2. Materiale og metode
2.1 Materialer
A opção metodológica pelo “estudo de trajetórias” (PASSOS e VILELA, 2014a, PASSOS e VILELA, 2014b) suscitou indagações sobre como considerar as relações entre subjetividade e coletividade. Em um primeiro momento, parecia adequado fazer uso da prosopografia, para lidar com a identidade social, e da genealogia, com o intuito de focalizar o indivíduo. Isto, porque "estaríamos em face de uma dupla identidade, uma social e outra individual, ambas portadoras de caracteres definidos coletivamente" (MONTAGNER, 2007, p. 243). A prosopografia focaliza o estudo de biografias coletivas, levando em consideração suas múltiplas relações sociais; e a genealogia centraliza suas discussões nos estudos sobre as condições de origem, com um olhar voltado para a proveniência e para a emergência do objeto que se pretende investigar.
A prosopografia consiste em uma espécie de biografia coletiva (STONE, 1971), considerando que esse grupo de pessoas possuam entre si uma característica comum. Esta perspectiva consiste em uma abordagem de pesquisa muito utilizada na história antiga e medieval a partir do século XVI. Desde então, seus usos levaram à modificações em seu significado.
Tendo como objetivo inicial a descrição das características de uma pessoa, o termo surgiu com o objetivo de ampliar o conceito de biografia, no sentido de acrescentar informações às descrições biográficas. Ao relatar a presença do termo no título de uma obra reeditada em 1586, Lalouette (2006) destaca, na citação a seguir, a pertinência do termo e os sentidos a ele atribuídos, naquela época:
o emprego do termo prosopografia é interessante; é claramente tomado em seu sentido primeiro de representação figurada e aparece no título não porque o autor narre a vida dos reis – o termo “biografia” seria suficiente – mas porque enriqueceu sua obra de “figuras e retratos” (LALOUETTE, 2006, p. 60).
De descrever detalhadamente uma pessoa, os usos da prosopografia passaram a se modificar com o desenvolvimento da sociologia a partir da segunda metade do século XIX. Segundo Charle (2006), a micro-história social promove a prosopografia, como consideramos estar explícito na citação a seguir:
O declínio associado dos métodos estatísticos globais e da influência intelectual do marxismo, que privilegiam as classes sociais de grandes contingentes (operariado, camponeses, burguesia), e o cuidado, próprio de sociedades cada vez mais fundadas sobre o indivíduo, de se aproximar da experiência individual e da diversidade das trajetórias sociais conduziram os historiadores dos períodos recentes a praticar a micro-história social, que implicava ter como método privilegiado a prosopografia ou a biografia coletiva (CHARLE, 2006, p. 43-44).
Os usos desta abordagem passam de descrições individuais para análises das origens locais, sociais e intelectuais de grupos de indivíduos, bem como a qualificação e a carreira de seus membros (BULST, 2005, p. 50). O interesse com foco no indivíduo fica caracterizado como biografia e o estudo da coletividade e suas relações são caracterizados como prosopografia. Segundo Bulst (2005, p. 55), prosopografia e a biografia “tratam de questões e interesses diferenciados que, paralelamente, dão a ambas sua legitimidade. Enquanto a biografia visa o indivíduo; o interesse da prosopografia é o conjunto ou a totalidade, constantemente considerando o indivíduo nas suas relações com o conjunto”.
Prosopografias intelectuais e universitárias passaram a ser desenvolvidas por sociólogos franceses, que começaram a se interessar, também, pelas relações entre os indivíduos e os aspectos sociais. Segundo Charle (2006) “a sociologia da educação francesa, sob a influência dos trabalhos de Pierre Bourdieu, esteve também na origem de numerosas prosopografias intelectuais e universitárias” (p. 43). Alguns estudos prosopográficos encaminhados e coordenados por Bourdieu (2015a, 2013) resultaram em publicações como os livros A Distinção (BOURDIEU, 2015a) e Homo Academicus (BOURDIEU, 2013).
No primeiro livro, elegendo como objeto de investigação o gosto, foram entrevistadas 1217 pessoas entre os anos de 1963 e 1968. Segundo o pesquisador:
Construído em torno da hipótese da unidade dos gostos, o questionário comportava, além de um conjunto de questões sobre a prática fotográfica e as atitudes a respeito da fotografia que foram analisadas em outro momento, vinte e cinco questões sobre os gostos em matéria de decoração interior da casa, de vestuário, de música, de cozinha, de leitura, de cinema, de pintura e de música, de fotografia, de rádio, de artes amadoras (BOURDIEU, 2015a, p. 462).
A hipótese considerada para a constituição do questionário foi a unidade dos gostos e, a partir da análise dos seus resultados, foram captados os sistemas de gostos. A leitura do livro deixa pistas sobre as relações entre as necessidades culturais sendo
consideradas um produto da educação e à predisposição dos gostos a “funcionar como marcadores privilegiados da 'classe'” (BOURDIEU, 2015a, p. 09).
A outra obra, intitulada Homo Academicus, também envolveu uma grande pesquisa empírica que tomou como objeto o mundo universitário na qual Bourdieu se inseria para construir a sua topografia social e mental. Neste processo de constituição, para o sociólogo, é como se o mundo universitário fosse constituído por um “polo ‘mundano’, representado pelas faculdades de direito e de medicina, e o polo ‘científico’, representado pelas faculdades de ciências” (BOURDIEU, 2013, p. 103). Duas espécies de poderes universitários em dois pólos, dominante e dominado, do campo. No primeiro, dominante, predomina o poder universitário, “fundado no acúmulo de posições que permitem controlar outras posições e seus ocupantes” (p. 103) e no segundo, dominado, o prestígio científico18, “fundado no investimento bem-sucedido unicamente na atividade de pesquisa” (p. 103). A análise sociológica do mundo universitário ao qual Bourdieu (2013) se dedicou conseguiu “demolir o Homo academicus, classificador entre os classificadores, nas suas próprias classificações” (p. 287). Por se inserir e conhecer muito bem esse mundo, em vez de domesticar o exótico, Bourdieu (2013), exotizou o doméstico.
A prosopografia consiste em uma abordagem metodológica que nos permite fazer uma análise de um indivíduo em função da totalidade da qual faz parte, e também refletir sobre a força de coesão de um grupo. As várias possibilidades para encaminhar estudos desse tipo são apresentadas por Stone (1971), algumas das quais estão expostas na citação a seguir:
O método empregado é o de estabelecer o universo a ser estudado e, então, formular um conjunto uniforme de questões – sobre nascimento e morte, casamento e família, origens sociais e posições econômicas herdadas, lugar de residência, educação, tamanho e origens das riquezas pessoais, ocupação, religião, experiência profissional etc. Os vários tipos de informação sobre indivíduos de um dado universo são então justapostos e combinados e, em seguida, examinadas por meio de variáveis significativas. Essas são testadas, tanto a partir de suas correlações internas, quanto correlacionadas com outras formas de comportamento ou ações (STONE, 1971, p. 46).
A prosopografia merece destaque como instrumento para o desvelamento de certas causalidades e condicionantes sociais de determinados grupos. Inspirados em Stone (1971), vamos assumir a prosopografia como abordagem para investigar a trajetória de alguns pesquisadores etnomatemáticos, que possuem a pesquisa em etnomatemática como
18 Segundo Bourdieu (2013) “o prestígio científico ou intelectual é muito mais estável que o poder universitário, que está mais ligado à posição e menos ao seu portador” (p. 109).
característica comum. Mas a nossa constituição de trajetórias também envolve aspectos da genealogia.
Na perspectiva nietzschiana, a genealogia considera a realidade a partir da vida. A vida como desdobramento da vontade de potência. Uma vida de impulsos, conformada e ramificada nessa forma fundamental de vontade (NIETZSCHE, 1991, p. 55). Segundo Souza (2008), a genealogia consiste em uma filosofia do corpo e da história, que deixa de avaliar a realidade a partir de valores metafísicos e passa a ter como valor maior a “vida”.
Assim, toda a sua filosofia seria então uma filosofia do “valor” – no sentido de uma crítica radical dos valores dominantes na sociedade moderna. Mas, segundo Portocarrero, mais do que uma inversão, Nietzsche propõe também que se transforme o próprio princípio de avaliação de onde derivam os valores, ou seja: propõe uma “transvaloração”. Dentro deste contexto, em sua obra a realidade deixará de ser avaliada a partir dos valores metafísicos, para se tornar valorada a partir da vida (SOUZA, 2008, p. 75).
Olhar para, e não comparar com, ou olhar em relação a algo. A partir disso, destacamos que a genealogia, enquanto referencial teórico-metodológico, opõe-se às pesquisas de caráter metafísico. Souza (2008) considera que a pesquisa genealógica investiga os acontecimentos do corpo e da história, aspectos que estão apresentados na citação a seguir:
a pesquisa genealógica (o método histórico-filosófico nietzscheano por excelência) como uma forma de pesquisa que pressuporá no princípio de algo não a universalidade própria da “origem”, mas os acontecimentos do corpo e da história; buscará nos inícios não a identidade, mas a discórdia entre as coisas; não a solenidade, mas o comezinho, o pequeno, o casual (SOUZA, 2008, p. 77).
A pesquisa genealógica consiste, portanto, em uma forma particular de focalizar o indivíduo a partir da não causalidade. Não buscar pelo universal. Não buscar a identidade. Olhar para as diferenças, para os detalhes. Estas são características da genealogia, que busca o princípio pela pesquisa da proveniência e da emergência. Segundo Souza (2008), a proveniência aponta para o desenvolvimento irregular e instável associados ao corpo, como observamos estar colocado na citação a seguir:
A “proveniência”, associada ao corpo, seria o “tronco de uma raça”: os entroncamentos, as misturas de que algo (um povo, um órgão, ou outra coisa) é feito; não a identidade simples e essencial da “origem”, mas a heterogeneidade, a proliferação de acontecimentos pelos quais as coisas se
formam; o sem-número de acasos, erros, falhas e fissuras. A proveniência aponta, enfim, não para uma evolução linear ou teleológica, mas para o desenvolvimento irregular e instável que compõem a nossa realidade corporal (SOUZA, 2008, p. 77-78).
A emergência, também segundo Souza (2008), marca o momento em que algo entra em cena, considerando este momento um “produto de um confronto entre variáveis antagônicas” (p. 78). O processo de constituição, a partir desta perspectiva genealógica [que busca pela proveniência e emergência] cria um país próprio. Procura indícios em fatos desconsiderados, busca a singularidade dos acontecimentos, ou faz “emergir um entendimento sobre os espaços onde desempenham papéis distintos e/ou foram excluídos do discurso verdadeiro” (FAÉ, 2004, p. 413).
A genealogia, enquanto referencial teórico-metodológico para a nossa investigação, auxilia-nos a entender as condições de produção e legitimação da etnomatemática, a partir de diferentes perspectivas. Uma delas, expressa na citação a seguir, refere-se aos saberes não legitimados pelo discurso verdadeiro:
Trata-se, nesta análise, de ativar os saberes locais, não legitimados ou valorizados pelo discurso verdadeiro, que, ao ocupar um lugar qualificado como científico, ordena, hierarquiza, classifica e depura os diversos saberes, em nome dos direitos desta ciência detida por alguns (FAÉ, 2004, p. 413).
Ativar os saberes locais não legitimados pelo discurso verdadeiro e, com isso, considerar as relações entre coletividade e subjetividade, apresentadas anteriormente. Ampliar nossos olhares, com o intuito de visualizar alguns traços transparentes que, ao serem unidos, constituem a trajetória de um grupo. Traços quase transparentes, caracterizados na citação a seguir:
Como se fora uma lesma, as marcas distintivas ligadas ao nome, ao biológico e ao percorrer histórico dos agentes, acabam por deixar traços quase transparentes que, quando unidos a todos os outros traços dos grupos sociais, definem trajetórias comuns, feixes de percursos muito semelhantes, ou afinal, uma trajetória (MONTAGNER, 2007, p. 253).
O nosso foco sobre trajetórias será abordado, portanto, a partir de, por um lado, a trajetória da etnomatemática enquanto grupo de pesquisa – enquanto área de investigação – e os processos envolvidos em sua produção como uma área de pesquisa; e por outro a trajetória do agente – pesquisadores etnomatemáticos – enquanto membro de um grupo, que legitima esta área por meio das atividades que desenvolvem. Assim, ao mesmo tempo em que os
agentes determinam a estrutura do campo na qual se inserem, esta estrutura também determina os agentes (BOURDIEU, 1996). Por esse motivo, respaldamo-nos nas palavras de Bourdieu (1996) para considerar os acontecimentos biográficos como alocações e deslocamentos:
Tentar compreender uma vida como uma série única e, por si só, suficiente de acontecimentos sucessivos, sem outra ligação que a vinculação a um “sujeito” cuja única constância é a do nome próprio, é quase tão absurdo quanto tentar explicar um trajeto no metrô sem levar em conta a estrutura da rede, isto é, a matriz das relações objetivas entre as diversas estações. Os acontecimentos biográficos definem-se antes como alocações e como
deslocamentos no espaço social, isto é, mais precisamente, nos diferentes
estados sucessivos da estrutura da distribuição dos diferentes tipos de capital que estão em jogo no campo considerado (...)
Não podemos compreender uma trajetória, a menos que tenhamos previamente construído os estados sucessivos do campo no qual ela se desenrolou (BOURDIEU, 1996, p. 81-82).
Segundo Bourdieu (1996, p. 76), devemos evitar uma “criação artificial de sentido” porque nem todos os fatos necessitam estar intimamente ligados. Nossa história é também constituída de rupturas e não considera-las, talvez seja ceder a uma ilusão retórica, como destacado na citação a seguir:
Produzir uma história de vida, tratar a vida como uma história, isto é, como a narrativa coerente de uma sequência significativa e coordenada de eventos, talvez seja ceder a uma ilusão retórica, a uma representação comum da existência que toda uma tradição literária não deixou e não deixa de reforçar (BOURDIEU, 1996, p. 76).
Considerar as trajetórias como parte de uma estrutura, que possui regras muito bem estabelecidas, é a forma sugerida por Bourdieu para não cairmos em um curto-circuito redutor (BOURDIEU, 1996), causado por uma imersão, ora na dimensão interna de um objeto (sua estrutura de funcionamento), ora aos aspectos sociais que interferem em seu funcionamento. Nenhuma estrutura é totalmente autônoma em relação a esses dois aspectos e, por isso, é necessário um modo de pensar relacional.
A teoria do campo, formulada por Bourdieu, considera que cada agente se situa em suas relações objetivas uns com os outros. Inseridos em um campo, com regras pré- estabelecidas, e relacionando-se uns com os outros, os agentes se deparam com um espaço de possíveis que permite uma maior ou menor movimentação no interior deste campo.
Esse espaço de possíveis, que transcende os agentes singulares, funciona como uma espécie de sistema comum de coordenadas que faz com que, mesmo que não se refiram uns aos outros, os criadores contemporâneos estejam objetivamente situados uns em relação aos outros (BOURDIEU, 1996, p. 54)
As trajetórias são, portanto, construções coletivas. Além de não se desenrolarem de forma independente do espaço em que se inserem, também possuem uma dependência em relação a outros agentes, pertencentes ao campo. A nossa compreensão para as trajetórias, além do referencial exposto, também se respalda na perspectiva sociológica proposta por Bourdieu que, neste capítulo, será apresentada a seguir a partir das noções de habitus, campo e capital.