Ainda na parte mais baixa, ao lado esquerdo da oficina de construção, existia um corredor onde ficavam localizados dois banheiros, masculino e feminino, utilizados pelos educandos, alguns lavatórios, um deles com um filtro de água, e a sala dos educadores, com um banco, uma mesa e um computador. Nesta sala, eram realizadas as reuniões da equipe e encontros ou conversas particulares com pais ou educandos. Nos fundos dessa sala existia ainda um pequeno corredor, mais uma salinha e um banheiro. Esse espaço era normalmente utilizado pelos educadores e funcionários para guardar objetos pessoais e ter alguma privacidade, quando necessário.
Na parte de cima, após subir uma escadinha de cimento, ficava, à direita, uma salinha de vídeo, com uma televisão. Um corredor comprido, a céu aberto, dava acesso à sala de artes visuais, que também enfrentava problemas com as chuvas e o excessivo calor provocado pelas telhas de amianto. Apesar disso, a sala de artes visuais era um lugar que considerei um dos mais agradáveis da Nossa Casa, bem organizado e decorado com trabalhos dos meninos afixados nas paredes.
A sala de música ficava em frente à sala de vídeo. Na verdade, a sala de música era o salão paroquial, abaixo da igreja, onde, além das atividades do projeto, ocorriam outras atividades paroquiais e da comunidade. Com menos freqüência, a paróquia utilizava também a cozinha e o refeitório, mas em dias em que não estavam sendo utilizadas pelo projeto.
Um fato curioso, relatado pelo Maurício, educador de música, é que um dia ele chegou para suas aulas e foi informado de que elas não poderiam acontecer no salão, pois estava ocorrendo um velório, no mesmo horário em que deveriam
acontecer as atividades no projeto, de um garoto que havia sido assassinado na comunidade.
A sala de música, apesar de quente e de possuir uma acústica ruim, em parte devido ao pé direito baixo, era bem ampla, cerca de 50m², e comportava um bom número de pessoas, como ocorreu nos dias de ensaio geral para as apresentações de fim de ano.
Era cercada de janelas do tipo basculante em três das quatro paredes, e pintada em tom claro. Possuía duas portas de vidro, uma que dava acesso à parte interna, ao corredor que leva à sala de artes visuais e outra que dava acesso à rua, passando pela entrada da igreja. Essa última, só vi aberta em dias de muito calor.
Uma das laterais possuía uma pequena divisória com uma paredinha, tipo um balcão, onde ficavam guardados os instrumentos de percussão. No lado oposto, um quartinho bem pequeno, quase um armário de alvenaria, servia para guardar outros instrumentos. Nesse mesmo lado da sala havia uma grade que separava uma espécie de porão, que abrigava materiais que pareciam pertencer à paróquia. No meio da sala, existiam duas pilastras e dois bancos de alvenaria paralelamente posicionados.
A decoração e os móveis eram cerca de vinte cadeiras de braço, tipo escolar, de madeira, algumas quebradas, um armário de metal, que também parecia ser utilizado pela paróquia e uma imagem do sagrado coração de Jesus.
- O dia-a-dia na Nossa Casa
A unidade Nossa Casa atendia crianças e jovens entre sete e dezoito anos, provenientes do Aglomerado da Serra, principalmente da Vila Fazendinha, e o critério de seleção era a ordem das inscrições.
A unidade se distinguia das outras com relação à quantidade de oficinas oferecidas. Eram ofertadas, ao todo, oito oficinas diferentes, distribuídas pelos cinco dias da semana, de segunda a sexta, nos turnos da manhã e tarde, sendo três oficinas por turno, exceto nas sextas feiras, com duas oficinas por turno. A maior parte delas ocorria duas vezes por semana, em dias alternados, com duração de uma hora e vinte minutos. Quatro delas eram de música. Uma direcionada ao canto
coletivo; outra de percussão; a de construção de instrumentos; e a única que só era ofertada nas sextas feiras, envolvendo instrumentos variados, como teclado, percussão, violão e flautas doces. As demais eram: dança contemporânea; dança de rua; capoeira; e artes visuais. Havia uma grande liberdade dos educandos para escolherem quais pretendiam freqüentar.
A diversidade e quantidade de oficinas oferecidas pela Nossa Casa se, por um lado, propiciava aos educandos um contato mais amplo com o fazer artístico, por outro, gerava um custo ainda maior para a ONG e sua pertinência havia sido, inclusive, questionada pela coordenação geral, em uma das reuniões em que eu estava presente, ainda mais pelo fato de que, no segundo semestre de 2008, apenas setenta e oito, das cem vagas oferecidas, estavam preenchidas. A mesma explicação dada pelo Mateus, coordenador de unidade do Centro Cultural, para as vagas ociosas na sua unidade, podia ser aplicada à Nossa Casa, no que dizia respeito a grande quantidade de projetos sociais que atendiam àquela comunidade. O Centro Cultural era, inclusive, relativamente próximo à unidade Nossa Casa, que era muito próxima de um outro espaço onde ocorriam oficinas do Corpo Cidadão em uma escola pública municipal, todas no Aglomerado da Serra.
A liberdade de escolher oficinas não significava, entretanto, que os educandos podiam circular pelas oficinas nos horários que bem entendessem. No início do ano eles recebiam uma ficha de inscrição e optavam por quais oficinas pretendiam participar. Para as oficinas oferecidas de segunda a quinta, cada um deveria escolher duas, dentre as três oferecidas por turno. Nas sextas, era possível optar pelas duas ou apenas uma. Quando preenchiam a ficha, os educandos se comprometiam a experimentar as oficinas escolhidas pelo período de trinta dias, após o qual podiam fazer nova opção, mas que, em princípio, deveriam seguir até o fim do ano.
As variadas possibilidades de escolha e a proximidade da comunidade atendida conferiam à Nossa Casa uma outra característica peculiar. Nem todos os educandos cumpriam a mesma rotina. Nem todos passavam todo o turno na unidade e nem todos freqüentam o projeto os cinco dias da semana. Alguns iam dois dias, outros apenas em uma ou duas oficinas.
De qualquer forma, existia um procedimento de rotina. Uma refeição, lanche ou almoço, era oferecida no início de cada turno e, logo após, todos seguiam para as respectivas oficinas. Ao contrário do que ocorria nas outras unidades, a roda na
Nossa Casa acontecia no final do turno e, além de ser um espaço para o encontro de todos, conversas, resolução de questões do cotidiano e avisos, tinha a finalidade de avaliar o dia de trabalho.
Além dos trabalhos nas oficinas, aconteciam também atividades extras. O dia de lazer, no qual, ao invés das oficinas, ocorriam brincadeiras entre educandos e educadores e tempo livre para outras atividades, acontecia uma vez por mês. Outra atividade fixa, que, segundo me informaram o Ricardo, professor de capoeira e a coordenadora Pricila, contava com uma participação efetiva dos educandos e da comunidade era a roda mensal de capoeira.
Foto 11: Roda de Capoeira na Nossa Casa