O projeto para o edifício-sede do Banco Citibank em São Paulo - edifício Citicorp Center - foi escolhido por sua presença importante no cenário da Arquitetura Paulista e por ter um ambiente interno projetado com as características de interesse deste estudo.
De autoria do escritório Croce, Alalo & Gasperini Arquitetos em 1983, está lo- calizado na Av. Paulista 1111, tendo sua construção inalizada em 1987. O projeto de interiores foi desenvolvido pelo arquiteto Roberto Loeb.
Figura 34: Citicorp na Av. Paulista - São Paulo. Fonte: acervo do escritório Alalo & Gasperini Arquitetos. Acessado em fev 2015.
O Citibank - à época o maior banco privado do mundo e maior credor priva- do do Brasil no exterior27, precisava de uma localização privilegiada na cidade de
São Paulo, importante centro econômico da América Latina28, para implantar sua
nova sede.
Este banco começou a operar no Brasil em 1915, com sede no Rio de Janeiro. Então, na década de 1980, com os bons resultados da economia brasileira acumula- dos até a década de 1970, seus diretores decidiram instalar-se em São Paulo. Esco- lheram a Av. Paulista, pela então já consagrada vocação da avenida, como represen- tativa de um mercado empresarial de destaque.
Contrataram Croce, Alalo & Gasperini Arquitetos para um projeto que se tor- nasse marco de referência na região, que se destacasse da paisagem, fosse reco- nhecido com facilidade, além de fazer uso de tecnologia avançada. Disse em 1986 Markus Burgler, suíço, há 12 anos no Brasil, então vice-presidente do Citibank:
Queriamos um prédio que tivesse uma postura especial em relação à Av. Paulista e al. Santos, não se fechando em si mesmo mas, pelo contrário, se abrindo para estas ruas. Não queriamos apenas um edi- fício comercial, mas um conjunto harmônico entre a agência do banco (no nível da Paulista), a torre (o prédio em si) e além disso encaixar o prédio da melhor maneira em relação aos prédios vizinhos. Para isso ser possível, analisamos não só o nosso terreno, mas também os ter- renos vizinhos. (http://acervo.folha.com.br/fsp/1986/04/27/2)
É ainda hoje um dos marcos arquitetônicos da Av. Paulista, considerado como representante do Pós-Modernismo dos anos 1980, além de inovador no sistema construtivo - a grelha estrutural - no sistema de ixação da fachada, automação, ar- condicionado e implantação no lote.
27 - segundo jornal Folha de São Paulo, edição de 27 abril 1986 , pag 01 e 02.
28 - A Av. Paulista a partir de 1962 - com a revogação da lei que a deinia como estritamente residencial - passa a receber empreendimentos para os setor terciário inanceiro; os bancos multinacionais começam a ocupá-la. Entre 1971 a 1973 a avenida passa por reformas para tornar-se referência de modernidade. (Amaral, 1995, cap 3.8)
Figuras 35 e 36: planta pavimento-tipo e último pavimento, com mobiliário. Fonte: acervo do es- critório Alalo & Gasperini Arquitetos. Acessado em fev 2015.
A análise da planta do edifício mostra o “core” de serviços (ou núcleo de circula- ção vertical e apoio) localizado dentro da pavimento-tipo, encostando em um dos la- dos. Conformação pouco recorrente na década de 1980, sinalizando o projeto como inovador já em seu desenho de planta, como mostra na igura 38 a tabela resumo do artigo cientíico de Pisani e Figueiredo, que analisou as plantas-tipo de 115 edifícios de escritórios em São Paulo, no período 1979 a 2010:
Figura 37: planta do pavimento-tipo. Fonte: http://alalogasperini.com.br/?portfolio=citicorp-cen- ter. Acessado em 20 mai 14
Figura 38: tabela resumo do artigo cientíico Maria Augusta Pisani, Erica De Figueiredo. Fonte: http://www.lares.org.br/2011/images/554-792-1-RV.pdf. Acessado em 05 abr 14
O edifício Citicorp Center está inserido na tipologia B da tabela resumo, com a seguinte deinição: “Tipo B - aqueles edifícios cujo core esteja localizado dentro da área da planta tipo, encostado em um dos lados” 29.
Com a arquitetura deinida, em 1983 foi iniciado o projeto de interiores, desen- volvido em cerca de dois anos. As estações de trabalho foram dimensionadas para o melhor aproveitamento do espaço da laje, tendo o arquiteto Roberto Loeb e equipe desenvolvidos cerca de 25 opções de ocupação por pavimento-tipo. Para encontrar o conceito e as soluções do projeto - compatíveis com os objetivos e a imagem cor- porativa da empresa, além da atenção às características arquitetônicas do edifício - trabalharam em conjunto consultores, arquitetos do Citibank do Brasil e de New York e o escritório da arquitetura. Além de, conforme Roberto Loeb: “sempre de olho na informatização do escritório do futuro” 30
Figuras 39 e 40: maquetes dos ambientes com seu mo- biliário, para veriicação do projeto de interiores. Fonte: acervo do escritório Alalo & Gasperini Arquitetos. Acessado em fev 2015.
29 - In Edifícios de escritórios em São Paulo: tipologias de 1979 a 2010, pag 3. 30 - In Revista Design & Interiores n.8 mai-jun 1988, pág.74.
Figura 41: vista do pavimento me- zanino construído. Fonte: acervo do escritório Alalo & Gasperini Arquitetos. Acessado em fev 2015.
Figura 42 e 43: vista da área do refeitório: em maquete e à época da implantação. Fonte: acervo do escritório Alalo & Gasperini Arquitetos. Acessado em fev 2015.
Figuras 44 e 45: ocupação dos pavimentos-tipo. Fonte: revista Design & Interiores 08, mai-jun 1988, pág.78.
Figura 46: vista do pavimentos-tipo. Fonte: revista Design & Interiores 08, mai-jun 1988, pág.76.
Foi a lexibilidade - dos sistemas de divisórias e mobiliário - a resposta à dinâ- mica de mudanças no processo de trabalho do banco: quadro de funcionários e de- partamentos. A estrutura organizacional da empresa icou implícita no projeto e na montagem de móveis e divisórias, como disse Loeb: “… que se preserva através de modiicações como um organismo vivo que constantemente se reajusta e recompõe.”31
Para o desenvolvimento do mobiliário e divisórias, foram selecionadas preli- minarmente nove empresas especializadas em móveis para escritório, que criaram protótipos com as premissas do projeto, adequados às suas linhas de produção in- dustrial. Critérios de análise avaliando qualidade e rapidez e grau de diiculdade na montagem foram estabelecidos, concluindo a seleção de três empresas para a exe- cução do projeto: Oca32 para móveis e divisórias baixas, L’Atelier33 para divisórias
piso-teto e Girolex34 para cadeiras.
O esquema cromático dos ambientes foi estudado com maquetes, pretendendo arranjos sóbrios embora diferenciados e inovadores. Optaram por seguir a arquitetura do edifício pelas fachadas: granito rosa e vidro azul - variações do magenta e do azul - sugeriram a relação entre o exterior e o interior do edifício.
31 - In Revista Design & Interiores n.8 mai-jun 1988, pág.75.
32 - Fabricante brasileira de mobiliário, fundada no Rio de Janeiro em 1955 pelo arquiteto Sergio Rodrigues (http:// institutosergiorodrigues.com.br/Biograia/12/Oca-uma-loja-revolucionaria).
33 - Fabricante brasileira de mobiliário, fundada em São Paulo em 1952 pelo arquiteto polonês Jorge Zalszupin. (http://www. etelinteriores.com.br/designers_ind.php?tipo=Designer&id_artista=11).
34 - Fundada em 16 de agosto de 1951, foi a primeira empresa no Brasil a fabricar cadeiras giratórias e ajustáveis para escritório, com mecanismo de regulagem com knowhow suíço. (https://www.unglobalcompact.org/system/ attachments/14237/original/GlobalP2012.pdf?1330110912).
Figura 47 e 48: composição cromática de mobiliário e divisórias. Fonte: revista Design & Interiores 08, mai-jun 1988, pág.76
Figura 49: vista do pavimentos-tipo, à época da implantação do projeto de interiores. Fonte: acervo do escritório Alalo & Gasperini Arquitetos. Acessado em fev 2015
A composição das divisórias dos ambientes resgatou em sua geometria e volu- me a retícula estrutural das fachadas, caracterizando assim a identidade do projeto ao edifício, seu lugar de implantação.
Figura 50: corredor e salas fechadas: composição cromática diferenciada de mobiliário, piso e paredes. Fonte: acervo do escritório Alalo & Gasperini Arquitetos. Acessado em fev 2015.
O sistema de divisórias piso-teto e baixas seguiu a mesma composição. Em tecido ou quadriculado de madeira, fecham por completo a visão do pavimento ou eventualmente interrompem visualmente a paisagem. “Sem esse recurso, a paisa- gem poderia parecer excessivamente uniforme.”35, pondera Loeb.
Juntamente com a empresa L’Atelier36 - responsável pela fabricação e monta-
gem das divisórias e mobiliário, diversos estudos de composição do sistema foram desenvolvidos por pavimento, buscando maximizar o aproveitamento da laje e otimi- zar as relações funcionais do Banco.
Divisórias piso-teto, altas e baixas criaram ambientes de escritório panorâmico territorial misto, fechando totalmente alguns espaços e, ao lado intercalando esta- ções de trabalho parcialmente fechadas à meia-altura e outras, com visual total do ambiente.
Figura 51: sistema de mobiliário L’Atelier com divisórias a meia altura e panorâmicas. Fonte: acervo do escritório Alalo & Gasperini Arquitetos.
35 - In Revista Design & Interiores n.8 mai-jun 1988, pág.75.
36 - A l’atelier iniciou suas atividades em 23 de fevereiro de 1959, fabricando móveis residenciais e para escritórios. A partir de 1970 especializou-se e passou a desenvolver produtos - em escala industrial - destinados ao segmento de escritórios, formando uma das mais completas coleções de mobiliário do mercado. (http://www.latelier.com.br)
Figura 52: sistema de mobiliário L’Atelier com divisórias a meia altura e panorâmicas. Fonte: acervo do escritório Alalo & Gasperini Arquitetos.
O mobiliário utilizou o sistema modulado das estações de trabalho, credenzas, mesas laterais, painéis e divisórias baixas, possibilitando diversas alternativas de ins- talação com manutenção simples. Esta proposta foi semelhante ao sistema Action Oice de Prospt, protagonizando em São Paulo a proposta de organização espacial das empresas com o escritório panorâmico, idealizado pelo Quickborner Team.
Figura 53: auditório: composição cromática diferenciada de mobiliário, piso e paredes. Fonte: acervo do escritório Alalo & Gasperini Arquitetos. Acessado em fev 2015.
A sede do Banco Citibank foi implantada numa avenida preparada para ser sede e representante do desenvolvimento econômico brasileiro - num período de crise e ainda regime militar dos anos 1980. Além disso, coincidiu com a intenção das em- presas multinacionais de se expandirem pelo mundo, quando “procuravam recuperar graus de produtividade perdidos durante a crise que destituiu o modelo de desenvol- vimento fordista de trabalho.” (Amaral, 1995).
Desta forma, o projeto de Croce, Alalo & Gasperini atendeu de forma inovadora as necessidades de implantação dos escritórios panorâmicos: planta livre, grande metragem quadrada por pavimento, pé-direito alto para instalação de ar-condiciona- do e proteção contra-incêndio, ambientes coletivos de refeitório e estacionamento.
O projeto de interiores de Roberto Loeb esteve atento às oscilações que o merca- do apresentava na época, um dos períodos mais instáveis para a economia do país37:
O layout de interiores passou por várias etapas, desde a leitura do projeto arquitetônico de Gasperini, à deinição formal e ao levanta- mento de dados fornecido pelo Citibank, até a deinição funcional do espaço. (Loeb, 1987)38.
Figura 54: croqui do sistema de mobiliário. Fonte: acervo do escritório Alalo & Gasperini Arquitetos.
37 - In Sampaio, 2003, pag 77.
4.2. Escritórios do Centro Administrativo da Philips, em São Paulo, 1989