1. Innledning
2.2 Materiale
Para os propósitos deste estudo, buscava-se uma estratégia metodológica que contribuísse na verificação da repercussão dos enunciados especializados sobre gravidez na adolescência entre as próprias adolescentes que engravidam. A noção de enunciado discursivo com a qual trabalhamos é foucaultiana e busca
explicitar a íntima relação do discurso com o poder, com a verdade e com o sujeito. Ou, em outras palavras, a “fixação em saber a verdade do sujeito, em constituir os sujeitos como o lugar da verdade, em construir para todos e cada um de nós discursos verdadeiros” (FISCHER, 2001, p. 201).
Segundo Paul Veyne (2011), o discurso é o modo de atingir, de apreender uma coisa, já que não temos acesso a ela, como verdade, diretamente. Só atingimos uma coisa por meio da ideia que dela formamos a cada época. A noção foucaultiana do discurso consiste, então, em “trabalhar a verdade no tempo” (p. 25), verdade que se reduz a “um dizer verdadeiro, a falar de maneira conforme ao que se admite ser verdadeiro e que fará sorrir um século mais tarde” (p. 25). Entendemos que a construção da gravidez na adolescência como problema social é também uma verdade construída no tempo e apreendida por meio dos discursos que se constroem a seu respeito. Compreender o acontecimento discursivo é identificar também as condições de possibilidade do aparecimento dessa “verdade” na contemporaneidade.
Nessa perspectiva, buscavam-se métodos que permitissem apreender para descrever os enunciados discursivos sobre a gravidez na adolescência, proferidos por jovens grávidas/mães. Mais do que analisar e interpretar a experiência dessas adolescentes, buscamos descrever o que dizem, com o interesse de identificar enunciados recorrentes nas falas das diferentes entrevistadas e de compreender “como aconteceu que somente tais enunciados tenham existido e não outros” (CASTRO, 2009, p. 136).
A descrição não consiste, pois, a propósito de um enunciado, em reconhecer o não-dito cujo lugar ele ocupa; nem como podemos reduzi-lo a um texto silencioso e comum; mas, pelo contrário, que posição singular ocupa, que ramificações no sistema das formações permitem demarcar sua localização, como ele se isola na dispersão geral dos enunciados (FOUCAULT, 2010, p. 136).
O enunciado é compreendido ainda como “coisas que se transmitem e se conservam, que têm um valor, e das quais procuramos apropriar-nos; que repetimos, reproduzimos e transformamos” (FOUCAULT, 2010, p. 134). Para o autor, o enunciado deve ser analisado em sua “modéstia empírica”, não o tratando como vestígio de outra coisa, de coisa reduzida ao silêncio ou oculta. Da mesma forma, não se busca uma subjetividade soberana de quem fala nem a interioridade
de uma intenção, mas sua exterioridade, na sua “incidência de acontecimento”.
Essa tarefa supõe que o campo dos enunciados não seja descrito como 'tradução' de operações ou de processos que se desenrolam em algum outro lugar (no pensamento dos homens, em sua consciência ou em seu inconsciente, na esfera das constituições transcendentais); mas que seja aceito, em sua modéstia empírica, como local de acontecimentos, de regularidades, de relacionamentos, de modificações determinadas, de transformações sistemáticas; em suma, que seja tratado não como resultado ou vestígio de outra coisa, mas como um domínio prático que é autônomo (apesar de dependente) e que se pode descrever em seu próprio nível (se bem que seja preciso articulá-lo como algo que não seja ele). (FOUCAULT, 2010, p. 138).
Dessa forma, descrever os enunciados proferidos pelas adolescentes significa, em termos foucaultianos, “definir um sistema limitado de presenças” (FOUCAULT, 2010, p. 135). Para Foucault, enquanto a história do pensamento busca encontrar, “para além dos enunciados ou a partir deles, a intenção do sujeito falante, suas aditividades conscientes ou inconscientes […], a análise arqueológica não os remete a uma instância fundadora, mas apenas a outros enunciados para mostrar suas correlações, suas exclusões (CASTRO, 2009, p. 136). O enunciado, para Foucault, não é considerado como um objeto da análise linguística, mas sempre a partir de suas condições de existência, na medida em que “nem tudo é sempre dito em relação ao que poderia ser enunciado”, existindo uma espécie de déficit dos enunciados. Esse “não preenchimento do campo das formulações possíveis” é entendido pelo autor a partir do princípio de rarefação dos enunciados. Ou seja, “a partir da gramática e do tesouro vocabular de que se dispõe em dada época, relativamente poucas coisas são ditas em suma” (CASTRO, 2009, p.135).
A ideia de rarefação dos enunciados, ou seja, o seu caráter deficitário, coloca como tarefa buscar as regras e relações que permitem o aparecimento, a sustentação, a repetição, a posição singular de um enunciado, já que cada enunciado pertence a jogos de verdade específicos. Esses enunciados circulam em diferentes textos, práticas e instituições.
O recurso à ideia foucaultiana de discurso propõe, ainda, o abandono de uma busca incessante pela origem ou pelo sentido não revelado no dito, o que condenaria “a análise histórica do discurso a ser busca e repetição de uma origem que escapa a toda determinação histórica” ou a ser “interpretação ou escuta de um já-dito que seria, ao mesmo tempo, um não dito” (FOUCAULT, 2010, p. 28). Em vez disso, Foucault sugere pensar em acontecimentos discursivos, liberando-se do tema
da continuidade ou da unidade discursiva e assumindo os enunciados discursivos como uma “população de acontecimentos dispersos” (p. 24).
É preciso estar pronto para acolher cada momento do discurso em sua irrupção de acontecimentos, nessa pontualidade em que aparece e nessa dispersão temporal que lhe permite ser repetido, sabido, esquecido, transformado, apagado até nos menores traços, escondido bem longe de todos os olhares, na poeira dos livros. Não é preciso remeter o discurso à longínqua presença da origem; é preciso tratá-lo no jogo de sua instância (FOUCAULT, 2010, p. 28).
Ao analisar o discurso numa perspectiva foucaultiana, busca-se ater-se ao dito, o que significa que não nos fixaremos nem às regras sob as quais um enunciado foi construído, como quer uma análise da língua, nem à procura do que “se dizia no que estava dito”, como quer uma análise interpretativa do pensamento. A perspectiva de analisar o discurso no seu aparecimento, na superfície, no modo como é enunciado, propõe uma questão que não interroga seu sentido, mas sua regularidade e sua possibilidade de emergência: “como apareceu um determinado enunciado, e não outro em seu lugar?” (FOUCAULT, 2010, p. 30-31). Trata-se de
compreender o enunciado na estreiteza e singularidade de sua situação; de determinar as condições de sua existência, de fixar seus limites da forma mais justa, de estabelecer suas correlações com os outros enunciados a que pode estar ligado, de mostrar que outras formas de enunciação exclui (FOUCAULT, 2010, p. 31).
A atenção às coisas ditas, como ditas, no acontecimento de serem ditas, constitui boa parte da análise foucaultiana do discurso. Para o autor, o que há de inquietante no discurso se refere justamente à “sua realidade material de coisa pronunciada ou escrita” (FOUCAULT, 1996, p. 7). E é nessa realidade material que incidem os mecanismos de controle da produção do discurso, sua interdição, que determina o que pode ser dito e por quem. Essas interdições põem em evidência que “o discurso sempre se produz em razão de relações de poder” (FISCHER, 2001, p. 199) e é ele mesmo objeto de disputa, na “sua ligação com o desejo e com o poder (p. 10)”. Ademais, na sua relação com o poder, as práticas discursivas se exercem, tomam corpo em técnicas, instituições, prescrições que as impõem e as mantêm.
O uso da noção foucaultiana de discurso é central e complementar aos demais conceitos e às demais perspectivas apresentados até aqui. Ela nos permite
tratar a construção da gravidez na adolescência no modo de um problema social como discurso, não no sentido de algo falado apenas, mas como algo presente em práticas, prescrições, instituições. Possibilita, ainda, buscar no acontecimento desses enunciados discursivos, em seu aparecimento, as condições de possibilidade de emergência da gravidez na adolescência como problema social contemporâneo. Além de compreender os discursos sobre a gravidez na adolescência – assim como os discursos sobre a maternidade e sobre a adolescência – como um modo de ligar o sujeito à verdade, dotar o indivíduo de discursos verdadeiros sobre si, discursos que possam nortear seu comportamento e sua relação consigo mesmo (FISCHER, 2001).