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6.3 Grunnerverv og dimensjonering

6.3.4 Masseberegning

Optei por enfocar o projeto político pedagógico do MST8

(Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), pois é este projeto que alicerça grande parte dos projetos pedagógicas das escolas do campo e no caso desta pesquisa ele embasa fortemente as ações pedagógicas da escola municipal do campo Hermínio Pagotto em Araraquara-SP onde se deu o trabalho.

Vale expor que a situação de liderança do MST na elaboração e ampliação da adoção do mesmo nas escolas do campo se concretiza por conta da ausência ou omissão real governamental na discussão sobre a educação do campo. Ausência histórica como salientou o resgate dessa educação apresentado anteriormente. No próprio Plano Nacional de Educação (Lei nº 10.172/2001), consta a admissão de que a “educação do campo é a mais tocada pela ausência de definição de rumos, fato admitido quando o documento coloca que:

entre os diferentes níveis de ensino, esse foi o que enfrentou nos ultimo anos, a maior crise em termos de ausência de definição de rumos que deveriam ser seguidos em seus objetivos e sua organização. (BRASIL, 2001, p. 36).

Inicio as reflexões sobre o projeto do MST com o auxílio de Caldart (2004, p. 89) e reproduzo literalmente uma frase sobre a gênese da luta pela educação nesse movimento:

No começo não havia muita relação de uma luta com a outra, mas aos poucos a luta pelo direito à escola passou a fazer

8 O MST surgiu em 1984 como decorrência do acúmulo das experiências da luta popular pela terra que

parte da organização social de massas de luta pela Reforma Agrária, em que se transformou o Movimento dos Sem Terra. Olhando hoje para a história do MST, é possível afirmar que em sua trajetória o Movimento acabou fazendo uma verdadeira ‘ocupação da escola (...).

Ocupando esse espaço tradicionalmente vazio que personifica o iniciar das políticas e das reflexões nacionais o MST ao “ocupar a escola” o fez em três esferas:

a) da mobilização pelo direito à escola;

b) da assunção da tarefa de organizar e articular por dentro de sua organicidade esta mobilização, produzir uma proposta pedagógica específica para as escolas;

c) formar educadores aptos a trabalhar nesta perspectiva. (Caldart, 2004).

A criação de um Setor de Educação em 1987, portanto anterior a qualquer iniciativa governamental, demonstra não só a formalização de um novo eixo de luta, mas a autonomia perante Estado no território das decisões. Metaforicamente, é como se nesse momento o MST afirmasse a quem quisesse ouvir: “decide quem chegar primeiro”.

Carvalho (2003) contribuiu com várias informações sobre a estrutura organizativa desse setor e pertinentemente da constituição do projeto pedagógico do movimento. Explica que o processo de implantação da primeira proposta pedagógica contou com a participação de setores da educação de sete estados. Deste encontro nasceram perguntas que nortearam os debates por dois anos como: “O que queremos com as escolas dos assentamentos e como fazer essa escola?”.

O resultado desse debate foi explicitado no caderno de educação n°. 18. A proposta pedagógica do MST se inspirou nos diálogos com os movimentos de educação popular e com as diversas experiências de escolas alternativas. Todas as reflexões geram material impresso que subsidia o trabalho dos educadores dos assentamentos e acampamentos. Fortalecidos admitem em 1999 nos Cadernos de educação número 9 terem uma pedagogia própria. “O MST tem uma pedagogia. A pedagogia do MST é o jeito através do

qual o Movimento vem formando historicamente o sujeito social de nome Sem Terra, e que no dia-a-dia educa as pessoas que dele fazem parte”.

Essa pedagogia tem sido denominada “pedagogia do movimento”. Ela se inicia pelo enraizamento dos sujeitos na coletividade do movimento. Entende educação como humanização e apresenta como matrizes pedagógicas ou influências:

a) a pedagogia da luta social;

b) a pedagogia da organização coletiva; c) a pedagogia da cultura;

d) a pedagogia da escolha; e) a pedagogia da terra;

f) a pedagogia do trabalho e da produção; g) a pedagogia da história e;

h) a pedagogia da alternância.

De lá pra cá o MST elaborou projetos e concretizou iniciativas em várias modalidades de educação não só a educação básica. Começou lutando por escolas de 1ª a 4ª séries e atualmente estende-se no oferecimento de projetos desde a educação infantil até a Universidade passando pela alfabetização de jovens e adultos e de cursos de formação para a militância.

Nas discussões iniciais a questão que centralizava a reflexão era o tipo de escola ou modelo pedagógico seria mais coerente com os Sem Terra e poderia auxiliar nos seus objetivos de luta pela terra. Caldart (2004, p.94) esclarecendo este processo explica que o que ocorreu foi que não se encontrou modelo revolucionário em si mesmo que coubesse nas expectativas do grupo e indica o rumo das decisões: tratava-se de alterar a postura dos educadores e do jeito de ser da escola como um todo.

O MST produz material e cartilhas amplamente encontrados nas escolas do campo e envia representantes para participar da construção de projetos políticos pedagógicos em todo o país. Conforme afirma Caldart (2000), o projeto educativo do MST caracteriza-se fundamentalmente pela luta coletiva, em cuja dinâmica o sem-terra se educa na relação com os outros, no trabalho na terra, para produzir a dignidade dos despossuídos da sociedade de classes. O diálogo libertador proposto por Freire (1997) é eixo estruturante dessa pedagogia

Apresentei algumas diretrizes governamentais e dos movimentos sociais que dão feição às propostas dessa educação. A expectativa é de alimentar a curiosidade pelo tema a partir da apresentação de tais conceitos basais.

Intento ter apresentado elementos que caracterizam o infortúnio da educação do campo. Séculos após a iniciativa imperial de abrir escolas rurais ainda vejo a indiferença com que ainda é tratada. Para além disso observa-se como uma questão de tamanha importância aos povos do campo está sendo cooptada, dirigida e decidida por um movimento social, o MST.

Não é objetivo deste trabalho, analisar a proposta pedagógica do MST, mas, não posso deixar de expressar a preocupação com a “ocupação da escola” que ele vem realizando, pois o que ocorre é “uma ocupação da educação do campo” e esse movimento não deveria ser o dignitário oficial dessa responsabilidade. A educação do campo deveria ser concebida pela sociedade geral e outorgada fidedignamente às diretrizes desta sociedade pelo Estado.

Quanto mais delimitado o projeto pedagógico do MST menos participação do Estado e da sociedade haverá no projeto de educação do campo já que a participação ampla dos seus sujeitos, dos membros do MST na sua elaboração se por um lado enriquecem a visão que está na raiz das demandas pela educação do campo, por outro estimula ou falseia uma unicidade de valores que pode beirar o extremismo.

Atenho-me com olhares polioculares aos dados que encontrei e que serão descritos e analisados nos próximos capítulos do trabalho. Eles mostram especificidades da docência no campo, traços alinhavados em aproximações e distanciamentos entre a atualidade e o passado histórico dessa educação.