André é negro, tinha 26 anos no momento da entrevista, e é o mais velho de uma fratria de 8 irmãos. Nasceu em Araçuaí, Minas Gerais, no Vale do Jequitinhonha, cidade próxima à Diamantina. Desde que sua família deixou o interior, há 23 anos, aproximadamente, ele instalou-se em Pedro Leopoldo, cidade integrante da região metropolitana de Belo Horizonte; ou, mais especificamente, num distrito dessa cidade.
É filho de um trabalhador manual não especializado, analfabeto; atualmente seu pai trabalha para uma rede de açougues da mesma cidade onde mora e se ocupa basicamente do abate de animais e de sua distribuição nos açougues da rede. Sua mãe, que estudou até à 2ª série do ensino fundamental, na roça, cuida dos afazeres domésticos e nunca exerceu outra atividade que não fosse essa. A casa, de propriedade da família, é simples, localiza-se bem próximo ao matadouro onde Seu Otávio trabalha, numa rua denominada de “beco”. Essa rua desemboca no Ribeirão da Mata, um pequeno rio que corta a cidade de Pedro Leopoldo. Sobre sua casa, D. Sílvia faz o seguinte comentário:
“Nós morô lá naquela casa de baixo, perto do matadô; daí, nós passô praqui, né? [O patrão] arrumô dinheiro pra ele e nós comprô aqui. Isso daqui é nosso. Aqui era uma barraquinho. Aí ele foi construino aos pouco, aos pouco, até ficá do jeito que tá. Essa casa era baixinha... era nessa cinta branca aí [ela aponta para uma marca na parede]. Aí ele arrumô o teiado... essa casa foi arrumada umas treis veis. Isso aqui melhorô muito de situação”.
Em Araçuaí, eles moravam na roça. Antes de migrar para Pedro Leopoldo, Seu Otávio trabalhou por uns 10 anos na Prefeitura daquela cidade, em serviços de calçamento de rua e instalação de rede elétrica, inclusive na região rural. Os irmãos de Seu Otávio é que migraram primeiro, arrumando “colocação” de trabalho para que ele viesse em seguida. Para D. Sílvia, a época em que viveram em Araçuaí “era apertado
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demais”. André, o único que chegou a estudar lá, ia todo dia a pé para a escola, porque esta ficava muito distante de onde moravam.
D. Sílvia e Seu Otávio consideram a saída de Araçuaí, como inauguração de um momento novo na vida da família, no sentido de que ele foi propiciador de melhores
condições materias de vida: “O trabaio [lá] não vale como aqui... trabaiava, trabaiava, não
saia nada”. O pai de André diz que teve “sorte”, ao encontrar empregos “fichados” quando veio para Pedro Leopoldo. Inicialmente trabalhou 8 anos na PRECON, indústria de pré- moldados; em seguida, esteve simultâneamente nessa empresa, de 5 às 15h, e em matadouros, na parte da tarde, até que passou a trabalhar exclusivamente nos matadouros.
No entanto, os momentos de transição foram também muito difíceis. Uma irmã de D. Sílvia, Valentina, é que, na época, ajudou muito nas despesas com material escolar, com roupa e mesmo com alimentação, ainda que menos nesse último ítem. Seu Otávio assim descreve o processo de mudança que a vinda para Pedro Leopoldo provocou na vida da família:
“(...) aí que eu fui equilibrano; ambientei, tive crédito, fui se ajeitano e tamo aí... Não temos nada, mas veve mais ou menos. De pobre, nós veve tranquilo, graças a Deus. Só não tem uma boa vida, como se diz. Mas não foi fácil pra nós, quando nós chegô aqui. (...) A Valentina dava calçado pros menino, trazia roupinha, ajudava muito. Sobre o estudo, eles lá vão pelas perna deles. Eu nunca pude pagá o estudo. Algum caderno, trocadinho pra passage... essas coisa. Mas o forte mesmo, que é a faculdade, eles tão pagano”.
Quanto a uma possível necessidade de ajuda dos filhos na manutenção da casa, Seu Otávio argumenta:
“Não contamo com o dinheiro deles não. André ainda paga a conta de luz; ele ganha bem. Mas nunca exigí dinheiro dele pra pagá nada, não. Eu gosto que eles veste bem, anda asseado. Porisso que eu não preocupo com o dinheiro deles; com o pouco que eu ganho, eu cuido da casa. Eu não posso pagá o estudo e nem dá eles roupa; aí eu deixo pra eles se vestí e pagá o estudo deles”.
Grande parte da família ampliada de André, cujas raízes estão em Araçuaí, já não estão mais lá. Moram ainda lá na roça seus avós maternos, alguns tios maternos e parentes de seu pai. O pai de D. Sílvia estudou um pouco, provavelmente até à 4ª série da escola primária, e a mãe é analfabeta. Os pais de Seu Otávio são também analfabetos.
Pela maior proximidade com a história familiar e escolar de André e de seus irmãos, destaca-se, dentre os 10 irmãos de D. Sílvia, a tia Valentina. Segundo D. Sílvia, ela cursou até a 8ª série, é costureira e borda muito bem. Parece-nos, sem ter ficado muito claro, no entanto, que sua ocupação principal é de empregada doméstica. No entanto, outras duas tias maternas também foram muito citadas por D. Sílvia, mais como figuras que, na sua representação, “venceram na vida”. Uma trabalha como enfermeira em Belo Horizonte, e a outra, sendo também bordadeira e costureira, profissionalmente é empregada doméstica. Essa última foi referida por André como uma pessoa “cosmopolita”, uma vez que, sozinha, esteve vivendo um tempo em São Paulo.
D. Sílvia lamenta-se muito de ter levado uma vida diferente de suas irmãs, no sentido de não ter podido trabalhar fora de casa e, porisso não ter tido oportunidade de construir sua autonomia e de adquirir conforto material; lamenta-se, sobretudo, de não ter estudado e, nesse aspecto, culpa enfaticamente seus pais por irresponsabilidade. Sendo a mais velha das mulheres, tinha que dar conta dos afazeres domésticos e ajudar a cuidar dos irmãos. Sua queixa é colocada da seguinte forma:
“Meus pai foram uns pai muito irresponsável tamém. Eles não ligava pra esse negócio de estudo, não. Ah! estudá, pra quê? Mulhé estudada não vale nada... home é que precisa estudá... (...) As mais nova sempre estudou... eu fiquei dentro de casa, quando eu fui estudá, eu não tinha mais idade... então parei tamém... já tava muito grande. (...) As mais nova... ficou nas casa dos outro tamém... elas trabaiava assim... empregada pra oiá menino e estudava tamém. Eu fiquei dentro de casa, cuidano dos meu irmão, não tive tempo pra estudá”.