• No results found

Seu livro O Gerente Equalizador constitui um novo paradigma que quebra o “olhar acostumado” de todos nós que buscamos visualizar e compreender as organizações sob a égide dos paradigmas funcionalista e objetivista. O autor faz uma análise profícua dos desenvolvimentos conceituais da MO e suas implicações para os processos de mudanças no setor público. Em seus estudos, deixa evidente que a MO se estabeleceu como subárea de conhecimento, e, no contexto mais pragmático da modelagem, o gestor assume papel de maior relevância.

Numa perspectiva inovadora, Bianor Cavalcanti utiliza-se da metáfora da equalização – redução das distorções de um sinal por meio de circuitos compensadores – para mostrar a importância do papel do gestor como gerente equalizador que, no seu cotidiano, se vê diante de possibilidades, oportunidades, restrições e limitações. Conforme explica, a modelagem bem elaborada implica uma grande influência no comportamento dos indivíduos. No entanto, as variáveis que compõem a modelagem inadequadamente podem emitir sinais disformes e contraditórios, em função das informalidades e da própria natureza humana. Esses sinais distorcidos acabam por desnortear os empregados em relação aos instrumentos formais de gestão utilizados pela organização.

Dessa forma, o gerente equalizador atua no sentido de compreender, analisar e equilibrar as distorções das variáveis organizacionais, por meio do aumento ou diminuição das freqüências, em busca de sintonia fina e estabilidade da organização. Ele também contribui para a remodelagem das estruturas sociais e administrativas.

Para Bianor Cavalcanti, o gestor público que faz acontecer nas organizações atua como mediador entre estruturas e pessoas. Conhecedor das incongruências da organização, ele compensa os sinais distorcidos emitidos pelas estruturas impróprias, por meio da ação equalizadora, elevando os níveis de congruência pela ação social cotidiana, construtora e registradora de novas estruturas.

O autor reconhece que a administração pública está repleta de incongruências. Os modelos burocráticos rígidos e centralizados, que facilitam a existência do patrimonialismo, do clientelismo, do corporativismo e do nepotismo, não permitem a ação do gestor público como um improvisador. A ação equalizadora, que tem o papel de captar os sinais externos, compreender, analisar, equalizar ou equilibrar as distorções, seria muito mais eficaz diante das turbulências que as organizações vivem.

As constatações empíricas desses argumentos estão explicitadas nas entrevistas feitas com gestores públicos, que evidenciaram que as contingências ambientais exigem uma diversidade de modelagem e habilidades gerenciais para lidar com incertezas, improvisos, burocracia e conflitos de interesses nas decisões. Nesse aspecto, Bianor Cavalcanti afirma que bons resultados nesse contexto não são fruto de uma modelagem formal coerente, pois isso é praticamente impossível, por melhor que sejam as reformas administrativas. Assim, a equalização surge como uma forma de garantir melhores resultados na gestão pública até que se conforme uma modelagem congruente e efetiva nessas organizações.

Conforme se percebe, as quatro abordagens apresentadas partem de perspectivas bem diferentes, quais sejam, respectivamente, a da arquitetura, da improvisação e da equalização.

A abordagem estrutural funcionalista de Galbraith e de Djalma de Oliveira constitui uma visão objetivista e implica modelos estáticos e determinísticos de organização. Por sua vez, a abordagem interpretativista de Weick implica uma perspectiva subjetivista geradora de modelo organizacional como processo contínuo.

Essas três abordagens podem ser consideradas sob as premissas da dialética, em que se contrapõem claramente na maneira como abordam a modelagem. São tese e antítese que se confrontam, a partir do princípio dos contrários, e fazem surgir uma síntese, que seria o modelo equalizador de Bianor Cavalcanti. No seu escopo, o modelo equalizador considera elementos dos três modelos, imprimindo também novos elementos que o tornam particular.

A abordagem proposta por Bianor Cavalcanti pressupõe um modelo mais dinâmico de modelagem que não se limita à simples arquitetura estática ou à improvisação refutável e supera as dicotomias funcionalismo-intepretativismo e objetivismo-subjetivismo.

A ação equalizadora pressupõe uma dinamização da ação do gestor e visa muito além da simples improvisação. Ela detecta e aproveita as oportunidades que emergem do ambiente organizacional, além de corrigir as distorções das variáveis organizacionais para propor uma modelagem mais efetiva, sob a égide da eficiência, eficácia e economicidade, tão prementes na gestão pública.

Os conceitos e a tipologia de modelagem organizacional apresentados se aplicam, em toda a sua abrangência, aos cartórios judiciais, visto que, como unidades organizacionais, eles atuam diretamente nas atividades fins da justiça. Dessa forma, com o intuito de verificar como essas abordagens de modelagem se enquadram, descrever-se-á, no Capítulo 5, uma proposta de modelagem da estrutura e sistemas cartorários. Nesse contexto, é importante entender que a mera aplicação de ferramentas de gestão, por mais eficientes

que sejam, não garante o sucesso e a sobrevivência do cartório. A modelagem deve levar em conta os aspectos subjetivos que nascem e se mantêm a partir das relações sociais estabelecidas entre os indivíduos na organização e fora dela.

Por sua vez, sabendo que as organizações definem as tarefas e o uso das ferramentas de gestão por meio de formas de modelagem organizacional, a convivência entre as pessoas de dentro e de fora da organização (advogados, por exemplo) fundamenta e amplia o conhecimento quanto ao impacto dos valores sobre a vida organizacional dos cartórios. Assim, as singularidades que permeiam cada organização resultam de um complexo processo dialético de construção, desconstrução e reconstrução de sistemas e valores. É o que se busca apresentar a seguir.

3.5 Aplicabilidade dos Modelos de Modelagem Organizacional no Âmbito das