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as justificativas pedagógicas burguesas da produção capitalista

Em fins do século XVIII e início do século XIX, as condições materiais na Europa Ocidental encontram-se em fase de transformação de forma vertiginosa. A produção capitalista implanta-se na sociedade e, pioneiramente, na sociedade inglesa através do que se convencionou chamar de “Revolução

Industrial12”. Ao mesmo tempo, a sociedade industrial, burguesa e capitalista

consolida-se e traz consigo a idéia de progresso e de desenvolvimento.

O antigo regime, as instituições e as práticas econômicas mercantilistas rapidamente desestruturaram-se, seja através de movimentos revolucionários “de baixo para cima”, onde a participação popular havia sido decisiva (como a Revolução Francesa, de 1789), seja através de golpes militares, ditaduras e conciliação de classes impostas de “cima para baixo”, em que a emergente classe burguesa compunha-se como setores dos mais progressistas da antiga aristocracia, “(re) formulando” o poder em seu benefício. Em ambos os casos, no entanto, o princípio da democracia liberal está presente.

É dentro desse contexto que se compreende o surgimento de um conjunto de teorias econômicas que irão compor o que se convencionou chamar de economia política clássica. Esta tem como pressuposto o liberalismo econômico que, enquanto ideologia, melhor reflete as expectativas e aspirações da nova ordem burguesa e capitalista.

O antigo regime fora questionado com veemência por aqueles que formavam o embrião do pensamento da economia política clássica e acreditavam na existência de leis naturais que regem a dinâmica da economia, da liberdade de mercado, do individualismo econômico, da livre concorrência e da livre iniciativa13.

Por fim, as novas relações sociais de produção deviam ser definidas pela liberdade de contrato entre capital e trabalho, com base na negociação entre as partes e não mais subordinadas pelos regulamentos antigos das corporações de ofício.

Evidentemente, este “novo mundo feliz”, baseado no progresso e na liberdade de mercado, sonhado pela economia política, que procurou sistematizá-lo em bases científicas, encena em si uma contradição elementar, visto que, cada vez

12 Revolução Industrial – Expressão utilizada para designar o processo de transformações econômicas e sociais caracterizadas pela aceleração do processo produtivo e pela consolidação da produção capitalista.

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Hugon (1973: 107-10) analisa a importância dos “économistes” que eram teóricos fundamentados no racionalismo e radicalmente contrários a qualquer intervenção estatal na economia.Tinham como lema: “Laissez-faire, laissez-passes, le monde va de lui même”, ou seja, “Deixai fazer, deixai passar, o mundo vai por si mesmo”.

mais, a sociedade liberal burguesa capitalista e industrial dividia-se entre os capitalistas (detentores dos meios de produção) e proletários (expropriados dos meios de produção e obrigados a vender a sua força de trabalho, por uma questão de sobrevivência).

A formação da classe operária como classe é um fenômeno histórico novo para Hobsbawm (1988:03), inferindo que, certamente, sempre houve pessoas que trabalhavam e que eram a maioria, do mesmo modo que os pobres sempre constituíram a maioria das populações do mundo. A razão principal disso é que o capitalismo foi o primeiro modo de produção na história que criou uma massa crescente de seres humanos sem acesso aos meios de produção. Por tal motivo, estes homens foram obrigados a ganhar sua vida pelo trabalho assalariado, trabalhando para os que monopolizam esses meios de produção.

Com o surgimento de novas relações de produção manifestadas com a introdução da maquinaria no processo produtivo, revolucionam-se os métodos de organização do trabalho. A heterogestão, trazida pelo novo modo de produção que se iniciava, colabora para uma “revolução” também nas formas de educação para o trabalho, substituindo um longo aprendizado de ofício, por um aprendizado cada vez mais fragmentado. Para a ocorrência dessas transformações no nível de superestrutura, houve a grande contribuição dos economistas clássico-burgueses que teorizavam e sistematizavam sobre a racionalização do processo produtivo.

Uma contribuição muito valiosa foi fornecida por Adam Smith (1776) com a sua obra: A Investigação sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Nações, que formulou uma nova ciência: a Economia Política. Para o principal teórico da Escola Clássica, em linhas gerais, a riqueza de uma nação estava condicionada à capacidade que esta tinha em, respeitando a plena liberdade de mercado, estimular a produtividade e a energia criadora do trabalho do homem.

É importante salientar, Smith vivia numa época em que o nascente capitalismo industrial dava os seus primeiros passos. Os novos empresários e empreendedores eram motivados para a acumulação de capitais e estes contavam agora com um respaldo científico para implementar os interesses econômicos da

burguesia inglesa no final do século XIX.

No mesmo período, na Inglaterra a taxa de mortalidade infantil era catastrófica14. A má distribuição da renda tinha como resultado a subnutrição, muitas doenças e as péssimas condições de vida e trabalho. Desta maneira, a sociedade era privada de parte considerável de sua capacidade produtiva.

Como afirmado, a teoria do valor-trabalho de Smith demonstra que a riqueza de uma nação depende principalmente do aumento da produtividade do trabalho decorrente do crescente grau de fragmentação da divisão do trabalho. O teórico deixa claro que a divisão do trabalho na sua origem “não é resultado da sabedoria humana, mas da tendência natural do homem de negociar e trocar uma coisa por outra”.

De acordo com Kuenzer (1986:26), Smith aprofunda a justificativa de que “o contrato, a compra ou a troca que permitem a obtenção dos produtos ou serviços necessários, não decorrem de atos de solidariedade, mas de uma necessidade natural de satisfazer os interesses individuais, o que provocou a divisão do trabalho”.

Smith considera que os principais avanços ocorridos no processo produtivo como aumento da destreza do trabalhador, a economia do tempo, a invenção de máquinas, dentre outras mudanças, deve ser creditada à divisão do trabalho. Da mesma forma, acredita que numa sociedade bem governada a riqueza universal pode ser estendida a toda a população e que o desempenho do trabalho dividido qualifica o trabalhador tornando-o mais produtivo.

Com os economistas clássico-burgueses introduz-se a racionalização no campo do trabalho, possibilitando o surgimento das obras de Taylor e Fayol no âmbito da teoria geral da administração, nas quais a divisão do trabalho desempenha um papel central e referenda a hierarquia, a especialização, a

14 De acordo com o autor, aproximadamente

, “metade das crianças inglesas morriam antes de completar quatro anos de idade em várias regiões do país. No país como um todo a metade das crianças só viviam até a idade de nove ou dez anos”. As razões para tal calamidade, evidentemente, estavam ligadas à questão da distribuição da renda (Heilbroner, 1959:49-51).

autoridade, o controle e o aumento de produtividade.

As propostas de Taylor, portanto, são direcionadas no sentido de aprofundar e aperfeiçoar o processo de divisão do trabalho, em especial, a separação entre as atividades de execução e as de concepção/planejamento, bem como de levar a fragmentação do trabalho ao seu limite máximo e de o tornar mais repetitivo. Com isso, o domínio e o conhecimento do trabalhador sobre o trabalho e o processo da produção vão diminuindo consideravelmente, perde-se cada vez mais o seu conhecimento global sobre o trabalho e executa-se um trabalho cada vez mais desqualificado. Conclui-se, portanto, que como mão-de-obra, o trabalhador tem a sua autonomia reduzida.

Além da desqualificação, Taylor sistematiza o aumento do controle da gerência sobre a mão-de-obra, a tal ponto, de definir o tempo de duração das operações executadas pelo trabalhador e de prescrever “como” e “com o que” ele vai realizar o trabalho. Determina, cientificamente e utilizando métodos e técnicas, a melhor maneira, os melhores instrumentos e o melhor trabalhador para desempenhar determinada tarefa. Previne que a direção das empresas reúna, selecione e sistematize os “estudos de tempos e movimentos” e, desde então, define a melhor forma de execução de cada operação.

A partir desses critérios, o trabalho deve ser dividido entre funcionários que sistematizam, elaboram e preparam o processo produtivo e aqueles que apenas executam o trabalho, seguindo exatamente padrões, normas e metas previamente definidas. Os responsáveis pelo planejamento, além de fragmentarem ao máximo o trabalho, desqualificam as tarefas executadas pelos trabalhadores, propõem uma divisão claramente discriminatória, separando os trabalhadores que “pensam” dos que “executam”, isto é, o trabalho manual do trabalho intelectual.

Taylor (1970) vai confirmar a heterogestão15 como um fundamento

15 A heterogestão define o conceito de controle do taylorismo, assume uma conotação de absoluta necessidade da gerência impor ao trabalhador a maneira mais rigorosa pela qual o trabalho deve ser executado, isto é, o trabalho de cada homem é planejado pela gerência que instrui por escrito acerca do que, como e em que tempo deve ser feito o trabalho. A gerência passa a ser científica, realiza estudos e coleta conhecimentos e informações relativas ao trabalho. O gerente tem o monopólio do saber sobre o trabalho e o poder para controlar o trabalhador (Kuenzer, 1986:30).

básico da organização capitalista do trabalho, subtraindo dos trabalhadores as possibilidades reais de pensá-lo, criá-lo e controlá-lo. Institucionaliza paralelamente uma “inovadora” forma de exploração do trabalho pelo capital, onde a posse do conhecimento passa a funcionar como uma força do capital em detrimento da expropriação do saber sobre o trabalho dos operários.

Fayol (1975) atenta que o exercício de cada função depende de um conjunto de habilidades próprias de cada trabalhador; infere que existem pessoas que nascem com aptidões para administrar, devendo apenas participar de uma adequada preparação, enquanto outras nascem para executar. Os princípios desenvolvidos por Fayol são utilizados na atualidade em diversas teorias da administração e encontram-se expressos nas análises que discutem a separação entre administrar (prever, organizar, coordenar, comandar e controlar) e executar.

Para Tratemberg (1974), o reconhecimento incondicional da teoria de Taylor está no fato dela apresentar um “caráter civilizador” e de ter compromissos inalienáveis com o capital industrial voltado para uma radical racionalização da produção. O Taylorismo no Brasil é ressaltado por alguns teóricos como a ideologia principal da empresa privada.

1.4 A crítica à história da (des) qualificação profissional e