Observa-se a ocorrência de espiritismo entre os sertanejos. Chiquinho Alonso entrara no movimento já nos tempos de Caraguatá. Era moço dos seus 25 anos, magro, alto, de boa aparência e casado. Era conhecido por sua valentia nos combates, o que lhe conferiu logo a chefia de piquetes. Todavia, seus dotes guerreiros mostraram-se insuficientes para galgar patamares elevados na estrutura de comando que se desenvolveu. Era necessário o aval espiritual, mais propriamente, “mediúnico”. Nhôca, que testemunhou a sua ascensão, afirma que foi através de espiritismo que Francisco Alonso chegou ao poder. Por ter como padrinho João Maria, foi o próprio São Sebastião, não “em carne e osso”, mas “em alma e espírito”, isto é, pessoalmente, quem lhe designou a liderança (in: VINHAS DE QUEIROZ, 1981, p. 164). É curioso que o próprio depoente, personagem da história, classifique a prática como “espírita”. Isso mostra, com clareza, não apenas a nossa percepção atual de que há influência africana e ameríndia na religiosidade Contestada, mas que eles mesmos a reconheciam. Mais do que isso: eram capazes de “traduzir” tal
experiência mística dentro dessa categoria religiosa, mostrando que conheciam razoavelmente essa modalidade de crença na sociedade em que viviam. Nova ocorrência “espírita” pode ser encontrada, atestada em um trágico acontecimento. Na Vila de Curitibanos, os rumores de ataque jagunço iminente, levou seus habitantes, seguidas vezes, a buscarem esconderijo na mata, a cerca de meio quilômetro da igreja. Como retirantes notívagos, despojados de seus aposentos, buscavam hospedagem no bosque, tendo travesseiros e cobertores nas mãos. Assim iam os homens, alertas, seguidos pelas mulheres e as crianças. Em uma dessas noites, um homem, armado de sua espingarda, ao ver um vulto se aproximar, julgando ser um jagunço, disparou um tiro certeiro. Fez tombar seu irmão de sangue. Inconsolável, buscou alento na vingança contra si mesmo. Achando- se imerecedor da vida, queria o suicídio, sendo necessária constante vigilância para que não o concretizasse. Contudo, converteu-se ao espiritismo e assumiu o papel de médium, o que lhe franqueava o diálogo com o irmão falecido (VINHAS DE QUEIROZ, 1981, p. 173). Aparentemente, impedido de ir ter com o irmão através da morte, procurou a crença que oferecia uma ponte entre os vivos e os mortos. Chama-nos a atenção o fato de ser corrente tal vertente religiosa, a ponto de se mostrar uma opção viável. Mais do que isso: a tradicional aversão à religiosidade africana que se viu até pouco tempo em nossa sociedade parece estar ausente na sociedade campesina na qual floresceu a religião Contestada.
II.6.2 Gritos
Suas táticas de combate incluíam o uso de gritos, reverberando vivas a São Sebastião e a São João Maria, e morte aos peludos. Geralmente, partia das bocas de adolescentes levados ao entrevero especialmente para isso. Na opinião de Maurício Vinhas de Queiroz, tinha por finalidade dar a impressão de maior número (VINHAS DE QUEIROZ, 1981, p. 184). Acreditamos que há outro fator psicológico envolvido. A presença dos adolescentes nas batalhas mostra o destemor daquele povo, deixando claro que mesmo os mais jovens não temiam a morte na guerra. Além disso, deixa clara a disposição de sacrificar, até mesmo, aqueles que não alcançaram a idade adequada para o combate. Talvez, haja, ainda, por parte dos matutos campesinos a intenção de constranger o exército, dando a impressão que atirava em “crianças”. Sendo este o intento, geraria nos soldados do governo um dúbio sentimento, mesclando ao dever e à coragem a comoção e a covardia. Quando em maioria, os combatentes de José Maria atacavam frontalmente, reproduzindo o mesmo vozeril, empunhando bandeirolas brancas, tendo ao centro, uma cruz azul. Falando- se de São Sebastião e São João Maria, parece que, à medida que o tempo avançava, a fé radicava-se mais para fora do catolicismo tradicional. Prova disso é que a tradicional fórmula trinitária cristã “em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”, é modificada, passando a ser formulada “Deus, São Sebastião e São João Maria” (VINHAS DE QUEIROZ, 1981, pp. 184,
191). É certo que esse movimento de afastamento perdurará até a derrocada no último reduto, quando então, paulatinamente, retornará aos limites da devoção comum do catolicismo rústico brasileiro. Trataremos mais detidamente do assunto em momento próprio.
II.6.3 A Concepção da Terra
A quarta fase do movimento também mostra crenças religiosas que, aparentemente, envolviam o conceito que tinham da terra. Ao encontrar túmulos de soldados recém- sepultados, desenterravam-nos, deixando os corpos apodrecerem ao relento. Essa foi a prática dos cangaceiros até o fim dos combates (VINHAS DE QUEIROZ, 1981, p. 187). Na Bíblia, tal atitude estava associada à maldição de Deus, isto é, evidência de seu desagrado (Dt 28.26; Jr 7.33, 16.4, 19.7 - Bíblia). Todavia, nas Escrituras Cristãs, cadáveres insepultos não denotavam a agência humana, mas, exatamente, a falta dela. Em outras palavras, significava que os corpos seriam repasto de animais, para destacar que não restaria quem os enterrasse. Era ocasião emblemática, a quebra da aliança, o desfavor de Deus, a derrota, evidenciados na impossibilidade, até mesmo, de sepultar os seus mortos. Outra vertente religiosa onde também vemos tal prática, embora ainda na tradição cristã, é o catolicismo medieval. A inquisição não poupava, nem mesmo os mortos. Se um morto fosse acusado de alguma prática condenável, como eram os casos da heresia ou bruxaria, era julgado pelo tribunal da inquisição, e, se condenado, teria seus ossos exumados, e queimados na fogueira. Todavia, a prática Contestada talvez fosse motivada, ainda, pela crença na santidade da terra. Para eles, a terra era uma posse dada por São Sebastião, associada às agências dos monges. Embora física e ainda deste mundo, era essencialmente espiritual. Isso pode ser visto, por exemplo, de forma restrita, nos redutos. Eles tinham suas fronteiras claramente delimitadas com cruzes, e a igreja no centro do arraial. De forma extensiva, parece que tal pensamento se aplicava à terra que já davam como sua. Sendo ela santa, não comportaria corpos de “peludos”, pois eram da parte do diabo. Eles não faziam parte da monarquia milenar que acreditavam já experimentar. É possível que se possa reconhecer mais um ingrediente, agora ameríndio. Os Xokleng enterravam o umbigo do recém-nascido, estabelecendo forte ligação do indivíduo com a terra natal. Como parte do rito de iniciação, parece evidenciar uma interação entre o homem e a terra. Faz lembrar as Escrituras cristãs, quando em Gênesis o Criador toma a terra (Hebraico: adamah) para fazer o homem (Hebraico: Adam), mostrando mais do que ligação, real derivação. É o caso do mito de origem indígena, que mostra o ser humano saindo da terra.
Maurício Vinhas de Queiroz confessa ser difícil concluir quais as razões que levaram os adeptos da Santa Religião a desenterrar mortos, ou, simplesmente, não enterrar os
cadáveres, deixando-os para os urubus e porcos do mato. Denominando-a “atividade mágico-guerreira”, alude a testemunhos que afirmam que os “peludos” não mereciam o sepultamento, pois eram tidos como “cães”, ou que seus corpos jazeriam sob o firmamento “em desagravo da santa religião”. Em ambos os casos, estabelece-se o contraste entre a “santidade” do movimento e a “impureza” dos de fora da comunidade. Sepultá-los, possivelmente, implicaria profanação da terra. Curiosamente o autor parece dar mais crédito a um efeito, provavelmente inconsciente, de tal atitude: infundir o pavor. Mesmo os vaqueanos, segundo ele, temiam mais ficarem insepultos do que a própria morte, pois acreditavam que se os seus cadáveres não fossem “plantados” a sete palmos sob o chão, não acessariam o paraíso. Até o purgatório lhes seria vedado. Continua sua argumentação afirmando que mesmo os adeptos eram ameaçados com tal flagelo póstumo. A deslealdade para com a causa agravaria a punição para além da morte. A seriedade dada à negação de enterro aos inimigos era tamanha, que se flagrassem algum adepto sepultando adversários, sofreria imediatamente aquilo que tentava evitar ao cadáver. Aqueles que eram penalizados nos redutos, seus cadáveres eram arrastados para longe e abandonados ao relento, sendo proibido, até mesmo, o enterro de suas ossadas (VINHAS DE QUEIROZ, 1981, p. 187). Embora seja inegável o terror que tal prática causava nos seus oponentes, acreditamos que a verdadeira motivação era religiosa, sendo o efeito aterrador um elemento secundário.
II.6.4 Menino-deus, Virgem e Padres
A liderança espiritual continuou a existir na forma de “videntes”. Já próximo do fim do movimento, no reduto de São Sebastião, aglomerando mais de 500 ranchos, exercia o comando a família Machado. O líder espiritual de maior preeminência era Antoninho, rapaz de 20 anos, que diziam ter “um adivinhão do bolso”. Em paralelo, atuava uma Virgem, Sebastiana Rocha, muito respeitada em suas predições. Muito interessante o cruzamento com a liderança católica neste reduto. Como citamos anteriormente, houve ali a ordenação de dois padres, e, curiosamente, um deles era de cútis escura: o negro e caolho Sebastião Romão, e Pedro Barbeiro. Assim dividiam o ofício: o primeiro se especializou em casamentos e batizados, enquanto, o segundo, radicou-se nos enterros. Não se exigiam as confissões (FELIPPE, 1995, p. 175).