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O empreendimento crítico nietzschiano presente em O nascimento ofereceu significativas contribuições a diversos campos do conhecimento. Neste trabalho, nosso esforço se constituiu, de forma precisa, em investigar a contribuição juvenil-nietzschiana para o âmbito da formação ao tematizarmos Bildung enquanto formação estética na obra O nascimento da tragédia (1872). O retorno à Grécia arcaica e o desvelamento da experiência com a arte trágica foi interpretado como iniciativa capaz de fazer frente aos processos epistemológico-formativos comuns ao projeto moderno, de forma que a experiência da arte tal como pretendeu o jovem Nietzsche pode configurar-se como formação para sensibilidade, na qual o estranhamento torna-se dimensão nuclear, configurando-se como abertura. Dessa forma, Bildung enquanto formação estética orienta ao universo infinito da arte, no qual, libertos dos conceitos e métodos diretivistas, o contato com o diferente e o plural configura-se como verdadeira experiência estética.

Ao assumir esse desafio, partimos do questionamento sobre a posição e a importância de Nietzsche para o debate desencadeado no contexto artístico, filosófico e literário alemão do século XIX a respeito da formação (Bildung). Com tal preocupação, atentou-se para a peculiaridade da crítica nietzschiana a respeito da formação em sua época, dando-se ênfase à posição que a arte ocupa no projeto filosófico nietzschiano. Toda essa preocupação mais ampla serviu de sustentação para que se pudesse tematizar O nascimento e os diversos problemas levantados na obra enquanto problemas de formação estética. Foi preciso, então, despertar para a pergunta sobre o que significou a Bildung em sentido conceitual e como projeto formativo para o ocidente. Partiu-se, então, da subterrânea relação que a Bildung mantém com a Paideia grega, sua matriz mística medieval, até a chegada ao ideal de Bildung enquanto formação que eleva à humanidade ou cultivo de si. Dessa forma, destacou-se a constante imbricação entre arte, universidade, filosofia, ciência, política e cultura na constante busca pelo sentido da formação durante o século XIX na Alemanha. Atentou-se para o fato de Nietzsche herdar desse contexto a preocupação com o sentido da formação, que, de forma peculiar, caracterizou-se pelo retorno aos gregos por outra via de acesso que não a então conhecida e difundida por sua época. Assim, aos ideais de liberdade, identidade e autonomia como resultados da formação, tão almejados pelo século XIX, somou força a tragicidade nietzschiana, que, ao romper com a imagem da Grécia antiga firmada pelo classicismo, chamou atenção à centralidade da vida, da finitude, destacando o lugar que a arte ocupa em tal contexto. Sugeriu, portanto, a descontinuidade com o projeto cultural do

classicismo e orientou à crítica ético-estético-epistemológica a todo o projeto moderno edificado a partir da crença absoluta na ciência e na filosofia do conceito.

Na segunda parte do trabalho foram apresentadas as concepções estéticas de Arthur Schopenhauer e Richard Wagner como fundamentos a partir dos quais Nietzsche pode discutir várias categorias e conceitos em O nascimento, principalmente no que se referiu à música. A relação entre fenômeno e vontade proposta por Schopenhauer e seu ideal de contemplação estética, estreitamente ligado à condição existencial, surgiu para o jovem Nietzsche como propícia oportunidade de diálogo, tanto pelo fato de o problema filosófico schopenhaueriano dedicar atenção à angústia existencial, como pelo fato de a música surgir como arte suprema capaz de conferir sentido à existência. Em Wagner, o jovem Nietzsche viu-se contemplado no ideal de redenção cultural por meio da música, em específico pelo drama musical wagneriano, que, além de reinterpretar o drama musical grego, vinculava-se à luta pelo renascimento do espírito alemão no século XIX. Da amizade travada com Wagner durante a juventude resultou, permeado pela metafísica do belo de Schopenhauer, o intenso debate que relacionou música e filosofia, e que, em nossa interpretação, manteve-se ligado à preocupação com a formação, à medida que manteve vivo o desejo de estabelecimento do ser alemão, o qual foi pensado como resultado da formação de um povo renascido no espírito da música.

Após a retomada do contexto histórico do debate sobre a formação no século XIX e em seguida a reconstrução da posição do jovem Nietzsche no contexto do debate estético desencadeado no mesmo período, foi tomada como objeto de análise e interpretação a obra O nascimento, para que, a partir daí, pudéssemos chegar à quarta parte do trabalho, no qual toda a problemática da obra em estudo pudesse ser interpretada como problema de formação. Dessa forma, se há neste estudo um interesse subjacente em, ajudado por Nietzsche, discutir possíveis sentidos para a formação, tal interesse precisou atentar para questões profundas que envolvem todo o pensamento nietzschiano. Isso diz respeito ao fato de, tradicionalmente, como o próprio autor declarou em momento posterior, a obra O nascimento ter se amparado em pressupostos metafísicos de matriz schopenhaueriana e wagneriana, embora transpareça claramente uma crítica à racionalidade, que tem como estereótipo a crítica dirigida a Sócrates e a Eurípides. Para este trabalho, foi determinante a ideia de que existem, já em O nascimento, descontinuidades em relação à tradição metafísica na qual se ampara, o que faz da obra um universo rico caracterizado pela crítica ao projeto moderno e pelo papel que a arte adquire em todo esse processo. Daí a pertinência da contribuição nietzschiana – que, inspirada pelo interesse em relação aos gregos – caracterizou sua época, orientou por outra via à Grécia

arcaica e à tragédia grega, pondo em foco a duplicidade do apolíneo e do dionisíaco no desenvolvimento da arte, questionando todas as especulações estéticas racionalistas e o interesse cientificista pela antiga Grécia.

Nesse contexto, O nascimento passou a ser interpretado como viragem ético-estético- epistemológica, uma vez que despertou para uma nova visão da arte que abriu mão da abstração conceitual e pôs em destaque o sentido simbólico da arte. Tal viragem se fez possível a partir do retorno à Grécia arcaica para dar atenção à tensão e à interdependência entre o universo artístico apolíneo e dionisíaco. Ao proceder dessa forma, o jovem Nietzsche imprimiu peculiaridade à compreensão do fenômeno artístico grego. O apolíneo e o dionisíaco foram tomados como manifestações fisiológicas e possibilitaram pensar a arte como afirmativa. Nesse contexto, o jovem filósofo desdobrou questões fundamentais da tragédia grega, desencadeando profícuo diálogo com sua época. Após a caracterização do apolíneo e do dionisíaco enquanto impulsos artísticos naturais, foi discutida a importância do fenômeno lírico que já em O nascimento apresenta rompimentos em relação à concepção que Schopenhauer tem deste. Para o jovem Nietzsche, o poeta lírico em sua origem mais remota é artista dionisíaco. Aqui se assinalou a mais natural relação entre música e palavra, pondo em destaque a condição originária da própria música, que firmou os fundamentos para a sustentação da tese juvenil-nietzschiana de que a tragédia nasceu do espírito da música.

O coro trágico foi apresentado, então, como o protofenômeno do qual surgiu a tragédia, o lugar por excelência onde se envolvem ânimos, disposições e cognições que permitem ao homem dionisíaco transmutar-se diante de si mesmo, tornando-se parte da natureza. Essa experiência define-se como a mais originária e natural experiência trágica de mundo do homem grego e a partir daí torna-se possível, segundo Nietzsche, a plausível interpretação do que veio a se tornar o coro na tragédia. Com a constituição do drama, o coro ditirâmbico possuiu como função principal excitar os ânimos dos ouvintes, elevando-os ao estado dionisíaco. Por isso foi necessário, da parte de Nietzsche, mostrar como, com Eurípides, o drama morre ao distanciar-se de Ésquilo e Sófocles, e principalmente por incorporar as exigências da dialética socrática. Toda essa concepção, além de mostrar à época nietzschiana algo ignorado pela ciência filológica, estruturou contundentes condições de crítica ao papel estabelecido à arte na modernidade. Por esse caminho foi possível tematizar a música como problema de racionalidade, uma vez que em O nascimento a obra de arte trágica dos gregos nasceu do espírito da música. Dessa forma, dá-se, a partir daí, a passagem pela crítica à ópera, à racionalidade socrática e a toda pretensão racionalista em arte, o que, dentre

outras coisas, vinculou o jovem Nietzsche ao desejo de renascimento do espírito alemão que já residia no drama musical wagneriano e na busca pelo sentido da Bildung em sua época.

Em sentido crítico, os problemas levantados pelo jovem Nietzsche em O nascimento permitiram tematizar Bildung enquanto formação estética. A obra em estudo foi tomada como problema de formação vinculado às forças de luta pela cultura, que, no caso específico de Nietzsche, significou a recusa aos processos formativos e culturais assumidos pela racionalidade iluminista. Nesse contexto, o vínculo nietzschiano ao debate sobre a Bildung que perpassou a Alemanha do século XVIII e principalmente o século XIX possibilitou outra via de interpretação sobre o sentido da formação. Dessa forma, o sentido produtivo de tais preocupações repousou em considerarmos que, enquanto formação estética, a Bildung trágica nietzschiana juvenil permitiu compreender o mundo justificado apenas como fenômeno estético. Nesse contexto, a vida foi colocada no centro das preocupações, de forma que a ótica da própria vida fez-se necessária para mirar a formação. Assim, Bildung enquanto formação estética orientou a viragem ético-estético-epistemológica fundamental, desdobrando-se, a parti daí, o processo desconstrutivo da moral para a possível afirmação da vida, que requereu consequentemente a arte posta como fundamento para a existência. Assim, justificou-se todo o valor que a Grécia trágica adquiriu como projeto formativo, posto que na condição de experiência formativa, a arte trágica fez frente às pretensões planificadoras da racionalidade moderna, apontando para o modo dinâmico da existência e a necessidade constante que o existir possuiu de sentido e abertura, o que só pode ser atingido pela experiência da arte.

Por fim, cabe aqui reafirmar a tese de que Bildung no jovem Nietzsche o é enquanto formação estética. A incorporação da dimensão estética na perspectiva formativa vincula-nos, portanto, aos enfrentamentos críticos de possibilidade de transformação ou ressignificação da Bildung via crítica nietzschiana. Tal preocupação caracteriza-se pelo esforço em tematizar problemas profundos da tradição que se movimentam da ética à epistemologia e que, no caso específico deste estudo, podem ser postos e repostos numa perspectiva estética, uma vez que a experiência da arte, tal como concebeu o jovem Nietzsche, põe em foco a própria vida a ponto da ótica desta se tornar o critério de entendimento do mundo, até mesmo daqueles problemas mais profundos dos quais se ocupam, a ciência, a ética, a epistemologia. Nesse sentido, a dimensão estética que perpassa O nascimento mantém-se produtiva para o debate sobre a Bildung na atualidade, ao passo que formação estética pode ser entendida enquanto abertura capaz de fazer frente a processos formativos estáticos e racionalizantes.