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Nietzsche observa que já se passaram dois mil anos e nenhum novo Deus foi criado, como ressalva nosso epílogo. Essa assertiva é plausível porque, caso um novo Deus tivesse sido criado, poder-se-ia até justificar, na modernidade, o retorno do religioso. Pois implicaria o retorno de um fundamento ético-religioso por intermédio do qual o mundo passaria a ser interpretado (Weltanschauung), e isso não está acontecendo. Depois, um tipo de nova efervescência religiosa daria lugar ao culto do Deus cristão e, consequentemente, aumentaria a fé em um suposto novo Deus, desbancando o poder de uma religião milenar. Logo, instalar-se-ia a guerra entre os deuses. Enfim, esse estado de coisa, possivelmente, revelaria a degeneração da ciência e das técnicas modernas.

A tecnociência revela, em princípio, o contrário: a superação da metafísica pela ciência e tecnociência. Hoje, o ser vivo não é pensado em termos de organismo, mas de código genético. É neste código que se busca encontrar respostas para a ‗salvação‘ do ser vivo, da humanidade, da reprodução. O fundamento metafísico – ―a crença de que um deus dirige os destinos do mundo‖ (HDH, § 25) – deixou de ser parâmetro para avaliar a humanidade, a vida, o comportamento, a ética. Esse foi um dos traços característicos das transformações por que passaram os séculos XIX-XX, cujas últimas consequências ressoam no século XXI. Os avanços tanto na tecnociência quanto na biotecnologia alteraram os parâmetros humanistas.

Nesse contexto, observamos um embaralhamento, uma desconstrução de parâmetros humanistas, como analisa o sociólogo Laymert Garcia dos Santos:

Está acontecendo um embaralhamento, uma desconstrução de parâmetros humanistas. A própria noção de humano não obedece mais aos mesmos parâmetros. As noções com que pensávamos conceitos como o humano, o organismo, a moral, que regravam aquilo que era entendido ontologicamente e epistemologicamente como humano no mundo moderno, não se aplicam mais. (2007)183

Os parâmetros humanistas por que se avaliavam a humanidade foram rompidos após o desaparecimento do fundamento ontológico, após a morte de Deus. Antes, segundo Nietzsche, a essência do juízo consistia na crença de que havia ‗coisas iguais‘, pois ―a crença de todo ser orgânico, desde o princípio, é talvez a de que todo o mundo restante é uno e imutável‖ (HDH, § 18). O pensamento da „causalidade‘ levou o indivíduo a acreditar que ―todas as sensações e ações [fossem] atos do livre-arbítrio‖184. Por conseguinte, foram consideradas isoladas,

desconexas, incondicionadas que surgiam nos indivíduos sem ligação com o que é anterior ou posterior (HDH, § 18).

Disso resultaram dois erros interpretativos do organismo: primeiro, ―a crença na liberdade da vontade foi o erro original de todo ser orgânico, de existência tão antiga quanto as agitações iniciais da lógica‖; segundo, ―a crença em substâncias incondicionadas e coisas semelhantes foi também um erro original e igualmente antigo de tudo o que é orgânico‖ (HDH, § 18), e Nietzsche arremata tais erros, afirmando:

Porém, na medida em que toda a metafísica se ocupou principalmente da substância e da liberdade do querer, podemos designá-la como a ciência que trata dos erros fundamentais do homem, mas como se fossem verdades fundamentais. (HDH, § 18) Com a morte de Deus assiste-se à ruptura dessa metafísica que se ocupava da substancia e da liberdade do querer. Por conseguinte, não há como conceber o retorno do sagrado. Então, como não surgiram novos deuses, as guerras se desencadeiam entre as religiões – as ―novas guerras de religião‖ na terra humana, lutando ―para controlar, com todo rigor, o céu: sistema digital e visualização de telecomunicação, auto-estradas da informação, concentração dos poderes

183 Fonte: Valor Econômico

– Do humanismo ao pós-humano – entrevista com o sociólogo Laymert Garcia dos Santos, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Publicada no dia 17 de junho de 2001.

184 Livre-arbítrio, segundo o Dicionário Eletrônico Houaiss, é possibilidade de decidir, escolher em

capitalístico-midiáticos, em três palavras, cultura, jato e TV” (DERRIDA, 2000, p. 37, grifo do original). Para Derrida, essas guerras de religião ciberespacializadas e ciberespaçadas têm como objetivo a determinação do ‗mundo‘, da ‗história‘, do ‗dia‘ e do ‗presente‘ (ibidem, p. 38).

Tal determinação é estabelecida no cotidiano dos indivíduos. Por meio dos canais de TVs, as coisas ocorrem como controle do dia e do presente. Líderes religiosos de diferentes religiões, a partir da década de 1990, adentraram com vigor nos lares brasileiros. Iniciou-se com a Igreja Universal do Reino de Deus, liderada pelo Pastor Edir Marcedo, atualmente proprietário da Rede Record; a Igreja Católica adquire algumas concessões de canais: Canção Nova, TV Século XXI, Rede Vida, TV Aparecida. Outras religiões ganham visibilidade através de canais de TVs, como: Igreja Internacional da Graça, Igreja Mundial do Poder de Deus. Na TV Gazeta há um programa da Igreja Arca Universal, e a Rede Bandeirantes de Televisão transmite alguns programas religiosos.

A Igreja Católica teve de rever, urgente e politicamente, suas práticas evangelizadoras e maximizá-las, a fim de que os bens religiosos católicos não perdessem o mercado para os evangélicos e pentecostais. Percebemos a guerra de religiões ciberespacializadas, a concorrência na disputa pelo mercado religioso. A Igreja Católica teve que adentrar na era do Marketing. Seria uma das vias pela qual se interromperia o declínio da religião tradicional?

Possivelmente, possamos tomá-la como uma das hipóteses, se considerarmos que um dos primeiros objetivos do marketing é, segundo Sung (2011), detectar os desejos dos consumidores e oferecer esses bens para assim manter a fidelidade dos clientes em relação à empresa ou instituição provedora desses produtos (SUNG, 2011, p. 11). E avalia Sung:

É interessante notar aqui que os defensores do uso do marketing na Igreja Católica acabam copiando ou imitando os seus ―concorrentes‖, as Igrejas Evangélicas e/ou Pentecostais e também a cultura de consumo, que domina a nossa sociedade. O que por si não é um problema, mas merece outras reflexões. (ibidem, p. 11)

O fato revela a tentativa de estancar a perda de fiéis por intermédio do marketing religioso. Os serviços religiosos, para além dos púlpitos, são oferecidos diretamente aos telespectadores, atingindo lares, lojas comerciais, clínicas,

hospitais, até bares. A Canção Nova, emissora carismática da Igreja Católica, disponibiliza um telefone 46991, no valor de R$ 0,31 + impostos, para receber dicas de como viver bem o PHN (Por Hoje Não Pecar). Alguns programas evangélicos acontecem ao longo de toda a noite. A determinação se estabelece por um tipo de ‗igreja eletrônica‘, cujo conceito foi alcunhado às igrejas que, segundo o jornalista Sérgio Capparelli (2005):

Seguem a uma fórmula de atuação que se fundamenta em três pilares: reza, cura e salvação. Normalmente essas ―igrejas‖ têm uma ligação intrincada com a arrecadação financeira e trabalham com a idéia de ―teologia da prosperidade‖, ou seja, quando se tem fé, esta lhe garantirá prosperidade, um bom emprego ou o sucesso de um empreendimento, mas é claro que a fé pressupõe a doação financeira a essas denominações. (CAPPARELLI e SANTOS, 2005, p. 7)

Para Souza (2011), há um debate no interior da instituição católica em torno de duas posturas: uma que analisa positivamente o uso do marketing na ação profética e evangelizadora por não perceber incompatibilidade entre sua missão e estratégicas, fazendo com que a mensagem evangélica chegue aos fiéis católicos; enquanto outra se opõe ao marketing por compreender que sua ―lógica é incompatível com a missão profética do cristianismo, já que, para tais setores da Igreja Católica, há contradição entre a lógica profética e as lógicas do mercado e do consumo, nas quais o marketing se fundamenta‖ (SOUZA, 2011, p. 15).

Parece-nos que o marketing religioso atinge os indivíduos comuns – o homem médio. Semelhantemente à estratégia de empresas de capitais, as igrejas terminam reféns da lógica de mercado e consumo, pois promovem também a distribuição de bens materiais e ideais para satisfazer os desejos e as necessidades dos indivíduos religiosos. Estes, vivendo em uma sociedade de consumo, não fogem às expectativas das novidades oferecidas pelo mercado religioso. E o retorno, nesse processo de trocas, satisfaz também as instituições, porque, aumentando o número de adeptos, crescem também suas economias. Temos, portanto, ações religiosas racionalmente planejadas e motivadas por fins econômicos, embora a margem de lucro objetive manter o funcionamento das igrejas e das empresas religiosas no mercado, do contrário, irão à falência, como argumentam os portadores de religiões.

Um traço característico dos indivíduos da nossa pesquisa foi sua postura crítica diante desse marketing religioso. Comentou um dos nossos entrevistados:

―Tudo é em cima de valores, de dinheiro; então, se a pessoa está passando por uma necessidade, um momento de depressão, ela vai à igreja, e os pastores mexem com o seu psicológico para se favorecer; não se preocupam com a sua alma, seu espírito, sua força de vontade de procurar a Deus; mas eles se preocupam mais com valores‖185.

Outro entrevistado criticou as condutas dos portadores de religiões pelos escândalos envolvendo dinheiro e relações sexuais com mulheres e/ou menores. Segundo esse entrevistado, os pastores formam novos pastores com finalidades econômicas. Isso nos remete, por meio das palavras de Nietzsche, ao processo pelo qual surgem novos criadores de religiões, quando indaga:

O que significa o aparecimento sempre renovado dos fundadores de morais e religiões, dos iniciadores da luta pelas avaliações morais, dos mestres dos remorsos e das guerras religiosas? (GC, I, 1)

Dessa indagação, o filósofo afirma que os fundadores de morais e religiões trazem em si um ―impulso à conservação da espécie‖. Tal impulso ―surge de tempo em tempo como razão e paixão do espírito‖. Eles instauram éticas do deves, pois –. Para ele todas as éticas foram sempre tão ‗tolas‘ e ‗antinaturais‘ e serviriam para arruinar a humanidade (GC, I, § 1). Nietzsche qualifica-os também de ―mestres da finalidade da existência‖ em razão de o homem, necessariamente, ―preencher uma condição existencial: ele tem de acreditar saber, de quando em quando, por que existe, sua espécie não pode florescer sem uma periódica confiança na vida‖ (GC, I, § 1, grifo do original).

No aforismo sobre Da origem das religiões (GC, V, § 353), Nietzsche estabelece dois elementos genealógicos pelos quais os fundadores de religiões se utilizam para inventar nova religião. Primeiramente, fixam ―uma determinada espécie de vida e de costumes cotidianos‖ cujo objetivo seria agir ―como disciplina voluntatis [disciplina da vontade] e simultaneamente afastar o tédio‖; segundo, dão a essa forma de vida uma “interpretação, mediante a qual ela [a vida] pareça iluminada pelo

mais alto valor, de modo a se tornar um bem pelo qual a pessoa luta e, em algumas circunstâncias, dá a própria vida‖ (GC, V, § 353, grifo do original).

O filósofo assegura que o primeiro elemento não traz grande importância porque ‗o modo de vida‘ normalmente já existia ao lado de outros e sem consciência de qual valor lhe era inerente, mas dá importância ao segundo, porque a ―originalidade do fundador de uma religião manifesta-se habitualmente no fato de que ele o vê, ele o escolhe, ele advinha pela primeira vez para que serve e como pode ser interpretado‖ (GC, V, § 353, grifo do original).

Exemplo ímpar, ao que Nietzsche recorre, é o de Jesus de Nazaré (ou Paulo) que teria deparado com ―a vida da gente pequena numa província romana, uma vida modesta, virtuosa, atribulada: ele a interpretou, introduzindo-lhe um supremo sentido de valor – e, com isso, a coragem para desprezar qualquer outro modo de vida [...]‖ (GC, V, § 353, grifo nosso). Nessa mesma perspectiva, Buda teria encontrado esse tipo de pessoas dispersas em todas as classes elevadas e degraus do seu povo. Tais pessoas se revelam, segundo Nietzsche, ‗boas e brandas‘ (sobretudo, inofensivas); por inércia, elas vivem na ‗abstinência, quase sem necessidades; caíram numa fé que promete ‗evitar‘ o retorno da fadiga terrena, ou seja, do trabalho, da ação em geral (GC, V, 1).

O jardim encantado de uma religião surge, então, por duas vias: por meio do nascimento de um novo deus, e/ou quando homens se dizem portadores das promessas desse deus. Eles anunciam tais promessas pensando em implantar um novo modo de vida. Essa determinação é resultado da interpretação que fazem segundo a realidade de um povo, por meio do processo do ver, escolher, adivinhar. E as características de indivíduos que aceitam tais promessas, segundo Nietzsche, são as seguintes: certa categoria média de almas, que ainda não reconhecem sua afinidade – gente pequena, de vida modesta, virtuosa e atribulada. Max Weber nomeia-os como: os desafortunados e as massas.

Para Nietzsche, a fundação de uma religião sempre se torna uma demorada festa de reconhecimento (GC, V, § 353). Seus fundadores criam valores que são interpretados como únicos, verdadeiros, superiores aos outros.

Atualmente, com efeito, vivemos na descontinuidade do religioso na existência dos indivíduos; ou seja, ―nosso mundo cotidiano não é religioso‖ (LÖWITH, 2007, p. 172). Esse é o ―destino de nossos tempos‖ (WEBER, 2002d, p.

107) como indicara Weber em suas análises sobre o processo de racionalização e intelectualização de todas as esferas da vida moderna. Essa realidade, demonstramos no próximo capítulo, quando aprofundaremos os discursos dos nossos entrevistados, os quais estão permeados da perspectiva do desencantamento metafísico do mundo.

Portanto, o jardim desencantado, uma vez despido do seu fundamento, foi colorido com outros olhares. Perdeu-se o feitiço. Deus já não passeia no jardim para encontrar-se com os homens! Estes fugiram para outros jardins. Esta é a verdadeira vergonha do homem moderno. Assistimos ao fim da razão suficiente do mundo, Deus, que plasmava a ―coisa em si‖ (HDH, § 16). Somente partindo do acontecimento da morte de Deus, podemos suspeitar da teoria do retorno do sagrado, pois o mundo não é mais olhado, conforme Nietzsche, por intermédio de exigências morais e teológicas:

Foi pelo fato de termos, durante milhares de anos, olhado o mundo com exigências morais, estéticas e religiosas, com cega inclinação, paixão ou medo, e termos nos regalado nos maus hábitos do pensamento ilógico, que este mundo gradualmente se tornou assim estranhamente variegado, terrível, profundo de significado, cheio de alma, adquirindo cores – mas nós fomos os coloristas: o intelecto humano fez aparecer o fenômeno e introduziu nas coisas as suas errôneas concepções fundamentais. (HDH, § 16, p. 25, grifo do original)

Assim como o intelecto humano ‗fez surgir a aparência‘ [Der menschliche Intellekt hat die Erscheinung erscheinen lassen (SOUZA, 2005b, nota 16, p. 283)], cometendo erros interpretativos ao imputar às coisas fundamentos, de igual forma, o mesmo intelecto ousou criar novos hábitos de um ‗pensamento lógico‘ que colorisse o jardim com outras cores, bem como conscientizou o homem de que a responsabilidade última encontra-se nele próprio. Tal perspectiva levou-o a não responsabilizar a essência das coisas como causa do inquietante caráter efetivo do mundo (HDH, § 16).

Nietzsche devolve ao indivíduo o poder de ‗valorar‘ as coisas (diferente de valorizar), de interpretar algo a fim de atribuir-lhe valor. Essa questão é fundamental porque muda completamente a perspectiva de compreender e avaliar o mundo. Torna-se uma questão de linguagem porque, no processo de desenvolvimento cultural, o homem estabeleceu, como indica Nietzsche, um mundo próprio ao lado

do outro, um lugar que ele considerou firme o bastante para, a partir dele, tirar dos eixos o mundo restante e se tornar seu senhor (HDH, § 11).

O indivíduo desprendeu-se daquele ‗fundamento na consciência‘, do nexo entre as noções de ‗culpa‘, ‗dever‘, e seus pressupostos religiosos: ―entrelaçamento entre a má consciência com a noção de Deus‖ (GM, II, § 21). A morte de Deus favoreceu considerável declínio da consciência de culpa do homem (GM, II, § 20). Esse acontecimento contribuiu para a ruptura com o que Derrida chama de experiência da sacralidade, inclusive da santidade, do indene são e salvo (heilig, holy) (DERRIDA, 2000, p. 51).

Exemplo dessa realidade. Na Parada do Orgulho Gay, alguns santos católicos seminus foram travestidos com camisinha, cujo slogan denunciava o salvo: ‗Nem Santo Te Protege‘, ‗Use Camisinha‘. O indene foi transvalorado em sua ‗pureza‘, dessacralizado. O tema da Parada foi um texto bíblico do evangelista São João: ―Amai-vos uns aos outros‖ (Jo 15,12). Essa atitude, Nietzsche chama de transvaloração do valor dos valores. Isso implica em uma inversão crítica daquilo que normalmente se toma como valor para a existência dos indivíduos.

Diante dessa transvaloração do valor dos valores religiosos, o arcebispo metropolitano de São Paulo, Dom Odilo Pedro Scherer, afirmou:

―A associação das imagens de santos para essas manifestações da Parada Gay, a meu ver, foi infeliz e desrespeitosa. É uma forma debochada de usar imagens de santos, que para nós merecem respeito. Vamos refletir sobre medidas cabíveis para proteger nossos símbolos e convicções religiosas. Quem deseja ser respeitado também tem de respeitar‖186.

Na pessoa da autoridade qualificada, a religião ao sentir-se violada em sua pureza, para se preservar, aciona seus mecanismos de autoimunidade do indene (DERRIDA, 2000, p. 61), pois segundo o arcebispo:

―A pretensão de mexer na harmonia que Deus estabeleceu entre os sexos e de submeter a identidade sexual ao arbítrio da vontade, tão influenciável por fatores culturais e dinâmicas socio-educativas (ou

deseducativas...), é uma temeridade, que não promete bons frutos para o futuro da humanidade‖187.

O fato é recorrente porque corrobora com a hipótese que propomos no estudo sobre o desencantamento metafísico do mundo, pois o acontecimento da morte de Deus favoreceu o declínio da consciência de culpa. Rompeu-se com aquela interpretação cristã segundo a qual o sofrimento humano era visto pelo pecado. Nietzsche sugere que, na história da gênese da ‗moralidade do costume‘, o enfermo foi transformado em pecador e culpável, portanto, um ‗devedor‘ de Deus. Diante do exemplo acima, alguns indivíduos parecem não se sentirem tão culpados diante dos seus atos.

Inversão crítica dos modelos morais e sociais. Isso revela o momento social pelo qual passa a sociedade brasileira. Traço da modernidade que talvez as religiões não tenham poder para deter o processo. O encantamento dos indivíduos está apontado para outras direções. Parece que o ético-religioso não dispõe de profundidade para influenciar algumas vidas, embora Nietzsche tenha afirmado: ―Fomos influenciados sem carregar conosco a força suficiente para contrariar estas influências, sem saber querer que estamos sendo influenciados‖ (EsH, p. 62).

187 Dom Odilo Pedro Scherer, Homem e mulher ele os criou. Cf. Jornal da Arquidiocese

– O São Paulo, A3, 21 a 27 de junho de 2011.