução livre) ENDELMAN. Op. Cit, p. 16 – 17.
18
PESAVENTO. ‘Correntes, campos temáticos e fontes: uma aventura da História’. História & História
O simbolismo na Idade Média foi empregado como forma de divulgar ensinamentos bíblicos para o grande número de iletrados (catequizando-os) e de suplementar os discursos do clero, que considerava tais representações como expressões máximas da verdade. Uma outra aplicação relacionava-se ao confronto com os pagãos no que se referia aos ídolos: os ensinamentos pictóricos não eram signos, de forma alguma, destinados à idolatria, prática que era (e ainda é) rejeitada por cristãos.20 Como explicar a presença do Cristo, de Maria e outras figuras em Santo Apolinário, o Novo e outras igrejas? Debray trata desta questão:
[…] não só não é idólatra aquele que venera os ícones do Cristo, da Virgem, dos anjos e dos santos porque “a homenagem prestada ao ícone chega ao protótipo”, mas que recusar essa homenagem “seria o mesmo que negar a Encarnação do Verbo de Deus21” […] Corpo e imagem, responde a Ortodoxia, constituem um pleonasmo. Tudo acontece ou se recusa em conjunto.22
A Encarnação de Deus espalha o divino pelo mundo e, pelas imagens é possível alcançar a Salvação, isto é, per visibilia ad invisibilia23. Em Cristo, a imagem concentra as suas duas naturezas: é humano porque a matéria encontra-se retratada, e é divino porque existe/significa fora da matéria. Debray ainda aponta:
[…] Matriz primitiva das mediações do Invisível no Visível, a Encarnação funda um engendramento ao infinito de imagens, jamais tautológicas ou redundantes, mas emulativas e iniciativas: a Mãe engendra o Cristo, “imagem de Deus” (expressão aplicada em sentido próprio à segunda pessoa da Trindade); o Cristo engendra a Igreja, imagem do Cristo; a Igreja engendra os ícones, essas imagens que despertam, por seu turno, a imagem interior do Filho de Deus, naquele que elas iluminam.24
19
HULME, F. Edward. ‘Introductory Chapter’. In: The history principles and practice of symbolism in
Christian art. Detroit: Gale Research Company/Book Tower, 1969, p. 1.
20
“Os que modelam ídolos nada são, as suas obras preciosas não lhes trazem nenhum proveito! Elas são as suas testemunhas, elas que nada vêem e nada sabem, para a sua própria vergonha. Quem fabrica um deus e funde um ídolo que de nada lhe pode valer? Certamente, todos os seus devotos ficarão envergonhados, bem como os seus artífices, que não passam de seres humanos. Reúnam-se todos eles e apresentem-se; todos eles se encherão de espanto e vergonha” (Is 44, 9-11).
21
Nota do autor: Ver F. Boespflug e N. Lossky, Nicée II, 787 – 1987. Douze siècles d’images religieuses. Paris, Éditions du Cerf, 1987, p. 8, e a tradução do decreto, p. 33. Debray está comentando as resolução do II Concílio de Nicéia, em 787, sobre a querela das imagens. Cf. DEBRAY, Régis. ‘O gênio do cristianismo’. In:
Vida e morte da imagem: uma história do olhar no Ocidente. Petrópolis, RJ: Vozes, 1993.
22
Idem, ibidem, p. 80-81.
23
Ab re non facimus, si per visibilia invisibilia demonstramus. [Não nos enganaremos se mostrarmos as coisas invisíveis através das visíveis]. Aqui, o Papa Gregório, o Grande faz referência ao fato de as imagens desempenharem um papel crucial na experimentação do sagrado dentro da religião. Apud BURKE, Peter. ‘O sagrado e o sobrenatural’. In: Testemunha ocular: história e imagem. Bauru, SP: EDUSC, 2004, p. 57.
24
A imagem é texto, e lhe dá vida. As Escrituras encontram representações nas paredes da igreja e os fiéis se vêem ali. A imagem é, também, a mediadora entre o observador e o texto. Os diversos olhares que pousam sobre ela poderiam determinar diversos sentidos de interpretação, caso o texto não fosse o código para a leitura das figuras. Entende-se a representação dos Reis Magos porque existe um código de apreensão de sentidos que lhe dá lógica, um discurso que se quer transmitir e perpetuar, baseado na Bíblia, nas tradições orais. No caso de Santo Apolinário, o Novo, os Mártires e as Virgens podem ser vistos como símbolos das virtudes dos bons cristãos, exemplos a serem seguidos, nomeados sob forma de legendas para que possam ser reconhecidos. São imagens similares, repetidas como um eco. A imagem adquire a característica de som, pois é capaz de criar uma atmosfera sedutora, repetitiva, como as virtudes que são vistas ali. Tentativas, acima de tudo, de envolver o espectador, enredá-lo em tramas correspondentes aos valores representados por cada mártir e virgem.