O trabalho mais sofisticado de uma escola de samba, para onde se voltam todos os olhares em busca de detalhes e riqueza, são os quesitos comissão de frente, porta- estandarte, mestre-sala e porta-bandeira e os destaques de luxo que compõem e completam as alegorias. Este trabalho não é feito nos barracões das escolas e sim em ateliês de artistas especializados e experientes nas artes do carnaval.
106 Seu Cláudio mora no bairro do Guamá, conserta sapatos e confecciona apenas sapatilhas.
107 Seu Manoel, mais conhecido por Manelão, é sapateiro que cria e confecciona sapatos para espetáculos
teatrais, quadrilhas juninas e carnaval. Já participou da diretoria da Bole-Bole, hoje é evangélico e confecciona sapatos para diversas escolas de samba de Belém, Tucuruí e Macapá. Sua oficina, onde trabalha com filhos(as) e netos(as), fica na Pedreirinha do Guamá, vizinha à sede da Bole-Bole.
Entre as atividades listadas por Cynthia Luderer (2011), para as funções do carnavalesco Raul Diniz no carnaval paulistano em 2006, estão a “contratação de serralheiros, marceneiros, escultores e aderecistas”. No meu caso, na Bole-Bole, não se trata de contratação e sim de uma recomendação para que artistas e escola cheguem a um acerto. A produção dos quesitos é cercada de segredos, e a escolha de quem vai realizá-los pode interferir diretamente no estilo do carnavalesco, estilo aqui compreendido como sistema de representações de mundo, conforme Arthur Danto,
Minha teoria sustenta que somos sistemas de representações, pouco importando se ao sistema de palavras ou de imagens ou ainda de ambas, o que é mais provável [...] Entendo por estilo esse modo de uma pessoa representar o que quer que ela represente. Se o homem é um sistema de representações, seu estilo é o estilo de suas representações [...] somos sistemas de representação, maneiras de ver mundo, representações encarnadas (Danto, 2005, p.293).
Delleam Cardoso foi o artista recomendado por mim e aprovado pela diretoria da escola para confeccionar as fantasias do porta-estandarte, dos casais de mestre-sala e porta-bandeira e dos destaques de alegoria.
Seu ateliê é montado na sala de sua casa, que fica na passagem São Benedito, à rua dos Caripunas, no bairro do Jurunas. É, como gosto de dizer, uma casa-ateliê que todos os anos perde sofás e cadeiras, mandados para a troca de revestimentos na movelaria, e vira um espaço de trabalho para as escolas de samba. Os maiores destaques do trabalho de Delleam são as estruturas de cabeças e costas feitas em alumínio e não em ferro como de costume, permitindo cortes mais exatos e deixando as peças mais leves e a composição de passamanarias e pedrarias que imprime às fantasias aspectos de exclusividade.
Toda a família do artista se envolve com os afazeres do ateliê. Sua esposa Andréa Cardoso, que desfila como destaque de luxo, borda detalhes de estandartes, bandeiras e fantasias, seus filhos Ludmila e Deleandro Cardoso, que formam o casal mirim de mestre-sala e porta-bandeira da Bole-Bole desde 2010, cortam pequenas peças de tecido para composição de cabeças; seu irmão Elton torce arames e encapa-os com esponja e tecido, seu pai João e seu sobrinho Muller auxiliam em cortes e moldagens de chapas de alumínio. Delleam faz a decoração, os acabamentos, e empluma cabeças, golas e resplendores das fantasias.
Delleam faz da arte o seu trabalho durante todo o ano, criando e confeccionando figurinos e adereços em festas carnavalescas, juninas, eventos
comerciais e festividades religiosas, aliando arte e técnica, dinamizadas pelo fazer e pelo produzir, como enfatiza Alfredo Bosi,
A arte é um fazer. A arte é um conjunto de atos pelos quais se muda a forma, se trans-forma a matéria oferecida pela natureza e pela cultura. Nesse sentido, qualquer atividade humana, desde que conduzida regularmente a um fim, pode chamar-se artística. [...] A arte é produção; logo, supõe trabalho. Movimento que arranca o ser do não ser, a forma do amorfo, o ato da potência, o cosmo do caos. Techné chamavam-na os gregos: modo exato de perfazer uma tarefa, antecedente de todas as técnicas dos nossos dias (Bosi, 2002, p.13).
Os desenhos das fantasias de quesitos e destaques foram os primeiros que terminei. Para 2011, isso aconteceu em julho. A partir daí converso com o artista, digo
exatamente o que pretendo, e ele se encarrega dos orçamentos junto à diretoria e das compras de materiais no comércio de Belém. Os materiais escolhidos por ele são sempre os melhores para as fantasias, e em um detalhe de meu desenho em que coloco três tirinhas, por exemplo, é porque já sei que ele irá utilizar fiadas diferentes e intercaladas de galões e passamanarias de formatos e cores diferentes. Vou ao seu ateliê toda semana ou sempre que houver necessidade de qualquer mudança, para decidirmos juntos o melhor para as fantasias e para as pessoas que as vestirão no desfile.
São feitas quatro provas das roupas: 1) das anáguas e das estruturas de cabeça e costas, 2) das roupas ainda sem decoração e bordados para ajustes; 3) das roupas ajustadas; 4) das fantasias completas (roupa, costa e cabeça).
As fantasias dos quesitos só podem ser entregues à diretoria e a mais ninguém, nem mesmo aos dançarinos, e essa entrega só é feita depois que eu faço a última checagem, geralmente uma semana antes do desfile.
O trabalho de Delleam se estende até a avenida quando, na concentração, ele confere como estão presas as cabeças e as costas e como estão montados o estandarte e as bandeiras. No desfile, ele e o irmão Elton fazem parte da equipe da carnavalesca, formada por pessoas de fora da escola, que seleciono para “cuidar” de quesitos e convidados na arrumação do desfile.
Em 2008, além de fazer mestre-sala e porta bandeira e porta-estandarte, Delleam também era responsável pela comissão de frente. Mas naquele momento
58-Bole-Bole 2011, prova da fantasia da comissaõ com Beto Benone e Rai Tavares
percebi que a quantidade de trabalho era excessiva para um único ateliê, principalmente porque ele não atende somente a uma escola de samba, além de que a costura não é realizada em seu ateliê, o que deixa a produção longe dos meus olhos até quase à véspera do desfile, algo que não queria que acontecesse em 2011.
Em “Bonecos pra lá de Animados”, a fantasia da comissão de frente, que
representava Pinóquios, o Grilo falante e Gepeto, era essencialmente um trabalho de costura. Então escolhi Rai Tavares, experiente costureira com quem já havia trabalhado em espetáculos da Escola de Teatro e Dança da UFPA e no carnaval de 2010, quando fez fantasias dos integrantes do grupo “Palhaços Trovadores”, para confeccionar a
fantasia da comissão de frente. Rai trabalha em sua casa, na Alameda Novo Horizonte, Rua Antônio Everdosa, no bairro da Pedreira.
A única peça da fantasia que não foi feita por Rai, por não se tratar de costura, foi o chapéu, trabalho para o qual chamei Guilherme Repilla, carnavalesco, artesão que trabalha em sua casa, na Rua dos Pariquis, no bairro da Cremação, onde moro.
O fato de ter a produção dos quesitos espalhada por três bairros da cidade exigia que eu realizasse uma espécie de tour pelos ateliês, pelo menos duas vezes por semana.
Os chapéus da comissão de frente foram um momento diferenciado da produção, pois os mesmos deveriam trazer cabelos e contribuir para que todos os integrantes, alunos de teatro e dança da ETDUFPA, parecessem iguais, funções já incorporadas pela costura e pelo visagismo, que estava sob responsabilidade do professor Cláudio Dídima.
Fizemos três testes para os cabelos: 1) com lycra espichada em tubinhos, 2) com escultura em isopor, coberta com lycra e 3)
com E.V.A.; um trabalho semelhante ao que Guilherme já havia realizado para o espetáculo “O Auto do Círio”108.
Guilherme fez todos os chapéus e cabelos iguais, mas, percebendo que as franjas dos cabelos teriam que ser cortadas conforme o rosto de cada integrante, executou o corte reto para a altura correta da franja, e deixou para os
108 O “Auto do Círio” é um espetáculo teatral em forma de cortejo que acontece há 18 anos nas ruas do
bairro da Cidade Velha, na sexta-feira que antecede a procissão do Círio de Nazaré.
59-Bole-Bole 2011, corte do cabelo da comissão na ETDUFPA.
integrantes a tarefa de afinar a ponta de seus cabelos de E.V.A. A busca pela homogeneidade das cabeças, feita inicialmente com “grande dose de complexidade”, se transformou em “uma noção simples e satisfatória” (Nachmanovitch, 1993, p. 100) e permitiu que os integrantes fizessem parte do processo criativo da fantasia do seu personagem, realizando o corte das pontas de suas próprias franjas de cabelo.