Devido às diferentes formas de classificação e o alto grau de desconhecimento sobre a diversidade desses subgrupos, os Yanomami são agrupados muitas vezes de
27 Os Yanomami consideram que as crianças apresentam, assim como alguns espíritos pore pë, uma fala
maneira incorreta. Vejamos o quadro de “etnias” do Distrito Sanitário Yanomami (DSY) retirado do sítio eletrônico da SESAI28:
O que consideramos nessa dissertação como “subgrupos”, a tabela da SESAI identifica como “etnias”. Com exceção da etnia Ye’kuana, são consideradas mais quatro: Sanuma, Xiriana, Yanomami e Aicaba, sendo que essa última aparenta ser uma forma mal escrita de “Waika pë”. Os números apresentados na coluna “quantidade de pessoas por etnia” definitivamente não são estimativas próximas da realidade. De acordo com essa tabela, os Sanuma seriam apenas 13, sendo que na verdade ultrapassam o número de 2.000 pessoas. E ainda, os dois únicos Xiriana existentes na T.I. Yanomami estariam divididos entre duas aldeias. A etnia Aicaba, que teria um único representante, também poderia ser considerada uma etnia em extinção.
Essa tabela apresenta dados totalmente incorretos, não adotando a classificação “cultural” que seria condizente com o conceito de “etnia”. Caso o fosse, apenas as etnias Yanomami e Ye’kuana seriam atendidas por esse DSEI. Tampouco utilizou alguma das classificações linguísticas que abordamos anteriormente, já que a diferença entre Yanomae e Yanomamö foi suprimida, provavelmente sendo aglutinados na categoria genérica Yanomami.
Assim, consideramos que, para discutir uma proposta de classificação do povo Yanomami deve-se conjugar a visão nativa sobre a diversidade com um profundo trabalho etnológico de comparação analítica. Possivelmente, esse esforço colocaria em evidência às características distintivas dos subgrupos Yanomami. Por ora, consideraremos uma divisão dos subgrupos baseada não apenas em critérios linguísticos, mas também em autodenominações e perspectivas nativas. Podemos
28 Secretaria Especial de Saúde Indígena, criada através do Decreto nº. 7.336/2010, estrutura do
Ministério da Saúde que tem como uma de suas atribuições “coordenar o processo de gestão do
Subsistema de Atenção à Saúde Indígena para a proteção, a promoção e recuperação da saúde dos povos indígenas”.
considerar, portanto, os subgrupos com seus outros etnônimos em parênteses, seguidos das regiões em que vivem como se segue. Assim agrupados, todos os subgrupos utilizam esses mesmos termos como autodenominações.
Ninam (Xiriana, Xirixana)
Regiões: Ericó, Baixo Mucajaí, Alto Mucajaí, Palimiu.
Yanomae com os dialetos ocidental e oriental como proposto por Ramirez Regiões: Surucucu, Demini, Toototopi, Arathau, Parahuri, Hakoma, Missão Catrimani, Homoxi, Xitei, Haxiu, Waputha, Novo Demini, Kataroa.
Yanomamö (Yanonamö)
Regiões: Parawau, Padauiri, Ajuricaba, Maturacá, Marari, Maiá e Marauiá.
Yanomama
Regiões: Papiu, Kayanau, Catrimani I Yawaripë
Regiões: Ajarani e Serra da Estrutura (grupo em isolamento voluntário)
Waika29
Regiões: Apiau e Baixo Catrimani Sanuma
Regiões: Auaris, Cachoeira Tucuxim (Parahuri)
29 O subgrupo denominado Waika (com w maiúsculo) aqui considerado diferencia-se de waika (com w
Pelos motivos que apresentamos anteriormente, não existem dados exatos sobre o número de indivíduos em cada um desses subgrupos, mas é possível chegar a uma estimativa com algumas ressalvas. Considerando os dados do censo do DSY de 2010, somando o número de habitantes por região que compõe cada subgrupo, podemos afirmar que a população mais numerosa é dos subgrupos Yanomae e Yanomamö, seguida pela Sanuma e pela Yanomama. Em menor número, estão os Waika, os Yawaripë e os Ninam, em ordem crescente.
No território Yanomami localizado na Venezuela, temos a presença de todos esses subgrupos com uma repartição numérica semelhante à encontrada no Brasil, com a diferença que o número de Yanomamö é superior ao de Yanomae. O número de Sanuma também pode variar. Diferente do Brasil, um número considerável de Sanuma vive disperso em aldeias compartilhadas com os Ye’kuana e com outros subgrupos Yanomami, sendo mais difícil isolá-los em um subgrupo. Não encontrei nenhuma fonte da Venezuela que fizesse menção aos Yawaripë, Waika e aos Yanomama do mesmo modo como estão sendo tratados aqui.
Mapa 9 - Mapa das línguas Yanomami na Venezuela e do Brasil (Albert e Milliken, 2009:12). É possível a coexistência de representantes de mais de um subgrupo linguístico na mesma aldeia e até mesmo que pessoas de diferentes gerações pertencentes à mesma família nuclear falem línguas diferentes. Nas regiões de Homoxi e Alto Catrimani são faladas tanto a língua Yanomama quanto o dialeto ocidental de Yanomae. Na região Parawau fala-se Yanomamö e Yanomae Oriental. Na aldeia sanuma Kalisi da região de Auaris, vivem alguns Yanomae oriundos da região conhecida como Cachoeira do Tucuxim. Certamente seria um fenômeno linguístico interessante de ser investigado.
A intensificação do contato com a sociedade envolvente, principalmente pela dependência criada por certas mercadorias industrializadas e pela assistência à saúde, levou vários subgrupos Yanomami a fixarem moradias próximas às pistas de pouso e, consequentemente, dos Postos de Saúde (pólos-base) e da FUNAI ou das missões religiosas. Auaris, a região onde vivem os Sanuma, subgrupo que será o foco dessa dissertação, é uma das mais populosas da T.I. Yanomami, assim como Surucucu e Maturacá. De maneira semelhante, essas regiões possuem uma rede de infraestrutura, interesses e relações, influenciados pela convivência entre inúmeros grupos locais e as várias instituições que representam o Estado brasileiro e os diversos tipos de não- indígenas.
CAPÍTULO 2 – Os Sanuma: algumas especificidades culturais e convivência