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Como já afirmamos anteriormente, o pastor protestante brasileiro deve ser visto como um tipo sociológico específico. Deve ser, portanto, diferenciado do clérigo católico romano e do clérigo pentecostal/neopentecostal. Evidentemente, há diferenciações ainda a serem consideradas em relação a outras tradições religiosas de matrizes diferentes do cristianismo. Neste trabalho, entretanto, nos limitaremos a analisar as distinções entre estes três grupos.

Retomando o conteúdo apresentado na tabela 1, podemos notar que a diferenciação das instituições acima tem uma influencia direta sobre as distinções do clero que as representa. Deve quedar-se bastante claro nesta pesquisa que a função ideológica da tradição protestante é que se torna preponderante dentro das relações sociais no geral, por ser esta a que o expõe como corpo intramundano.

Curiosamente, o surgimento do clero protestante, ocorreu em momento de contestação da legitimidade do clero romano. A própria ideia de “clero” é uma ideia combatida dentro do modelo religioso protestante.

A figura do pastor protestante é fundamentada no pilar de que todos os cristãos são iguais perante Deus e todos são “sacerdotes”. Portanto, como diz Willaime, o protestantismo inaugurou uma religião de leigos, mas, ao mesmo tempo, para evitar a pulverização de seu grupo, instituiu também a figura de um novo tipo de clérigo: o pastor (WILLAIME, 2003, p.136).

Este novo tipo de clérigo é preciso nunca esquecer que nasceu de uma contestação da legitimidade de um clero e que ele mesmo instituiu, no gesto dessa contestação o próprio princípio da contestação de todo o clero: o princípio sola scriptura. E que é somente na qualidade de intérprete autorizado das Escrituras que este clero se legitimou. A legitimação original do clero protestante reside na função de doutor das Santas Escrituras, “As Igrejas da Reforma” lembra Roger Mehl, nasceram de um movimento teológico, cujos inspiradores e chefes eram doutores da Igreja (WILLAIME, 2003, p.136).

89 Sendo um “ente social”, o pastor procura seu locus social no universo das relações com seus contemporâneos e precisa que este lugar lhe ofereça suficiente segurança psicossocial, concedendo-lhe a identidade social, como vimos anteriormente na teoria de papel do interacionismo simbólico, que se exprima em sua importância para a teia de suas relações com os demais elementos sociais.

Seguindo a avaliação histórica que propusemos, percebemos que houve um deslocamento do eixo do movimento protestante brasileiro no geral e, de certa forma, o pastor protestante brasileiro também se viu retirado de seu posicionamento original e carregado para uma lacuna de sentido.

Essa lacuna de sentido gerou a crise vocacional do pastor protestante brasileiro que, agora, se vê alijado dos seus pressupostos mais diretos de legitimação suficiente, ou seja, as funcionalidades de pastor-pregador; pastor- teólogo-instrutor e pastor-ideólogo.

Neste capítulo, propomos uma reflexão sobre a reação dos pastores frente a esta crise vocacional. Avaliando alguns modelos de autolegitimação intentados pelos pastores brasileiros do campo do protestantismo histórico.

Evidentemente, os processos de autolegitimação não podem ser considerados como movimentos orquestrados ideologicamente. Na maior parte das vezes são reações psicossociais naturais dos indivíduos que buscam, nem sempre conscientemente, um locus social que lhe confira o senso de sentido e valor social.

Construiremos nosso argumento seguindo o roteiro proposto por Willaime, mas, conforme fizemos anteriormente, considerando a necessidade de transportar a ferramenta sociológica proposta para o campo religioso protestante brasileiro.

Neste roteiro, como temos sentido aqui também no Brasil, Willaime propõe que esteja ocorrendo alguns modelos de legitimação do pastor diante da sociedade atual. Estaria o clérigo protestante fadado a mudar a matriz original do protestantismo baseado nos pilares da Bíblia como fundamento teórico do seu sistema, do sacerdócio de todos os santos como padrão doutrinal conceitual da sua funcionalidade no grupo (pastor-pregador; pastor-

90 teólogo) e da intramundanidade como premissa que autoriza sua posição de produtor de conteúdo de sentido ideológico (pastor-ideólogo)?

Não seria mais o clérigo uma figura de autoridade: ele seria menos o homem do discurso do que o homem da escuta, não mais seria o ideólogo procurando impor uma doutrina e uma moral, mas sim um animador do debate social em torno das questões de sentido e de ética. A profissão de clérigo utilizaria menos o registro da afirmação, da imposição direta de um sistema de sentidos do que o registro da sensibilização e da escuta: não se trata mais de controlar as consciências e os comportamentos, mas sim de inserir da melhor maneira possível na atual conjuntura cuidando, particularmente, de manter contato com seus contemporâneos (WILLAIME, 2003, p.146). .

Ao lado de Willaime também observamos esta mutação no conteúdo identitário do clérigo protestante. Tal mudança pode ser observada sociologicamente de diversas formas, como proporemos a seguir. Mas, antes disto, pontuamos que observamos que se trata de muito mais que uma mera mudança de abordagem para a realização do mesmo trabalho, entendemos que esteja ocorrendo uma alteração da matriz original.

Nossa investigação neste capítulo proporá um olhar mais crítico para estas mutações matriciais e buscará refletir sobre a possiblidade de estarmos vendo o fim do modelo pastoral protestante original e o surgimento de uma nova tradição pastoral e, com ele, o nascimento de um novo tipo de tradição, uma espécie de “neoprotestantismo”, descomprometido com os valores fundacionais desta tradição. Mas, não sendo este o caso, então nossa avaliação crítica nos sugerirá caminhos para melhor entender como o protestantismo está se ressignificando e de que maneira, então, devemos compreender seu novo status.

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