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Esta variável está relacionada com a jornada e os horários de trabalho, bem como com aspectos físicos do ambiente que podem interferir negativamente na saúde ou na integridade física do trabalhador. Procurou-se ouvir os professores sobre sua percepção qaunto a aspectos como iluminação, ventilação, ruído e temperatura dentro da sala de aula. As condições objetivas do trabalho docente, como a infra-estrutura oferecida e os recursos materiais disponibilizados também foram analisadas no âmbito dessa variável.

O escore geral de 3,08, apresentado pela amostra, indica moderada satisfação dos professores (TAB. 18) quanto à segurança e saúde no ambiente escola. Entretanto, apesar de não ter sido observada diferença estatisticamente significativa (p<0,05) entre as médias das duas escolas, nota-se que a média da estadual (3,17) demonstra moderada satisfação, enquanto a da municipal (2,89) demonstra insatisfação.

TABELA 18

Comparação entre os professores da escola municipal e da estadual quanto à variável Segurança e Saúde

Min Máx. Média d.p.

Municipal 1 5 2,89 1,3150

Estadual 1 5 3,17 1,4462

Total 1 5 3,08 1,4110

Fonte: Dados da Pesquisa

Nota: O valor de p se refere ao teste de Mann-Whitney Mu = Municipal e Es = Estadual

Medidas Descritivas

Segurança e Saúde 0,053 Mu = Es

p Conclusão

Variável Questões Instituição

41 a 43

A escuta dos professores das escolas pesquisadas revelou sua insatisfação com a inadequada infra-estrutura institucional e com a jornada de trabalho. Outra fonte de insatisfação revelada foi a falta de uma política pública eficaz nas áreas de segurança e saúde. Os docentes reclamaram da presença de muitos alunos dentro de sala, do descaso do Governo com a saúde dos profissionais da educação e da insegurança quanto à integridade física das pessoas no âmbito das escolas.

Como exemplo da falta de estrutura foi apontada a biblioteca da escola estadual, que oferece apenas oito livros de Biologia e dezesseis de Química14 para o atendimento a quase cinco mil alunos. Não há assinatura de revistas ou jornais. De acordo com os professores dessa escola, o giz é o único material que não falta. Já na escola municipal, cada professor tem que comprar o próprio pincel atômico para quadro branco.

Com relação à jornada de trabalho cumprida, um dos entrevistados (M11) observou que sua carga horária (58 horas semanais) representa a média exigida da categoria, fato diretamente relacionado com a necessidade de complementação salarial. A partir dos depoimentos registrados, conclui-se que o professor poderia ter condições de trabalhar com tranqüilidade em mais de um turno, se possuísse recursos que facilitassem essa jornada, tais como veículo e condições financeiras para pagar uma empregada doméstica. Como não tem, seu desgaste e seu nível de preocupações se tornam elevados. Por isso, na visão de um entrevistado o professor de escola pública é “um sonhador, é um profissional que acredita na educação, é por isso que ele está aqui, tentando bater nessa tecla” (E14).

O número elevado de alunos em sala de aula, de acordo com os entrevistados, é uma questão relacionada com a baixa prioridade que o Governo dá a esse fator dentro do rol de problemas que determinam a má condição de trabalho dos professores.

Na percepção dos entrevistados, não há interesse por parte da diretoria da escola nem do Governo quanto à saúde do professor, fato exemplificado pelo relato do entrevistado M9: “Não existe uma prevenção de problemas físicos. O professor escreve muito no quadro, acaba tendo problemas de coluna. Mas nada, nada, nada é feito”. Não houve menção nas entrevistas a fatores como iluminação, ruído ou temperatura. Essa omissão talvez se justifique pelo fato de o professor direcionar suas prioridades para os aspectos objetivos de seu trabalho, ou por não ter problemas reais nesse sentido.

Quanto à integridade física, observou-se que os professores entendem que há segurança nas escolas em que trabalham, embora afirmem que o mesmo não ocorre em escolas de periferia. Tal posicionamento pode ser exemplificado pelo entrevistado M11, ao comentar que “quanto à integridade física, não tem problema nenhum. Violência nenhuma, nem aqui nem em nenhuma das duas outras escolas em que eu trabalho”.

Entretanto, a pesquisadora pôde, por duas vezes, presenciar a intervenção da Polícia em brigas dentro da escola municipal na qual o mencionado respondente dá aula. Acrescente-

14

se uma terceira situação, relatada por um dos entrevistados do turno da noite, sobre um aluno que tentou atingir com uma carteira a cabeça da professora, sendo expulso por tal ato.

O que se pode inferir é que os professores podem ter-se referido, em suas respostas, à segurança fora da escola. Por estarem localizadas na região centro-sul da capital, as escolas pesquisadas dispõem de maior assistência policial na entrada e na saída dos turnos, ou seja, na parte externa, a integridade física está mais garantida. Outra provável justificativa seria talvez a orientação recebida da diretoria no sentido de ocultar tais fatos, para preservar a imagem institucional.

A questão da integridade física na sala de aula está, para muitos professores, associada à agressividade que os adolescentes vêm apresentando nos últimos tempos. Os professores sentem que se trata de um problema extra-muros, como exemplificado pelo depoimento que se segue:

Não é um problema que está dentro da escola. Ele está fora da escola, ele veio para a escola. Muitas vezes, você tem até que sair da sala de aula para poder se livrar de uma pior. A gente tem que ter um jogo de cintura muito grande, se quiser ter integridade física. E, muitas vezes, fazer vista grossa para determinados comportamentos dos alunos, porque, se você bater de frente com eles não tem jeito, você vai acabar saindo perdendo. Por quê? Primeiro porque ele não tem muita consciência. Ele é menor, ele não tem muita consciência. [...] Às vezes, você pede para o aluno sair de sala e ele não quer sair. Então, é preferível você sair e deixá-lo, do que você insistir e provocar uma situação incontrolável, muitas vezes, uma agressão física. (M17)

Em resumo, os professores estão moderadamente satisfeitos quanto à segurança e à questão da saúde. Apesar de não haver diferença significativa entre as escolas, os professores municipais estão mais insatisfeitos que os estaduais. Para os professores da escola municipal, a maior insatisfação se refere à infra-estrutura da escola e à quantidade de alunos em sala de aula. Já os entrevistados da estadual indicaram a jornada de trabalho como a maior fonte de insatisfação.