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A proximidade do cavalo-marinho com os artistas profissionais e com o mercado cultural tem contribuído para o surgimento de mudanças nas concepções musicais desse folguedo. Se até então a música limitava-se aos seus usos e funções dentro da brincadeira, a partir dessa nova realidade ela passa a ser encarada pelos brincadores como um instrumento de projeção artística.

É o caso de Totó, que inicialmente tinha como principal referência musical o seu avô, mas depois começou a encontrar outros referenciais no cavalo-marinho, sobretudo os músicos que passaram a gozar de uma popularidade artística, tornando-se conhecidos no meio musical de Pernambuco.

Os músicos que depois eu comecei a ter como referência foram Luiz Paixão, Cláudio Rabeca e Maciel Salú. Eu botava os CDs deles no computador e ia escutando, ia pegando as músicas [...] Eles se tornaram referência pra mim porque são bons e por que já têm um nome na praça (Totó, entrevista concedida ao autor em Condado, 09.03.2014).

Diferentemente do mestre Antônio Teles, músico de cavalo-marinho que obteve reconhecimento na sua região e comunidade de origem, Totó sonha em continuar músico de cavalo-marinho como seu avô, mas também cultiva o desejo de obter um reconhecimento mais amplo, como ocorreu com seus novos referenciais e, assim como estes, tomou como primeiro passo a criação de um nome artístico, passando a ser chamado de “Totó da Rabeca”.

Se o seu avô não teve acesso aos recursos tecnológicos e aos modernos meios de comunicação, Totó já os utiliza no seu empreendimento artístico. Ele montou um pequeno studio de gravação em seu quarto com um programa de computador para criar suas composições autorais, disponibilizá-las no SoundCloud85 e postá-las nas redes sociais. Além disso, ele tem interesse de produzir um CD como forma alternativa de divulgar suas composições musicais.

[...] Eu quero um dia poder fazer um showzinho, gravar um CD... Eu já tenho umas músicas [autorais] no grau86 já... Eu fico no meu quarto, e vou pro

computador, vejo umas imagens e daquelas imagens eu vou criando as letras pra formar poemas, e os poemas já vão se transformando em música [...] Tenho três músicas, mas acho que em 2015 já vou gravar um CD caseiro pra divulgar pro pessoal. Quero continuar tocando no cavalo-marinho, mas não

85 O SoundCloud é uma plataforma online utilizada por músicos para publicação de áudios, sendo

muito útil para compartilhar, disponibilizar e divulgar composições musicais.

ficar só naquilo. Acho que tenho muita coisa pra botar pra frente (Totó, entrevista concedida ao autor em Condado, 09.03.2014).

Juntamente com outros jovens que fazem parte do cavalo-marinho, Totó também idealizou a formação de grupos musicais, tendo sempre ao centro o seu instrumento: a rabeca. É o caso do grupo de forró Rabequinha Gemedeira, que chegou a realizar shows nas festas de prefeitura das cidades da zona da mata norte de Pernambuco, e vem buscando “seu espaço”. Ainda “no papel” estão os grupos Coco Rabecado e Rabequinha Eletrizada. O primeiro destinado a fazer o repertório de coco, e o segundo voltado ao repertório da “música de massa”.

Muitas foram as ocasiões em que estive em Condado e presenciei Totó gravando e editando suas músicas no computador, ou mesmo com sua rabeca dirigindo os ensaios de um dos grupos por ele idealizado.

Esse quadro remete à perspectiva adotada pelo etnomusicólogo africano Kazadi wa Mukuna em seu estudo sobre a música Bantu do Congo. Através do conceito de “mutação”, ele afirma que a mudança musical ocorre inicialmente no campo conceitual, podendo ou não ser acompanhada de alterações estruturais (MUKUNA, 2000, p. 181).

Torna-se evidente na vida de Totó o surgimento de novos valores e posicionamentos em relação à musica do cavalo-marinho, onde a manutenção e o respeito a uma “bagagem familiar” não excluem a possibilidade de se trilhar um caminho próprio.

Diante de um cenário marcado pela maior visibilidade das músicas tradicionais e de seus artistas populares, revela-se cada vez mais legítimo e natural a busca por uma diferenciação e notoriedade por parte de alguns brincadores de cavalo-marinho que se sentem seguros para adentrar em novos terrenos da música.

8.4.3 “Energia” e “resiliência” musical

A crescente inserção do cavalo-marinho no contexto urbano e na indústria cultural, em sua multiplicidade de relações, pode ser considerada “adaptações estratégicas”, cujos reflexos podem ser observados em novas práticas e concepções musicais por parte de seus agentes.

Essa realidade enquadra-se no que o etnomusicólogo norte-americano Jeff Titon chama de “resiliência musical” (2011), que consiste na capacidade de sobrevivência de determinadas culturas musicais a partir de “adequações” a um contexto de constantes mudanças, algo similar ao conceito de “energia musical” proposto por Nettl (2006, p. 16), em que mudanças e continuidades de estilo, repertório, tecnologia e aspectos sociais da música

são manipulados de maneira consciente ou inconsciente por uma sociedade como forma de “acomodação” diante de uma conjuntura dinâmica.

Essas duas formulações, provenientes das ciências naturais, ajustam-se perfeitamente à música. Se a energia é uma força necessária à manutenção de um sistema, a resiliência revela- se na capacidade que uma matéria tem de acumular energia durante uma tensão ou enfrentamento com algo externo, adaptando-se momentaneamente, mas sem perder a sua natureza.

A música é um sistema, uma matéria, um produto humano presente na vida e na memória de uma sociedade, sendo suas concepções e práticas sujeitas às necessidades e interesses de seus produtores, sempre obedecendo a um conjunto de valores, comportamentos e normas passíveis de ressignificação. Suas convenções, princípios e regras são transmitidos ao longo de gerações e legitimados pelo tempo, mas essa herança adquirida pode ser reelaborada quando colocada em ação diante das possibilidades e incertezas que a vida proporciona.

No cavalo-marinho, as mudanças nas práticas e concepções da música são necessárias para sua continuidade em um mundo globalizado, mas também constituem reivindicações de inclusão social e reconhecimento cultural, onde o “certo” e o “errado” em relação a essas mudanças é algo relativo e nem sempre coerente. Se essas transformações podem resultar em mudanças nos aspectos estruturais de seu repertório, apenas o futuro poderá trazer essa resposta. As decisões serão sempre conforme as necessidades e interesses dos criadores e herdeiros desse patrimônio musical.

8.5 Música folclórica ou música popular? O cavalo-marinho no limiar das