Quando foram analisados os dados sobre o impacto na vida das crianças, verificou-se que 34,9% delas foram acordadas à noite pela dor de dente (TAB. 21), a maioria delas filhas de mães com os mais baixos níveis de escolaridade aferidos (TAB. 38), sendo, portanto, detentoras de situação econômica menos privilegiada. Além disso, um percentual ainda mais alto de crianças (63,8%) deixou de realizar alguma atividade habitual por causa da dor (TAB. 24), neste caso, independentemente dos níveis econômico e educacional da mãe (TAB. 40). O
gênero da criança não teve influência estatisticamente significativa sobre tais impactos neste estudo (TAB. 37 e 39).
Entre as principais atividades prejudicadas, estiveram a alimentação, considerada globalmente (24,6% deixaram de alimentar totalmente e 16,4% restringiram o lado afetado pelo foco da dor), o sono (32,5%) e a ida à escola, ou seja, 7,5% tiveram que se ausentar da escola em função da dor de dente.
Verifica-se que a alimentação infantil, seguida pelas horas de sono perdidas, tiveram as maiores taxas de impacto. A análise destes resultados possui inúmeras implicações. Quase metade das crianças desta faixa etária, em BH, tiveram problemas numa função biológica considerada extremamente importante para o desenvolvimento infantil. A maior parte delas não conseguiu ingerir qualquer alimento no período em que sentia dor, e como os resultados apontam que a dor teve consideráveis percentuais de freqüência e duração neste estudo (TAB. 8 e 9), provavelmente isto ocorreu durante um bom período de tempo, o que certamente, pode ter trazido conseqüências negativas para o desenvolvimento físico e/ou mental destas crianças, no auge de sua fase de crescimento.
Adicionalmente, uma outra parcela de crianças, pouco menor, também teve que restringir sua alimentação. Provavelmente, a dieta e, conseqüentemente, a nutrição dessas crianças também sofreu prejuízos, tornando evidente a influência que a saúde bucal pode exercer sobre o bem-estar geral do indivíduo (Bailit, 1987). Isto sem falar nos aspectos sociais, psicológicos e religiosos da alimentação. Para muitas famílias, apesar da modernidade, as relações sociais são mantidas através das refeições em conjunto, das reuniões de pessoas, e a incapacidade de participar destes eventos pode ser experimentada como uma grande perda (Epstein, 1987); para outras, certos alimentos como doces e bombons têm o simbolismo de sentimentos tais como o afeto, o carinho e a gratidão (King, 1978; Rugg-Gunn, 1993); e ainda para algumas, os hábitos
alimentares têm uma forte influência cultural, como é o caso de alguns grupos religiosos e étnicos (Fonseca & Guedes-Pinto, 1995).
A segunda atividade mais afetada entre as crianças foi o sono e, pensando nos reflexos deste fato na infância, pode-se cogitar os prejuízos quanto ao descanso e relaxamento, e seu impacto para a memória, a concentração e, conseqüentemente, para os estudos. Isto sem considerar o percentual de crianças que relataram, objetivamente, ter ficado impedidas de freqüentar a escola e de estudar pelo problema da dor (TAB. 25), tendo afetado, diretamente, o seu desempenho acadêmico. Inferem-se duas explicações hipotéticas para que uma atividade desta relevância tenha sido cerceada pela dor: esta pode ter sido forte o bastante para incapacitar a criança, levando-a a ficar até acamada; ou ainda para motivar uma consulta de urgência ao profissional de saúde, na busca de sua resolução, e por isto, a criança não pôde comparecer à escola. Esta última é uma possibilidade bastante plausível, comprovada pela taxa significativa de crianças que foram levadas ao dentista, para alívio da dor (TAB. 16).
Outras atividades do dia-a-dia também sofreram prejuízos pelo sintoma dor: a higiene bucal em 3,6% dos casos e o lazer (brincar) em 3,2%. A primeira tem reflexos óbvios e diretos sobre a saúde bucal, à medida que não concorrendo para mantê-la ou melhorá-la, sua ausência ainda ajuda a piorá-la. Já a última mostra que a dor de dente pode impedir uma das coisas mais prazerosas e próprias da infância: as brincadeiras, direito sagrado e importante meio de socialização.
Ressalta-se ainda que 22 crianças encaixaram-se na alternativa “outros”, ao responderem à questão que aferia o quê deixaram de realizar por causa da dor (TAB. 25). Chamou a atenção a deprimente realidade enfrentada por algumas destas crianças, as quais afirmaram ter negligenciado tarefas que caberiam a um adulto, como “varrer a casa”, “lavar vasilhas” ou “tomar conta de irmãos mais novos”, realidade esta certamente determinada por piores condições de vida, que
não possibilitam escolhas (Pimenta et al., 1999). Mais difícil ainda foi verificar que deixar de realizar tais tarefas, causou a elas tristeza e repreensões dos pais, como se tivessem tomado aquilo como sua real obrigação e responsabilidade.
Na literatura encontram-se inúmeros estudos mencionando como a dor de dente pode interferir nas atividades cotidianas e no comportamento de indivíduos adultos (Miller, 1978; Reisine, 1984; Locker & Grushka, 1987b; Bailit, 1987; Adulyanon et al., 1996; Macfarlane et al., 2000). Segundo eles, os impactos mais citados são a ausência no trabalho e suas conseqüências para a renda familiar; a busca por um profissional; o uso de medicamentos; e prejuízos na alimentação, sono, atividades sociais, além de ansiedade e instabilidade emocional.
Quanto aos estudos de populações infantis, destacam-se o de Shepherd et al. (1999), cujo percentual de dor que culminou em “visita ao dentista” foi semelhante ao do presente estudo; e o de Naidoo et al. (2001) que revelou resultados mais elevados para falta à escola e distúrbios do sono ou lazer, e menores quanto aos da alimentação. Da mesma forma como foi feita a análise comparativa com outros estudos para a questão da gravidade da dor, não foram consideradas aqui as diferenças de cada estudo quanto ao referencial tomado para o cálculo dos percentuais, em que ora foi utilizada a amostra total, ora somente aqueles que sentiram dor.
Já estudos como os de Slade (2001) e Honkala et al. (2001), apontaram para a significativa influência dos aspectos sócio-econômicos sobre a maior parte dos impactos da dor em crianças e adolescentes, achados que contradizem os desta pesquisa, conforme demonstrado na TAB. 40. Por ela vê-se, claramente, que a maior parte das crianças filhas de mães detentoras de diferentes graus de escolaridade, do mais alto ao mais baixo e, portanto, dos três grupos econômicos, deixou de fazer algo em função da dor.
Para que se pudesse proceder a um teste final e definitivo da validade da escala de faces, as respostas obtidas a partir de sua aplicação foram confrontadas com as de duas questões cruciais sobre impacto para a vida da criança: se ela tinha sido acordada pela dor e se esta a impediu de exercer alguma atividade habitual (TAB. 41 e 42). Verificou-se uma relação extremamente significativa para ambas as questões: quanto maior a intensidade da dor (quanto mais elevados os escores) mais crianças acordaram e deixaram de realizar tarefas. Mais uma vez, reforça-se a relevância da escala de faces como um instrumento de medida válido para estudos como este (Bieri et al., 1990; Wilson, 1996; Beltrame et al., 1999; Hunter, 2000).
Em relação aos reflexos da dor infantil no núcleo familiar, algumas considerações merecem destaque.
Pelos percentuais apresentados (TAB. 43), percebe-se que a maioria dos meninos e meninas, de forma equivalente, precisaram acordar alguém para ficar com eles, à noite, em função da dor, sendo a mãe a pessoa mais acordada para ficar com crianças de ambos os sexos.
Para todos os níveis de escolaridade, a mãe também foi a pessoa mais solicitada para exercer este papel, porém elas estiveram representadas por percentuais ligeiramente mais elevados nos dois maiores níveis de escolaridade (TAB. 44). Nota-se que, nos dois níveis de instrução mais baixos (zero a 7 anos de estudo formal, no máximo), o percentual de crianças que acordaram a mãe não pode ser considerado estatisticamente diferente dos percentuais de outras pessoas acordadas, entre as quais foram citados irmãos e até vizinhos. Além disso, a diferença entre os percentuais de crianças que acordaram ou não alguém, também só foi significativa para estes dois níveis. Isto talvez denote um maior amparo das crianças do grupo mais privilegiado, ou o contrário, que crianças de famílias mais carentes e com menor grau de instrução dos responsáveis,
provavelmente, não recebem uma assistência irrestrita dos pais, como ocorre com aquelas em que os pais têm melhores níveis de educação e financeiro. Por isso, tentam agüentar e conviver por mais tempo com a dor e tendem a segurar sozinhas problemas desta natureza (Miller et al., 1975; Pires et al, 1999; Vargas et al., 2000), por saberem que eles, na maioria das vezes, não poderão ser tão prontamente resolvidos.
Como se pode ver, o conhecimento, as atitudes, percepções e respostas das pessoas em relação à saúde bucal, estão fortemente condicionados à realidade econômica e sócio-cultural a que estão submetidas (Pimenta et al., 1999).
Não houve, também, diferenças estatisticamente significativas entre os gêneros ou entre os graus de escolaridade materna quanto à questão “quem te levou ao dentista” (TAB. 45 e 46). Isto comprova, mais uma vez, que a mãe é a grande provedora quando se trata dos cuidados em saúde bucal para os filhos (Mayall, 1986; Kawabata et al., 1997; Auad, 1999; Ramos-Jorge, 2000; Gaudereto, 2001; Alexandre et al., 2002), independentemente de sua condição econômica ou educacional. Assim, as estratégias para mudanças de comportamento, com vistas à melhoria da qualidade de vida infantil, devem incluir o ambiente em que vivem, a família, e dentro desta, a figura materna, primordialmente.
Apesar de boa parte dessas pessoas ter sido prejudicada em alguma atividade para exercer tal papel, como foi mencionado na análise descritiva (TAB. 17), o gênero da criança não teve influência neste fato (TAB. 45). Para meninos e meninas os percentuais relativos a esta questão foram equivalentes, ou seja, pouco mais de um terço dos responsáveis deixou de realizar alguma tarefa do cotidiano para levar crianças de ambos os sexos ao dentista. A distribuição em relação aos afazeres (trabalho ou tarefas domésticas) prejudicados também foi simétrica em relação ao gênero infantil.
A escolaridade materna também não esteve associada a esta questão (TAB. 48). Para a maioria dos níveis de escolaridade (zero a três anos, oito a 11 anos e ≥12 anos), as porcentagens relativas a quem deixou de realizar alguma tarefa foram significativamente menores em relação às de quem não deixou, o que não ocorreu apenas com o nível quatro a sete anos. Os percentuais das tarefas que deixaram de ser realizadas, não puderam ser demonstrados estatisticamente diferentes para os níveis de escolaridade zero a três anos e oito a 11 anos, e não o foi para o nível ≥12 anos. Outra vez, somente para o nível quatro a sete anos ficou comprovada uma diferença em favor das tarefas domésticas. Quantitativamente, portanto, não se pode afirmar, genericamente, que houve predominância de prejuízos de uma tarefa em relação a outra. Porém, considerações de cunho qualitativo podem ser feitas.
O estudo de Shepherd et al. (1999) também revelou que, para grande parte dos membros familiares, houve prejuízo em tempo de sono ou absenteísmo ao trabalho para cuidar da criança enquanto ela sentia dor ou para levá-la ao dentista. Este fato pode ter levado muitas famílias a um prejuízo ainda maior, se forem consideradas as perdas financeiras, tanto no que se refere ao pagamento de um tratamento odontológico, quanto ao transporte para levar a criança ao dentista e às perdas salariais relativas à falta do responsável ao trabalho. Além disso, deve-se inferir que, se isto ocorreu um maior número de vezes, considerando a alta freqüência de episódios de dor por criança, relatada nesta pesquisa, conseqüências ainda maiores são esperadas, desde que o não comparecimento periódico e repetido ao trabalho poderia levar até à perda do mesmo. Segundo Locker & Grushka (1987b), o absenteísmo e as conseqüentes horas perdidas de trabalho significam uma baixa considerável de produtividade, representando para a sociedade, como um todo, uma grande perda. Do mesmo modo, muitos destes responsáveis também tiveram o sono perturbado, o que pode ter refletido em falta de concentração e de produtividade no trabalho.
Fica claro que a dor de dente é um sério problema para as crianças e suas famílias, e que suas conseqüências são subestimadas, especialmente nos níveis de saúde, educacionais e econômicos.
7.2.2.4 Relação entre o auto-relato de dor e o estado de saúde bucal ao